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(A) :: Um novo colunista, do lado de cá do Atlântico

Um novo colunista, do lado de cá do Atlântico

Tenho uma pátria de nascimento e uma pátria de coração. E tenho-o, hoje, não apenas por afecto mas por direito, porque sou também cidadão português. Escrevo, por isso, de fora e de dentro.

Diogo Pasuch
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Chego a esta casa pela porta que mais me honra, a de quem passa a ter um lugar à mesa todas as quartas-feiras. Durante alguns meses escrevi aqui de forma avulsa, quando a actualidade o pedia, e o Observador teve a generosidade de me abrir espaço e, agora, de me dar um dia certo. Começo por isso onde deve começar quem é bem recebido, a agradecer. Ao jornal, pela confiança. E aos leitores, que foram, mais do que qualquer editor, quem me trouxe até aqui, porque foi nos vossos comentários, nas vossas discordâncias e nas vossas perguntas que percebi que valia a pena continuar a escrever.

Convém que saibam quem vos escreve, e quem sou é uma geografia. Nasci e vivo no Rio Grande do Sul, o extremo sul do Brasil, uma terra onde neva, onde a geada queima os campos no Inverno e onde o frio, por vezes, é mais rigoroso do que o do Minho. Digo-o desde já para desfazer o equívoco mais comum, o de que um brasileiro escreve sobre Portugal com os olhos do trópico. Escrevo com os olhos de quem conhece o gelo.

E conheço Portugal por dentro, porque aí vivi quase uma década, entre 2011 e 2020. Vivi em Braga, onde me fiz doutor na Universidade do Minho, e foi lá que aprendi que o frio de que falo não é o do termómetro. Do Minho ao Porto, deixei amigos que já não trato como amigos, trato como irmãos, e que são a razão pela qual voltar a Portugal nunca é, para mim, viajar, é regressar.

Permitam-me que abra aqui uma excepção à discrição e que fale de duas pessoas em concreto, porque devo-lhes aquilo que nenhum diploma me deu. Nos Natais de 2011 e de 2012, eu ia ficar sozinho em Braga, longe de tudo o que era meu, como fica quem estuda longe de casa e não tem como atravessar um oceano em Dezembro. A Rosa e o António, um casal bracarense, decidiram que isso não ia acontecer. Abriram-me a porta, sentaram-me à mesa e deram-me, sem alarde e sem me deverem nada, uma família emprestada em dois dos dias em que mais falta ela faz. Passaram quinze anos sobre aquele primeiro Natal, e dentro de semanas volto a Portugal, para ser outra vez recebido em casa deles. Se alguém me perguntar por que razão escrevo sobre este país com um cuidado que não se explica só pela profissão, a resposta está ali, numa mesa de Natal em Braga.

Tenho, portanto, uma pátria de nascimento e uma pátria de coração. E tenho-o, hoje, não apenas por afecto mas por direito, porque sou também cidadão português. Escrevo, por isso, de fora e de dentro ao mesmo tempo, do lado de cá do Atlântico, como costumo assinar, mas com meio coração, e agora também meio passaporte, do lado de lá. É uma posição incómoda e fértil, a de quem está suficientemente longe para ver o conjunto e suficientemente dentro para que lhe doa o que corre mal.

Sou contabilista de formação e de vocação, e isso explica tudo o que vão ler nesta coluna. Passei a vida a olhar para números, primeiro como estudante, depois como professor e investigador, e sempre como alguém que aprendeu, à custa de muitas contas, que um número público raramente diz o que parece dizer. Um orçamento, uma estatística, uma promessa de Estado, tudo isso tem uma linha de rodapé que ninguém lê, e é essa linha que me interessa. Não venho trazer certezas ideológicas nem sermões de tribuna. Venho trazer a calculadora, e a pergunta mais teimosa que conheço, quanto custa isto, e quem paga. A segunda parte da pergunta, já vos aviso, tem quase sempre a mesma resposta, paga o povo, paga o contribuinte, paga quem se levanta cedo e nunca foi consultado sobre a despesa. Muda o nome da medida, muda o governo, muda o continente, mas a porta onde a factura bate é invariavelmente a mesma.

É essa a promessa que vos faço para as quartas-feiras. Falarei da Europa e de Portugal, que são a casa de quem me lê e também a minha, e falarei do Brasil, que é a casa de onde escrevo, e usarei um para iluminar o outro. Não para dizer que um é melhor do que o outro, porque não é, e quem me leu sabe que aponto os defeitos do meu país de nascimento com a mesma dureza com que aponto os do país que me deu a segunda cidadania. Uso os dois como espelho, e o espelho, como já escrevi a um leitor, tem a virtude incómoda de não bajular ninguém. Umas vezes mostra-nos o que fazemos pior, outras o que fazemos melhor, e nas duas ensina.

Prometo também uma coisa que hoje é rara, ouvir. Os melhores momentos dos meus artigos não foram os que escrevi, foram os que os leitores escreveram depois, corrigindo-me, acrescentando o que eu não sabia, discordando com argumentos. Vários dos textos que aqui publiquei nasceram directamente de perguntas deixadas nos comentários, e assim quero que continue. Esta coluna não é um púlpito, é uma mesa, e a cadeira do outro lado está sempre ocupada por quem me lê.

E prometo rigor, que é a única forma de respeito que conheço por quem gasta tempo a ler-me. Cada número que aqui aparecer terá fonte, cada afirmação terá lastro, e quando não souber, direi que não sei, o que é a coisa mais difícil de escrever numa página de opinião. Podem discordar de tudo o que eu disser, e espero que discordem muitas vezes, mas gostaria que nunca pudessem dizer que inventei o que disse.

Deixem-me, por fim, dizer-vos porque escrevo, porque a resposta é também uma esperança. Escrevo porque acredito que os países mudam quando os cidadãos deixam de aceitar números sem os perceber. Uma democracia informada é uma democracia exigente, e uma democracia exigente é a única que obriga quem decide a decidir bem. Não tenho a pretensão de mudar a Europa nem o Brasil com uma coluna semanal. Tenho a pretensão, mais modesta e mais teimosa, de que cada quarta-feira um leitor feche o jornal a perceber um pouco melhor para onde vai o seu dinheiro e porquê. Se conseguir isso, terei feito o meu trabalho.

Dentro de semanas estarei em Portugal, para abraçar os tais irmãos do Porto e de Braga, para me sentar outra vez à mesa da Rosa e do António, quinze anos depois daquele primeiro Natal, e para conhecer finalmente, em pessoa, a casa que agora me dá um lugar fixo. Até lá, e a partir de hoje, ficamos combinados. Todas as quartas, do lado de cá do Atlântico, com meio coração do lado de lá. Obrigado por me receberem. Até quarta.