Este fim de semana acabou o maior campeonato de ténis do mundo (pelo menos a julgar pelo espetáculo e valor do prémio), o Open dos Estados Unidos. Acompanhei o torneio e dediquei-me a ver as finais, feminina e masculina, de singulares.
Chegado ao fim, e em retrospetiva, acho que, neste campeonato, e principalmente na final, o ténis masculino foi infinitamente mais interessante. Os jogos masculinos apresentaram mais variedade de jogadas, mais bolas batidas, melhores serviços, mais subidas à rede, volleys, amortis e todas as jogadas que fazem do ténis um desporto bonito (e não entediante).
Leia-se que eu não falo de todo de qualidade técnica, nem estaria habilitada para. Em nenhum momento quero dizer que as atletas femininas não são de altíssimo nível. O meu é o ponto de vista de uma espectadora que em geral acompanha e prefere o ténis feminino. É mais comercial, com a sua duração média de uma hora e meia a duas, enquanto que no lado masculino, os jogos tanto podem durar três, cinco ou mais horas. É um compromisso demasiado grande. Para ver alguns pontos bons, temos que ver também o que me parece uma infinidade de medianos.
Mas, facto é que, no sábado à noite, adormeci a ver a final feminina, e depois domingo, na masculina, fiquei agarrada até ao fim. O que me deixou a pensar nas diferenças entre a vertente masculina e feminina do ténis. Ou mesmo do desporto em geral. As diferenças anatómicas vão fazer com que a velocidade e a força não estejam, factualmente, em níveis iguais (ainda que estejam cada vez mais equiparadas). Facto que leva a que a conversa da batalha dos sexos no ténis não seja tópico recente nem pouco recorrente. Ainda assim, o prize money para os vencedores de ambos sexos (no caso US Open) é igual.
Foi com bastante horror que temi ter-me tornado uma daquelas, muitas pessoas, que acham que o desporto feminino não está ao mesmo nível do masculino. Num sentido qualitativo.
Eu, pessoa que não teria de todo interesse em juntar-me a almoços contra o feminismo em que se reivindica o direito a não fazer ou a gostar de certas coisas. Direitos que, acredito que existem, exatamente porque, no seu reverso, existem os direitos de outros, a fazer ou a não gostar.
Lembrei-me da série Ted Lasso, cuja temporada final versa sobre o esforço necessário para criar uma equipa de futebol feminino que muito pouca gente parece querer. Valerá a pena então?
Soube imediatamente que a resposta era que não só valia a pena, mas mais, que é obrigatório que exista modalidade feminina. Que eu, espectadora de ténis, não veria o campeonato masculino se de repente deixasse de haver feminino. Que o facto de poder ver os dois, e notar as suas diferenças, é um valor acrescentado, tanto para uns, como para outros. Os homens não ficam sempre a ganhar, já vi finais entediantes entre Sinner e Zverev, e finais muito entusiasmantes, entre Sabalenka e Madison Keys (jogadora cuja coragem quase desavergonhada sempre apreciei).
Curiosamente, a campeã deste ano do US Open é originalmente russa e foi adotada pelo Cazaquistão, país cujo presidente da federação de ténis muito conscientemente a patrocinou, proporcionando-lhe condições para ser jogadora profissional. Mecenato absolutamente compensado já que a Rybakina, que hoje em dia é a número um mundial, vai influenciar muitas raparigas a agora querer jogar ténis.
Fiquei a pensar nisto, na missão que é, abrir possibilidades. Coisa espetacular. E feita por um homem (que por sinal também patrocinou jogadores masculinos mas nenhum deles chegando ao topo do ranking mundial como Rybakina). Porque na realidade é indiferente quem faz o quê, se é mão masculina ou feminina, desde que se faça.
O que o ténis, e arrisco, a generalidade das modalidades desportivas na sua versão feminina precisam é de tempo. Consolidação da ideia de que ser desportista de alto nível é uma opção, difícil e trabalhosa, mas para todos e todas. Porque essa possibilidade é que vai garantir que continuem a vir, mais e melhores.
O caminho está a ser agora. A prática das modalidades vai ter sempre diferenças entre os dois géneros, mas as comparações são inevitáveis quando as regras são as mesmas, quando o desporto é exatamente o mesmo. E quando estivermos todos lembrados de que a modalidade só nestas duas vertentes está completa então aí sim, chegámos.