(c) 2023 am|dev

(A) :: Sapatos pintados à mão, aplicações, e flores 3D. O design do calçado português que tenta conquistar o mundo a partir de Milão

Sapatos pintados à mão, aplicações, e flores 3D. O design do calçado português que tenta conquistar o mundo a partir de Milão

Na MICAM, maior feira de calçado do mundo, em Milão, algumas empresas aproveitam a boa "reputação" nacional para tentar conquistar o mundo para lá do formato private label.

Sâmia Fiates
text

“Trabalho a minha vida toda com venda de calçado. Esta é uma das melhores marcas que vi nesta feira”, diz-nos um senhor britânico, de forma totalmente espontânea. É o terceiro dia da edição de setembro da MICAM, a feira de calçado internacional de Milão, e encontrámos o comerciante britânico com a mulher a experimentar peças no stand da MLV Shoes, marca da empresa fundada por Manuel Lima Vieira em Escapães há 40 anos, e que já vai na terceira geração da família. No espaço, as peças coloridas com misturas de padrões estão expostas ao redor de um moodboard que serve de inspiração para os três designers da marca, que têm como objetivo criar modelos novos, diferentes, e com o melhor que Portugal tem a oferecer.

No catálogo de tendências da feira, que tem mais de 750 marcas expositoras vindas de 29 nacionalidades, uma das sandálias da MLV é destaque. A peça com listas e cores faz parte de uma coleção inspirada na Costa Nova. Bruno Almeida, comercial da marca, confessa o receio de ter designs copiados — por isso os sinais a avisar “sem fotos”, que se multiplicam nos stands ao longo dos quatro pavilhões. Um medo que se justifica, considerando a quantidade de pessoas que circulam pela feira, das mais variadas nacionalidades, e que não precisam necessariamente estar identificadas.

Sai o casal britânico, vem uma senhora africana e depois duas jovens asiáticas — assim como nos outros stands, os clientes variam. As coleções com designs que vão dos pretos e brancos às misturas de padrões, flores em 3D e aplicações em pele únicas, se adequa às mais variadas culturas. Os sapatos enchem os olhos, apelam ao toque, e alguns experimentam os modelos nos pés. “Ontem uma cliente da Áustria começou por ver a coleção, e costuma escolher sempre as coisas mais confortáveis. Mas durante a escolha pegou neste, com plataforma, umas quatro ou cinco vezes. E disse: ‘Tenho que ter este na minha loja. Não é o que eu procuro, mas é muito muito diferente'”, conta o representante comercial, que reforça que o design é o diferencial da marca, num mercado competitivo em que qualidade e preço importam.

Ao longo de três dias de feira, Bruno Almeida esteve em contacto direto com os compradores de várias nacionalidades. “Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Roménia, Eslovénia, Itália, Canadá, África, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos”, assinala o representante da marca, destacando que esta relação próxima com os clientes é um dos motivos pelos quais “vale a pena vir à MICAM”. Contudo, chegando ao último dia da feira, nem todos os empresários estavam satisfeitos. Alguns consideram que o evento tem tido menos movimento a cada edição, outros apontam para o cenário internacional e para as incertezas que fazem os clientes evitarem fechar negócios, e há quem olhe para a facilidade dos contactos pelo meio digital como uma alternativa para reduzir custos.

“A MICAM é a maior e a mais importante feira do mundo. Aqui estão as principais marcas, e é aqui onde muita coisa acontece. As empresas, quando vão a uma feira, não é apenas para fazer negócio”, assinala Paulo Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS, a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos. “É preciso pegar no sapato, avaliar o peso, a qualidade das matérias-primas. E isso só se faz com contacto”, considera, afirmando que a MICAM “é uma janela para o mundo”, valorizando a importância das empresas portuguesas “viajarem”. “Isto, historicamente, tem dado muito bons resultados às nossas empresas. Nós não temos muitas marcas no setor do calçado — e em praticamente todos os setores de atividade — que sejam reconhecidas internacionalmente. Os clientes não vêm a Portugal à procura da marca, porque infelizmente essas marcas não existem. Quando muito, hoje, há uma melhor reputação de Portugal do que existia no passado.”

É a apostar nesta “reputação” que algumas empresas arriscam criar marcas próprias, enquanto ainda mantêm a operação no formato private label — em que produzem a partir dos designs fornecidos pelas marcas estrangeiras. Pela primeira vez na MICAM, a marca Moshion tem sapatos em pele pintados à mão, numa técnica de pátina em que o diferencial é o saber fazer dos seis artesãos que trabalham na empresa. “Estes sapatos têm uma identidade própria na sua construção. Ao contrário do que é um sapato dito normal, em que as peles já vêm à cor, aqui as peles são sempre naturais, neste caso ou bege ou brancas, e depois idealizamos a cor consoante a estação e o que é pretendido”, conta Desidério Sousa, diretor comercial da Moshion. “Pela experiência que nós tivemos durante estes dois dias e meio de feira, é que esses nichos de mercado estão em todas as partes do mundo. Desde as Américas, Ásia, África, e obviamente na Europa, já tivemos contactos novos de possíveis clientes.”

A herança do saber fazer vem aliada à tecnologia. Cada sapato tem um QR Code, para que os clientes tenham acesso a todas as informações sobre aquele produto, como o tipo de pele utilizado, a sola, a palmilha, ou as cores disponíveis, explica Jorge Fernandes, filho do dono da empresa, e que aproveita para aplicar aquilo que aprendeu na licenciatura em engenharia informática. O jovem também aplicou uma tecnologia NFC utilizada para a troca rápida e digital de contactos com os clientes e um formulário para o envio do lookbook. Os primeiros passos num caminho que deve continuar o legado do pai.

A marca é uma parte da Sojor, empresa familiar de Felgueiras que trabalha com marcas internacionais no setor premium, explica o dono e fundador, Jorge Fernandes — este o pai. Ao longo de 30 anos, acumula clientes em países nórdicos, em França ou Inglaterra, mas também norte-americanos. “O cliente nos EUA também é exigente, mas as dinâmicas são outras. Priorizam o conforto”, assinala Fernandes, que considera que faz sentido apostar neste mercado, numa altura de incertezas na política mundial. “Pagam em dia e valorizam o produto”, afirma.

Showcase de calçado português em Nova Iorque

Os Estados Unidos da América são o sexto principal mercado para a indústria portuguesa — em 2025 foram 80 milhões de pares de sapatos produzidos, dos quais 68 milhões foram para a exportação, com comercialização em mais de 170 países. Atrás de Alemanha, França, Países Baixos, Espanha e Reino Unido, a APICCAPS está focada em promover ações que ajudem as empresas portuguesas a arrecadar uma maior fatia deste mercado. A principal estratégia passa, mais uma vez, por valorizar a reputação do “made in Portugal”, mas o design nacional tem cada vez mais peso nesta balança.

“É um investimento contínuo. Primeiro nas pessoas: temos de ter profissionais qualificados, bem remunerados, apaixonados por aquilo que fazem, para fazer bons sapatos. Depois, temos de ter empresas competentes e sustentáveis, não só do ponto de vista do desenvolvimento do produto, mas sustentáveis também do ponto de vista financeiro, para que sejam capazes de apresentar boas coleções e promovê-las. E precisamos de marcas portuguesas fortes no setor do calçado e nos outros setores de atividade. Precisamos de bandeiras no exterior“, destaca o diretor executivo da APICCAPS, que na última semana integrou uma iniciativa de apresentação da indústria portuguesa na sede das Nações Unidas, em paralelo com a New York Fashion Week.

A aposta nos EUA, entretanto, não vem sem receios, especialmente depois de um ano instável com tarifas a ir e vir pelo Governo Trump, e um primeiro semestre difícil com os conflitos mundiais e o bloqueio no Estreito de Ormuz. “Sentimos que os empresários, de uma maneira geral, estão muito expectantes. As guerras, as dificuldades, os condicionamentos do state of war, estão-lhes a criar muitos constrangimentos. E, portanto, hoje é muito difícil fazer previsões de negócios. Enquanto no passado nós conseguíamos prever a nossa atividade a três a seis meses, agora não conseguimos prever”, assinala Paulo Gonçalves, que é, entretanto, otimista. “Vamos ter que viver com estas tarifas, pelo menos nos próximos anos. Mas já estamos prontos para elas. Os nossos dois grandes concorrentes, Itália e Espanha, pagam o mesmo. E já não estamos na expectativa que existam alterações tão significativas que possam condicionar a atividade económica”, diz ainda, afirmando que depois dos EUA, há interesse também no Mercosul, na Ásia, e no Médio Oriente — quando a região voltar a estabilizar. “Pela primeira vez na vida começamos a estudar o mercado brasileiro. Porque até agora nós pagámos mais de 30% dos direitos para o Brasil. Portanto, o nosso calçado já é caro, com 30% de direitos era proibitivo”, diz Gonçalves. “O mercado do Médio Oriente tem que ser abordado de outra forma também. Há ainda dois países na Ásia que merecem a nossa atenção, que é o Japão e a Coreia do Sul.”

Para dezembro, nos dias 1 e 2, está marcada uma espécie de showroom de empresas portuguesas ao mesmo tempo em que decorre a FFANY Market Week, uma feira de calçado em Nova Iorque, e que já tem gerado algum interesse entre os empresários.

“É uma boa opção, visto que a Europa está neste momento a atravessar dificuldades muito grandes. É um mercado consumista, e pode ser uma oportunidade de divulgar a nossa capacidade de produção e de vender o nosso tipo de produto, porque somos um país com uma tradição muito grande de fazer sapatos”, considera David Braga, gerente da Valuni, marca da Eurodavil, de São João da Madeira. Com clientes não só nos EUA mas no Canadá, no Japão e na Austrália, a empresa também trabalha private label, com modelos que vão dos sneakers aos mocassins, passando pelos estilos mais clássicos em pele e camurça. “O conforto é sempre um tópico muito importante. Os clientes internacionais podem ter gostos um bocadinho diferentes dos europeus, mas no geral gostam das marcas europeias”, assinala. Diz que já recebeu “pedidos extravagantes”, mas nada que não fosse capaz de realizar. Num setor que segue com dificuldades, a criatividade e a capacidade de adaptação dos portugueses fazem a diferença.

O Observador está em Milão a convite da APICCAPS.