Imagine-se Pedro Passos Coelho e Rui Rio sentados à mesma mesa. Não que tenham um historial de almoços — mais um de algumas discordâncias mal disfarçadas, sucessões amargas e trocas de galhardetes que a imprensa portuguesa adorou durante anos. Mas se por acaso se sentassem, hoje, a falar do estado do país, é bem capaz de concordarem em toda a linha em variadíssimas coisas que o resto do PSD parece ter decidido esquecer. A bem da conveniência, claro.
Ambos partilham um traço raro na política portuguesa: já gastaram capital político a sério a fazer reformas impopulares, em vez de o gastarem a geri-lo com cuidado. Passos fê-lo abruptamente, fruto de uma necessidade “troikista”, sabendo que isso lhe custaria o governo — e custou-lhe. Rio fê-lo de forma mais discreta, à frente do PSD, recusando o populismo fácil da oposição só para agradar à sondagem da semana, e emprestando responsabilidade institucional a um país em plena pandemia quando isso não lhe rendia um único voto extra. Nenhum dos dois é hoje recordado pela popularidade. Os dois são recordados pela sua seriedade intelectual e por terem feito alguma coisa.
É esse o fio que falta ao PSD de hoje — e é esse o fio que Passos, aparentemente sem paciência para esperar por outra geração, decidiu voltar a puxar.
Nas últimas semanas, Passos Coelho co-coordenou, com o socialista Sérgio Sousa Pinto e com Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto, um estudo intitulado “Bloqueios versus Reformas: uma visão para Portugal”, com o apoio científico da Faculdade de Economia do Porto. O diagnóstico não é propriamente uma novidade para quem paga impostos em Portugal há mais de vinte anos: o país está preso num “equilíbrio de baixo crescimento”, a crescer em média 1,1% ao ano desde 1999, com a produtividade como problema basilar. Centralismo, burocracia, fiscalidade, morosidade da justiça e habitação surgem todos na lista de bloqueios que se alimentam uns aos outros. As propostas finais seguirão para o Presidente da República e para o Governo.
Reparem no detalhe mais incómodo de tudo isto: quem escreveu o aviso mais duro não foi um comentador de bancada qualquer, foi o próprio Passos Coelho, no prefácio do estudo: “o tempo está a esgotar-se”. Diz que os três anos que restam desta legislatura não devem ser gastos a lamentar o passado, mas a alargar depressa a agenda de reformas, e que seria preferível arriscar perder eleições a fazer isso a sério do que continuar a não fazer nada com convicção. Vindo de um antigo primeiro-ministro do PSD, isto devia soar como um alarme em São Bento. Em vez disso, foi tratado como mais uma opinião de fim de semana.
Porque é nisso que o atual PSD parece ter-se transformado: um partido a gerir o poder, não um partido a usá-lo. Três anos de governo e o que fica na memória coletiva não é uma reforma estrutural, é uma sucessão de gestos de sobrevivência — orçamentos aprovados a medo, crises evitadas ao último minuto, casos que se arrastam sem que ninguém assuma responsabilidade por nada. Nem a habitação, nem a justiça, nem a Segurança Social, nem a produtividade tiveram, até agora, um momento em que o governo tenha dito: isto vai doer, mas é preciso, e vamos fazê-lo. É o marasmo instalado como estilo de governação, embrulhado em comunicados sobre “estabilidade”.
Os portugueses percebem isto melhor do que qualquer estudo consegue explicar, e dizem-no da única forma que a política ainda ouve: nas sondagens. A mais recente tracking poll coloca o PS em primeiro com 27,9%, o Chega logo atrás com 27,1% e a AD de Montenegro em terceiro, com 25,7% — um empate técnico entre os três, com a desaprovação ao governo em 58% e a desaprovação pessoal a Montenegro em 59%. Não é uma sondagem isolada a fazer beliscão; é um partido no poder a disputar o terceiro lugar com quem está na oposição, o que para o PSD, o meu partido, devia ser tão alarmante como perder uma eleição a sério — só que sem o benefício de já ter acontecido e ainda dar tempo para se corrigir.
Não é preciso reconciliar Passos e Rio como pessoas para perceber a lição que os dois, cada um à sua maneira, deixaram ao partido e ao país: se não se arrisca nada, não se conquista nada — e o eleitorado, mais cedo ou mais tarde, nota a diferença entre um governo com um projeto e um governo a evitar problemas até à próxima eleição. O PSD teve, nos últimos vinte anos, pessoas dispostas a arriscar impopularidade por uma ideia de país. O que falta ao PSD de hoje não é talento, é essa disposição — e sem ela, o terceiro lugar nas sondagens não vai ser um acidente de percurso. Infelizmente, vai ser o resultado lógico de um partido que escolheu gerir o poder em vez de o justificar.