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Pedro Cabrita Reis no MAAT: a obra daquele que "se fartou de viver bem, sempre com o coração livre de cuidados"

Com cerca de 200 obras inéditas, eis a primeira exposição individual de Pedro Cabrita Reis no MAAT, instituição que alberga também a sua coleção de arte contemporânea e que cumpre agora 10 anos.

Ricardo Ramos Gonçalves
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João Porfírio
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No princípio era o verbo – ou a pintura, como diz Pedro Cabrita Reis. É nessa expressão, por ele sugerida, que se encontra uma das chaves para pensar a obra do artista português, acabado de completar 70 anos, no momento em que apresenta a sua primeira exposição individual no MAAT, inaugurada esta terça-feira, dia 15 de setembro. Intitulada com o coração livre de cuidados, a mostra é simultaneamente forma de autorretrato e território de referências por onde discorre o seu interesse contínuo pela História da Arte: dos episódios bíblicos retratados pelos mestres do Barroco e do Maneirismo ao mais puro “exercício da transparência da luz” conseguido por Monet. O momento marca também o arranque das celebrações do 10.º aniversário do museu.

Na galeria oval, dominada pela pintura, encontram-se também desenhos, colagens e esculturas. Ao todo, são cerca de duas centenas de obras, a grande maioria inéditas. Servem, como explica o curador João Pinharanda no texto que acompanha a exposição, de “pretextos para Pedro Cabrita Reis aprofundar os seus temas de sempre: o corpo e a sua erótica, a arquitetura e a sua ruína, a natureza (…), a história como fascínio e subversão”. Esses temas maiores cruzam-se, em boa parte, com o interesse do artista pela forma como a iconografia bíblica foi representada ao longo dos séculos.

É disso exemplo a série de pinturas Doppia Pietá (2026), onde regressa ao tema da descida da Cruz, através de elementos figurativos e fantasmáticos que sugerem uma leitura psicanalítica da entrega do corpo de Cristo à sua mãe. Destaca-se também Descend from the Cross (2025), escultura em madeira e serapilheira que replica o movimento descendente do corpo de Jesus, ou Adam and Eve (2026), onde revisita a dimensão simbólica do mito fundacional e da árvore da vida em três grandes pinturas marcadas pelo tom vermelho. “Interessa-me perceber a forma como outros retrataram estes temas na História da Arte”, salienta o artista. Embora não se considere uma pessoa religiosa, encontra nestes motivos – que despontaram no seu trabalho na década de 1990 – um campo de reflexão: “Há muitas formas de se acreditar e de ter fé. Eu acredito no poder da transformação pela arte”.

Esta aproximação ao sagrado não é episódica. Reflete uma linha de investigação persistente que atravessa a sua produção mais recente. Vimo-lo em Paris, com Les Trois Grâces nos Jardins das Tulherias, num projeto com o Musée du Louvre, e em Veneza, onde regressou este ano com XIV Steps, um ciclo de 14 pinturas inspirado nas Estações da Via-Sacra. No MAAT, esse diálogo prossegue na escultura com 3=1 (2026), uma especulação abstrata sobre o dogma da Santíssima Trindade, e estende-se até à própria montagem. Durante a visita de imprensa, a equipa do artista preparava-se para instalar um conjunto de 13 quadros inspirados na iconografia de El Greco, retratando os 12 apóstolos e Cristo na Última Ceia. Uma adição de última hora que Cabrita Reis justifica com a ideia de que esta exposição é “uma obra de arte em permanente desenvolvimento”.

Rodin, Monet e a tentação de um autorretrato

Mas nem só de religiosidade se compõe “com o coração livre de cuidados”. Na mostra destaca-se igualmente a série panorâmica Nymphaea Redux (2026), que espelha o fascínio de Cabrita Reis por reinterpretar os famosos nenúfares de Claude Monet, expostos no Museu da Orangerie, em Paris. São exemplos máximos do momento em que, na sua leitura, “a perspetiva e a figuração se anulam radicalmente no desígnio da pintura”. Apresenta-se, assim, um conjunto de 28 pinturas a óleo sobre madeira, executadas no chão, com recurso a esfregonas usadas como pincéis. Sempre interessado no lado mais técnico do fazer artístico, Cabrita Reis garante não ter angústias existenciais. “Antes uma inquietação interior que vem do maravilhoso aroma que reencontro todos os dias de manhã no estúdio, que é o da tinta a óleo”, desvenda.

Ao lado do sagrado e da fé, abre-se espaço para o lado mais somático e luxurioso da vida, numa continuação desse lado referencial presente na exposição. Destaca-se assim a sua incursão no desenho, na pintura e na aguarela através da série Le Musée Secret (2025). Exposto em vitrina, o erotismo explícito, desregrado e sem pudor surge como citação e homenagem a Auguste Rodin, que deixou um conjunto homónimo de 121 desenhos e aguarelas eróticos e provocadores que o próprio manteve escondidos durante a sua vida. Para Cabrita Reis, trata-se de um olhar de segundo grau, um “desenho sobre desenho” que, livre de qualquer intenção de cópia, resulta numa operação de distanciamento e abstração.

Nesse encontro entre pares, regressa também a tentação do autorretrato pela qual o artista ficou largamente conhecido. Logo à entrada da mostra, encontra-se Ridi Pagliaccio (2015) – a única série anteriormente exposta –, onde o objeto das imagens é o próprio artista em contextos de festa e convívios íntimos ou familiares, surgindo agora como comentário jocoso e crítico. Cabrita Reis resgata o título da célebre ária da ópera Pagliacci (composta em 1892 por Ruggero Leoncavallo) e retira-lhe a dimensão puramente trágica, transformando-a numa exaltação narcísica e numa linha de autorrepresentação reflexiva.

Em linha com esse olhar irónico, junta-se à saída da exposição a série Ecce Homo (2025), sobre a apresentação e entrega de Jesus à multidão, na qual o artista se substitui à figura de Cristo. “É uma cena que já foi interpretada por mais do que um artista como forma de autorretrato”, explica, recordando as pinturas de Dürer. “Não me propus a essa ambição, mas há quem veja estes quadros como forma, uma vez mais, de fazer autorretrato”, sublinha. Feita a glosa entre o lado espiritual e a sua própria representação, a mostra é também evidência das várias temporalidades e referências que lhe interessam, sustenta João Pinharanda.

Para o curador, falamos de um artista obstinado. “Cada uma destas pinturas, cada série, é usada como reconhecimento e afirmação de uma cultura e de uma história, de uma temporalidade onde o artista deseja ter pertença ativa. A obsessão com que pratica a aproximação ao cânone e o desvio do cânone, alcança-a contra a facilidade, mas realiza-a em felicidade, ‘com o coração livre de cuidados’”, completa.

É também nessa ideia de liberdade perante o cânone, a própria obra e a vida que Pedro Cabrita Reis parece reconhecer-se nas palavras que dão título à exposição. Com origem numa passagem de Hesíodo, em Trabalhos e Dias, a expressão serve de mote, quiçá, para a sua vida, diz o artista. “Sempre vivi como me apeteceu, sempre com o coração livre de cuidados, e resolvi deixar plasmada essa espécie de epitáfio onde diria ‘aqui está um gajo que se fartou de viver e bem e viveu sempre com o coração livre de cuidados’.”