Uma luta de poder “recalcada” entre um homem e uma mulher, escondida sob a disputa pelo futuro da filha, está no centro de O Pai, de August Strindberg, que Gonçalo Waddington encena e protagoniza no São Luiz, em Lisboa.
Escrita em 1887, a peça do dramaturgo sueco, que se estreia na quarta-feira, coloca frente a frente o Capitão e a mulher, Laura, em conflito sobre a educação da filha, Berta, mas, para Gonçalo Waddington, aquilo que parece estar em causa é um confronto mais profundo.
É “a relação de um casal e como é que uma suposta ideia de poder sobre a filha esconde uma luta de poder ainda mais recalcada e mais potente”, explicou o encenador aos jornalistas, no final de um ensaio de imprensa.
Uma luta que o encenador compara a “uma espécie de lava escondida que neste momento está em erupção”, num texto em que considera particularmente importante “o que se esconde e o que não está mostrado” e permanece subjacente à ação.
Em O Pai, o Capitão decide enviar Berta para a cidade (para fora de casa), contra a vontade de Laura. Perante a tentativa do marido de impor a sua autoridade, a mulher lança-lhe a dúvida sobre a paternidade da filha, desencadeando um processo de desagregação mental.
À medida que o confronto avança, a filha deixa de ser o verdadeiro centro da disputa e a peça expõe as relações de poder entre duas pessoas que partem de posições profundamente desiguais.
O Capitão ocupa o lugar de autoridade que a sociedade do final do século XIX reserva ao homem, embora não esteja preparado para exercer essa autoridade no espaço familiar, explica Gonçalo Waddington.
“Ele é o homem, ele é que recebe o dinheiro, ele é militar, ele tem uma posição. E ele tem que exercer autoridade”, afirmou, acrescentando que, ao contrário da instituição militar, a família não obedece a essa hierarquia.
Laura, pelo contrário, “não tem as mesmas armas que ele, ela não tem o dinheiro, porque o dinheiro pertence ao marido […], não tem um trabalho, não tem uma carreira, não vota”, mas isso não significa que seja uma personagem passiva ou simplesmente uma vítima.
“Ela tem o direito de ser tão filha da mãe como ele”, afirmou o encenador, sublinhando que ambos combatem “com tudo”.
A violência desse confronto coloca a encenação perante a questão da misoginia atribuída a Strindberg, que deixou escritos profundamente hostis às mulheres e concebia as relações entre os sexos como uma luta pelo poder.
Gonçalo Waddington não contorna a misoginia do autor, mas considera que a personagem de Laura torna mais complexa uma leitura nesse sentido, porque a sua força reside precisamente em enfrentar o marido apesar da desigualdade social e económica entre ambos.
Numa das discussões, num momento em que o processo de loucura do Capitão, induzido pela dúvida persistente sobre a paternidade, já vai avançado, Laura diz-lhe: “Já deves ter percebido que a minha inteligência está à altura da minha vontade, que sou superior”.
“O Strindberg era misógino, mas nesta peça não é muito”, afirmou, defendendo que o dramaturgo criou algumas “das personagens femininas mais incríveis”.
Escrito há quase 140 anos, O Pai chega ao palco sem uma atualização da ação para os dias de hoje, apesar da modernidade do cenário, opção que Gonçalo Waddington justifica com a capacidade que o próprio texto original tem para confrontar o espectador contemporâneo.
Para o encenador, “a atualidade ou atualização de um texto” não depende de transportar a história para o presente, pois “o que é atual nisto é precisamente confrontar o público com um texto de 1887 e isto reverberar ainda hoje”.
O encenador e ator foi taxativo ao afirmar que o mais interessante na peça para o público atual são “o texto e as pessoas”, e destacou que não tem “nenhuma ambição de passar mensagens”, pois “para passar mensagens” usa o Instagram.
O objetivo é antes reproduzir no espectador o impacto que sentiu quando leu O Pai pela primeira vez: “Li-o muito rápido, porque é intenso, é potente, e quando acabo de o ler fico com muito poucas certezas, fico com dúvidas e fico: ‘Uau, isto é incrível'”.
Além de encenar, Gonçalo Waddington interpreta o Capitão, uma decisão que estava tomada desde que escolheu a peça.
“Quando li aquilo disse: ‘Não vou esperar que alguém me convide para fazer um papel destes'”, contou o ator que, em palco, contracena com Carla Maciel, no papel de Laura, atriz com quem partilha também a direção artística da companhia.
O elenco integra ainda Cecília Borges, Hugo Narciso, Joana Bárcia, João Pedro Vaz e Miguel Sopas.
Com tradução de António Cabrita e Luís Miguel Cintra, cenografia e figurinos de Ângela Rocha, desenho de luz de Daniel Worm e som de Miguel Raposo Lima, O Pai estreia-se na quarta-feira e fica em cena até 27 de setembro, na Sala Luís Miguel Cintra do São Luiz Teatro Municipal.
O espetáculo segue depois para o Teatro Nacional São João, no Porto, onde estará em cena de 08 a 18 de outubro.