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(A) :: Os jovens não esperam pelo futuro. Vêem-no e criam-no em primeira mão 

Os jovens não esperam pelo futuro. Vêem-no e criam-no em primeira mão 

Uma ligação entre duas pessoas pode transformar-se numa ligação entre duas comunidades, duas cidades e, potencialmente, dois países. A confiança tende a nascer antes, entre pessoas.

Nuno Vilaça e Miguel Bartolomeu Flor
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As instituições gastam milhões de recursos a tentar decifrar o que o amanhã lhes reserva. Contratam consultores, encomendam relatórios e organizam cimeiras inteiras em torno do tema da vez. No passado mês de agosto, a resposta esteve à vista de todos: quase quinhentos jovens líderes de mais de 120 países congregaram-se em Genebra, na Suíça, na Cimeira Anual dos Global Shapers, a comunidade jovem do Fórum Económico Mundial. Em pauta estiveram a inteligência artificial, a ação climática, o empreendedorismo e a liderança.

Misturar gerações pode revelar-se mais fecundo do que deixar que uma suceda simplesmente à outra. Quando a experiência de quem já trilhou caminho se articula com a familiaridade dos mais novos perante a tecnologia e os novos comportamentos sociais, as decisões ganham perspetivas inéditas. A ansiedade, sobretudo a climática, pode deixar de ser mera paralisia para se converter em projetos concretos. E a inteligência artificial vive-se hoje, simultaneamente, como acelerador e ameaça: nunca foi tão fácil lançar uma ideia, mas também nunca a exposição à disrupção foi tão real para quem agora ingressa no mercado de trabalho.

A esta equação soma-se a incerteza económica, que está a redefinir o próprio sentido da ambição. A carreira em escada, feita de promoções previsíveis, cede progressivamente lugar a percursos menos lineares, onde propósito, flexibilidade e capacidade de aprendizagem pesam tanto ou mais do que o título.

O resultado mais interessante, contudo, não residiu em nenhum destes temas isoladamente. Estava na confirmação de uma ideia simples e, ainda assim, pouco praticada: ouvir os jovens não é uma questão de representação simbólica, mas de deteção precoce. Não estão apenas a ser afetados pelo futuro. Em muitos casos, vêem-no e criam-no em primeira mão.

Comunidades como rampa de crescimento e inovação

Não é só a WEF que aposta em comunidades, em particular de jovens. Subjaz a este modelo uma ideia mais ampla: as comunidades são, frequentemente, uma das principais rampas de crescimento e inovação de qualquer organização, seja comercial, social, cívica ou até política. Empresas, universidades, ONG e outras instituições investem no mesmo. Basta pensar nos inúmeros running clubs criados ou patrocinados por empresas, nas redes de antigos alunos das universidades, nas comunidades de utilizadores construídas pelas tecnológicas ou nas redes de empreendedorismo, voluntariado e liderança jovem promovidas por ONGs, fundações e organismos públicos. Todos estes fenómenos, aparentemente simples, revelam como a pertença e a confiança podem germinar antes de qualquer relação puramente transacional.

Os Global Shapers cumprem, em parte, essa função no ecossistema do Fórum Económico Mundial: alargam as discussões dos líderes mundiais, tomam as grandes prioridades globais e confrontam-nas com centenas de realidades locais. Não se trata apenas de ouvir jovens. Trata-se de construir uma rede capaz de interpretar grandes temas a partir de contextos distintos e de os traduzir em ação concreta nas respetivas cidades.

Isso tornou-se particularmente evidente em Genebra. Havia oito salas, representando as diferentes regiões da comunidade. Podíamos estar todos a discutir exatamente o mesmo tema e, ainda assim, partir de lugares completamente diferentes. Mudavam os desafios, os recursos disponíveis, as prioridades, os códigos culturais e, muitas vezes, até a própria forma de definir o problema. Uma solução que parece óbvia na Europa pode não fazer sentido no Médio Oriente, na Ásia ou em África. Soluções verdadeiramente globais dificilmente podem nascer de uma única perspetiva.

O progresso faz-se entre pessoas, não entre organizações

Pouco valem todos estes sinais se acabarem arquivados num relatório. É aqui que entra a parte menos visível do trabalho dos Global Shapers: transformar relações e ideias em ação no terreno. E essa ação começa, quase sempre, entre pessoas.

Isto acontece entre organizações de todo o tipo e também dentro da própria rede dos Global Shapers. As parcerias entre Hubs nascem, muitas vezes, das relações entre quem os lidera. Este artigo é, de certa forma, um exemplo disso. Não foi a WEF, em abstrato, que nos propôs escrevê-lo em conjunto, tal como não decide que ações concretas os nossos Hubs de Sharjah e de Lisboa levarão a cabo este ano. Foi a relação entre os líderes de ambas as organizações, os nossos valores e as temáticas que partilhamos que nos permitiram vislumbrar sinergias possíveis e palpáveis entre os dois Hubs.

Uma ligação entre duas pessoas pode transformar-se numa ligação entre duas comunidades, duas cidades e, potencialmente, dois países. A confiança tende a nascer antes, entre pessoas. E as instituições aproximam-se com maior facilidade quando aqueles que as representam conseguem compreender-se. As relações diplomáticas entre países são disso exemplo claríssimo: ora aquecem, ora arrefecem, consoante os líderes e os laços que entre eles se tecem.

Talvez por isso seja tão difícil subestimar o poder de juntar pessoas de elevada qualidade na mesma sala. O valor de uma cimeira não está apenas no que acontece no palco. Está numa conversa ao almoço que se transforma num projeto, numa solução de um Hub que é adaptada noutro continente ou em duas pessoas que descobrem estar a tentar resolver o mesmo problema a milhares de quilómetros de distância. Três dias chegam para dar início a essas ligações. O verdadeiro impacto mede-se no que acontece depois.

Reflexão pessoal: Nuno Vilaça

Já com um cunho mais pessoal, esta foi a vez em que mais senti o peso de uma sala.

Ainda antes de entrar na faculdade, fui selecionado pela Embaixada dos Estados Unidos para representar Portugal no programa Benjamin Franklin Transatlantic Fellowship Institute.

Tive a responsabilidade de ser o único português no programa, de me representar a mim, às nossas causas e desafios, e de trazer aprendizagens de volta.

Ainda durante o ensino secundário, participei em muitas sessões do Parlamento Europeu de Jovens. Percorri mais de dez países europeus e assumi papéis em diferentes comissões parlamentares. Cheguei a discursar diante de deputados europeus e, inclusivamente, organizei um evento para mais de cem pessoas cuja patrona foi a Dra. Marisa Matias. Aqui pesava a responsabilidade de representar a Europa e o projeto europeu da perspetiva de um português.

Desta vez, o que senti foi imensamente diferente e poderoso. Há três anos que vivo nos Emirados Árabes Unidos. Não nasci nem cresci nesta região e não falo árabe. Estou a começar a conhecer as tradições e os costumes, sem dominar qualquer marco cultural. E, mesmo assim, estive sentado com mais de trinta curadores da região do Médio Oriente e do Norte de África a discutir o futuro da região. Co-criei com eles a visão e o impacto que queremos ter.

Dei por mim a olhar à minha volta, por cada um deles, a ver como a conversa fluía de uma maneira tão diferente e, talvez, mais interessante, do que se estivesse, por exemplo, na sala do Miguel. Sentir que todos falavam inglês porque eu era o único que não falava árabe. Sentir que há uma responsabilidade que não é transmitida, mas sentida, diante da possível dificuldade de um europeu em representar uma região árabe.

Hoje lidero o Hub de Sharjah. É uma responsabilidade única e, provavelmente, o maior desafio cultural que já abracei. Mas, em paralelo com esse desafio, refleti também que tenho a vantagem singular de conseguir aproximar as nossas comunidades; de trazer casos, exemplos e contactos de outras regiões para esta realidade; de partilhar a minha cultura e a minha personalidade com este país, que já é, por si só, bastante internacional.

Que honra!

Reflexão pessoal: Miguel Bartolomeu Flor

Nunca fiz Erasmus. Fiz um mestrado em Gestão tão internacional quanto se consegue ser sem sair do país: colegas de dezenas de nacionalidades, grupos de trabalho que pareciam autênticos mapas do mundo. Acreditava que sabia o que era um ambiente verdadeiramente internacional.

Genebra mostrou-me que não sabia, pelo menos não daquela forma. O momento que mais me marcou não foi nenhuma sessão dedicada à inteligência artificial ou ao clima. Foi, sim, sentar-me com o curador do Hub da Praia, em Cabo Verde, a quem já conhecia de conversas anteriores, e com colegas do Brasil, e compreender ali, em pessoa, o peso real de algo que até então eu só conhecia como um projeto no papel: a nossa ligação através da língua. Falávamos a mesma língua, provínhamos de contextos com problemas e recursos absolutamente díspares e, ainda assim, entre nós estabeleceu-se uma proximidade imediata, quase familiar.

Essa proximidade não exige esforço, porque a língua faz, sozinha, o trabalho de casa. Não houve traduções a gerir, nem tempo perdido em explicações que uma simples expressão em português já continha; passámos de uma conversa de almoço a uma ideia de projeto quase sem darmos por isso. Mas essa proximidade não nos aproximou para ficarmos confortáveis; aproximou-nos para conseguirmos avançar juntos. Com outros hubs, a proximidade constrói-se aos poucos, camada a camada; ali, já existia antes de a procurarmos. E foi precisamente isso, mais do que qualquer sessão formal, que tornou natural transformar uma conversa em algo concreto.

É nesse espaço, o da CPLP, a comunidade dos países de língua portuguesa, de Cabo Verde ao Brasil, passando por Portugal, que nasceu o Shaping CPLP: uma iniciativa que une os hubs de Shapers destes países para que essa proximidade linguística deixe de ser uma feliz coincidência de conversa e se torne algo que se constrói com método. Nasceu no fim de 2025 e conheceu já duas fases, a segunda terminada em finais de julho, pouco depois da conferência.

Não sei se Genebra acelerou este desígnio, mas saí de lá com a determinação de o levar mais a sério, de tratar aquele espaço cultural e linguístico comum como algo que se ergue com pessoas, e não para preencher uma linha num relatório.

Não é uma grande conclusão, bem pelo contrário: às vezes, a distância que separa ter um projeto de efetivamente levá-lo a sério resume-se a uma conversa ao almoço. É assim, aliás, que quem já tem um projeto passa a ter o mandato para o fazer acontecer.

Conclusão

Voltamos, no fim, ao ponto de partida. Ouvir os jovens não chega; representá-los num painel, muito menos.

A plataforma que a WEF nos dá para criarmos transformação é real, palpável e mensurável. É expectável que criemos projetos e que estejamos envolvidos com os grupos de trabalho do Fórum. São-nos exigidas métricas e reuniões trimestrais com a equipa do Fórum.

O valor está em tratar-nos como agentes de ação, em dar-nos recursos e responsabilidade para nos fazermos ouvir e criar.

Para as instituições que ainda perspetivam a participação jovem como um exercício de imagem, o convite é simples:

– Que nos tratem como parceiros com responsabilidade, não como audiência a consultar.

– Que meçam o valor de um evento pelo que acontece depois, não apenas durante.

– Que nos deem oportunidade e mandato para agir, não apenas relatórios.

Se as melhores organizações do mundo já o fazem, quando começam vocês?

O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.