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(A) :: As nomeações de árbitros, o milhão em prémios, o FC Porto-Benfica da Taça: os novos pormenores da investigação da PJ à arbitragem

As nomeações de árbitros, o milhão em prémios, o FC Porto-Benfica da Taça: os novos pormenores da investigação da PJ à arbitragem

Segundo o Correio da Manhã, a Polícia Judiciária está a investigar mensagens e áudios que podem provar manipulações na arbitragem. Caso foi revelado por Duarte Gomes, que se demitiu e já reagiu.

Mariana Fernandes
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A demissão de Duarte Gomes do cargo de Diretor Técnico de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) aconteceu no final de junho e caiu como uma bomba no futebol português. Ainda assim, talvez por ser verão, talvez por estar a decorrer o Campeonato do Mundo, talvez por não terem existido mais consequências práticas evidentes, o caso desvaneceu — pelo menos até agora. 

De acordo com o jornal Correio da Manhã, a Polícia Judiciária (PJ) está a investigar várias mensagens de texto e áudios encontrados nos telemóveis de Luciano Gonçalves, ainda presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, Paulo Lopo, ainda presidente do Estrela da Amadora, Duarte Gomes e também Hélder Malheiro e Hugo Ribeiro, árbitros. A investigação teve origem na exposição de 20 páginas que o Ministério Público recebeu no final de julho e onde são detalhadas suspeitas sobre a nomeação de árbitros para os jogos da Primeira Liga, abrindo a porta à possibilidade de corrupção e tráfico de influências.

https://observador.pt/2026/07/27/pj-recebeu-participacao-de-20-paginas-com-suspeitas-sobre-nomeacao-de-arbitros-para-jogos-da-primeira-liga/

Em causa, tal como já tinha ficado claro na altura em que Duarte Gomes apresentou a demissão, estará a alegação de que Luciano Gonçalves acertou previamente os árbitros que iriam assumir os últimos jogos da temporada do Estrela da Amadora — decisivos para a manutenção do clube na Primeira Liga, algo que acabou por acontecer. Segundo a investigação, Hélder Malheiro terá sabido demasiado cedo que seria nomeado para dirigir o jogo entre o Moreirense e o Estrela da Amadora, a contar para a 32.ª jornada.

Nessa altura, nenhuma das nomeações tinha sido anunciada ou comunicada oficialmente — algo que aconteceu dias depois, o que levou o autor da participação a questionar de que forma é que aquela informação já poderia ser conhecida antecipadamente por alguém sem responsabilidades no Conselho de Arbitragem. Mas há mais. Alegadamente, terá sido transmitida ao árbitro a ideia de que uma eventual vitória do Estrela da Amadora contra o Moreirense poderia significar um empurrão na manutenção de Malheiro na Primeira Liga durante a época seguinte. Algo sustentado, alegadamente, por contactos entre Luciano Gonçalves e Paulo Lopo.

Horas antes do apito inicial, Hélder Malheiro terá então recebido uma mensagem de WhatsApp de Luciano Gonçalves onde se lia: “Bom dia amigo, sim é verdade, mas por favor, por favor mesmo”, acompanhada por emojis. O árbitro realizou uma captura de ecrã antes de a mensagem ser eliminada — captura de ecrã que está agora na posse da Unidade de Combate ao Crime Económico e Financeiro da PJ. Segundo o Correio da Manhã, Duarte Gomes, Hélder Malheiro e Hugo Ribeiro já foram ouvidos. Luciano Gonçalves, em declarações ao jornal, disse ainda não ter sido chamado, mas estar “disponível para prestar todos os esclarecimentos”, rejeitando o alegado conteúdo da mensagem em causa. Já Paulo Lopo, também ao mesmo jornal, disse não ter sido ouvido por não ser “parte envolvida”, já que nunca teve “nenhuma conversa com os envolvidos”.

https://observador.pt/2026/07/01/duarte-gomes-demitiu-se-depois-de-denuncia-de-arbitro-fpf-enviou-tudo-para-o-ministerio-publico-a-polemica-que-rebentou-na-arbitragem/

A investigação da PJ, contudo, vai além da manutenção do Estrela da Amadora. Nos telemóveis analisados terão sido encontrados indícios de quem podem ter sido oferecidos prémios na ordem do milhão de euros a dirigentes da arbitragem a troco do benefício de certos clubes. Adicionalmente, existem exemplos concretos de que terão existido condicionalismos. De acordo com as conversas que agora estão na posse da PJ, o FC Porto tentou evitar que Fábio Veríssimo fosse o árbitro nomeado para os quartos de final da Taça de Portugal, contra o Benfica, sendo que a estrutura da FPF estaria disponível para satisfazer a exigência. Luciano Gonçalves, porém, garantiu que seria Fábio Veríssimo o árbitro do clássico, como aconteceu.

Em resposta às alegações, o FC Porto emitiu um comunicado onde rejeitou ter tentado condicionar a nomeação de Fábio Veríssimo. “O FC Porto foi ontem alvo de uma tentativa tão fraca quanto grave de o colocar sob suspeita num processo em que não está envolvido. Através de rodapés televisivos cuidadosamente fabricados, anunciou-se um ‘escândalo’, insinuou-se que a Polícia Judiciária investigava o clube e procurou-se transformar uma posição institucional conhecida por todos numa alegada interferência na arbitragem. O FC Porto não nomeia árbitros. Não participa no processo de nomeação de árbitros. Não interfere nas decisões do Conselho de Arbitragem”, pode ler-se, ainda que os dragões reconheçam que a nomeação de Fábio Veríssimo foi “particularmente imprudente e desnecessariamente arriscada” tendo em conta os processos pendentes entre o árbitro e o clube na sequência do caso da televisão no balneário do Dragão.

Por fim, e escapando temporariamente ao silêncio por que tem optado desde que se demitiu, Duarte Gomes deu uma entrevista à Antena 1 onde voltou a comentar todo o caso. “Ouvi um conjunto de situações com comprovação factual e probatória, fiz um conjunto de diligências no sentido de ficar tranquilo e esclarecido em relação às coisas que aconteceram, que considerei de grande gravidade institucional. Depois desse conjunto de diligências, não só não recuperei a tranquilidade, como aprofundei as minhas dúvidas e receios. Perante isso, tomei a decisão de sair. Com elementos probatórios que, para mim, foram mais do que suficientes. De condutas com as quais não me revejo. E se são ilegais pode ser que a Justiça, que tem essa competência, assim o prove”, começou por dizer.

https://twitter.com/FCPorto/status/2099088232063402064

O antigo árbitro disse ainda que foi ouvido no Conselho de Justiça da FPF, mas rejeitou abordar o “restante ponto da situação” por “uma questão de prudência judicial”, reconhecendo que dessa maneira “até já dá meia resposta”. Por fim, Duarte Gomes garantiu que “haverá um momento” em que todo o caso “ficará estabelecido” e que, nessa altura, irá discuti-lo e explicá-lo “de forma absolutamente aberta”.

De recordar que, logo em julho, o inquérito que tinha sido aberto pelo Conselho de Justiça da FPF na sequência da demissão de Duarte Gomes foi arquivado. Apesar de considerar demonstrado que a nomeação de Hélder Malheiro para o Moreirense-Estrela da Amadora foi mesmo antecipada e que Luciano Gonçalves enviou a tal mensagem ao árbitro, o órgão entendeu que as provas recolhidas não permitem concluir que foi Gonçalves a transmitir a informação. Além disso, o instrutor responsável pelo inquérito lembrou ainda que o Conselho de Justiça não tem os meios de investigação de um processo criminal — como perícias a telemóveis ou acesso a registos de comunicações ou escutas telefónicas.