(c) 2023 am|dev

(A) :: Ministra da Saúde critica foco mediático "nos casos", lamenta análises baseadas em "perceções" e atira aos "interesses instalados" no setor

Ministra da Saúde critica foco mediático "nos casos", lamenta análises baseadas em "perceções" e atira aos "interesses instalados" no setor

Ana Paula Martins lamenta impacto das "perceções" na análise e critica "atenção desproporcional" dada à Saúde. A ministra assume: é preciso força para "aguentar embate" contra "interesses instalados".

Tiago Caeiro
text

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, considera que o foco mediático colocado nos “casos” em torno do SNS é um fator negativo para o funcionamento do sistema de saúde e que desestabiliza e desmotiva os profissionais, lamentando também a criação de “perceções”, que são “difíceis de ultrapassar”. Nas comemorações do 47.º aniversário do SNS, Ana Paula Martins criticou também o que disse serem “os interesses instalados”, numa mensagem lançada num momento em que se reacende a tensão entre o ministério e os médicos prestadores de serviços. No encerramento da cerimónia, a ministra aproveitou ainda para desvendar algumas linhas orientadoras da reforma da Saúde, que está a ser preparada.

“A análise sustentada na exploração de casos individuais não serve para melhorar o sistema, contribuindo indesejavelmente para desestabilizar profissionais e equipas, para lhes retirar motivação e força, para lhes retirar vontade de continuar. A união dos diferentes agentes em torno de soluções comuns, essas sim potenciarão resultados e melhorarão o funcionamento do sistema de saúde”, disse Ana Paula Martins, ressalvando, no entanto, que não defende uma sociedade ausente de crítica.

“Não estou, naturalmente, a defender uma sociedade acrítica. Mas é um apelo, num dia especial, a uma crítica construtiva, que aponte soluções”, disse a governante, criticando aquilo que diz ser “a atenção desproporcional” que o setor da Saúde tem na opinião pública. “Tudo o que fazemos em Saúde tem um enorme impacto na vida dos portugueses e uma atenção muitas vezes, é verdade, desproporcional. Mas é assim, foi assim, e será assim em Portugal e em boa parte dos países europeus”, reconheceu Ana Paula Martins, lamentando também aquilo que diz ser o impacto das “perceções” na construção da opinião de cidadãos e comunicação social.

“Sabemos que o impacto das perceções na análise dos nossos cidadãos, dos nossos utentes, na comunicação social, é uma realidade difícil de ultrapassar. Temos de aprender a viver com essa realidade, e torná-la uma realidade construtiva e favorável, porque a comunicação social tem um trabalho determinante em veicular aquilo que estamos a fazer em favor dos cidadãos e do país”, afirmou a ministra da Saúde, em Coimbra.

Ministra diz que é preciso ter coragem para enfrentar “interesses instalados” e “aguentar os embates”

Numa crítica velada aos médicos prestadores de serviço, Ana Paula Martins defendeu que é necessário ter coragem para enfrentar “interesses instalados” e depois lidar com o impacto dessa luta. “Este não é o mesmo SNS que António Arnault [fundador do SNS] criou, mas os mesmos princípios, os mesmos valores, a mesma determinação, a mesma coragem para enfrentar interesses instalados, que colocam o interesse individual à frente do interesse coletivo. Esta é uma batalha difícil, mas não é impossível. É preciso, como foi no tempo de António Arnault, força para aguentar os embates. Mas o segredo da força está na vontade”, garantiu Ana Paula Martins.

https://observador.pt/2026/09/14/sns-medicos-tarefeiros-nao-aceitam-reducao-de-valor-hora-e-ameacam-com-paralisacao-massiva/

Consciente de que “a saúde é a principal preocupação dos portugueses”, a ministra da Saúde reconhece que ainda subsistem muitos problemas por resolver. “Sabemos que existem muitos problemas, problemas concretos, problemas todos os dias, sabemos que vão existir novos problemas”, admitiu, apontando como exemplo a falta de anestesiologistas. Para responder a esses desafios, Ana Paula Martins pediu um acordo institucional, que permita fazer reformas. “Hoje é dia para reafirmar que o futuro com sucesso de uma política sustentada de saúde depende de um acordo institucional, norteado pelo interesse nacional e não por simples prerrogativas político-partidárias. Reformas profundas dependem de tempo e de estabilidade política de médio-longo prazo”, sublinhou.

A ministra da Saúde aproveitou ainda para desvendar um pouco das linhas-mestras da reforma da saúde, que está a ser preparada. “Na reforma do Ministério da Saúde, que será apresentada e consolidada brevemente, temos de ter em conta três aspetos fundamentais. Em primeiro lugar, a confiança das instituições, que precisam de se transformar mas não podem perder a sua identidade; em segundo lugar, se é necessário reformar, temos de identificar junto das pessoas e dos profissionais o que vai mudar, o que vai mudar para melhor; e, em terceiro lugar, colocar o interesse das pessoas no âmbito desta reforma”, explicou a titular da pasta da saúde, acrescentando que, para a vida dos profissionais, a reforma que está a ser preparada vai significar “menos burocracia, menos níveis de decisão, menos duplicação de funções”.