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(A) :: "O tempo está a esgotar-se"

"O tempo está a esgotar-se"

Passos está a fazer um diagnóstico sobre os riscos que o PSD e o sistema político-partidário enfrentam. Se nada for feito, pode chegar o dia em que os partidos tradicionais darão lugar a outros.

Miguel Santos Carrapatoso
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Existem duas formas de ler as mais recentes declarações de Pedro Passos Coelho. Podem ser entendidas como um aviso pessoal a Luís Montenegro e tratadas como sendo parte de um plano do antigo primeiro-ministro para derrubar mais à frente o atual chefe de Governo; ou podem ser lidas como um alerta sobre o estado de saúde do PSD e, em última análise, do regime democrático tal qual o conhecemos. A primeira tem limitações óbvias. A segunda, infelizmente, só parece ser levada a sério por André Ventura.

Sobre a primeira hipótese. De tudo o que foi dito e escrito sobre os alegados planos políticos de Pedro Passos Coelho, revelados pelo próprio ou pelos mais próximos, existem três indícios que devem estar presentes em qualquer análise que se faça sobre esse putativo regresso: Pedro Passos Coelho nunca descartou a hipótese de voltar; Pedro Passos Coelho nunca enfrentará Luís Montenegro numas eleições internas do PSD; Pedro Passos Coelho só será primeiro-ministro depois de ir a votos e vencer eleições legislativas.

Quer isto dizer que Pedro Passos Coelho só voltará à liderança do partido e eventualmente ao cargo de primeiro-ministro se ou quando Luís Montenegro perder eleições e se ou quando o antigo primeiro-ministro disputar e vencer umas legislativas — coerentemente, Passos nunca aceitaria ser chefe de Governo sem a legitimidade do voto popular e sendo outra coisa que não líder do partido mais votado em eleições. Por tudo isto, a ideia de que Passos diz o que diz porque está a planear um qualquer golpe para apear rapidamente Montenegro é, no mínimo, criativa.

Resta a segunda hipótese. Pedro Passos Coelho está a fazer um diagnóstico sobre os riscos que o PSD e o sistema político-partidário português enfrentam partindo de uma premissa relativamente simples: se nada for feito, se os problemas estruturais do país se continuarem a agravar, se as desigualdades sociais continuarem a persistir, se os eleitores se forem convencendo de que os partidos tradicionais não respondem às suas legítimas aspirações, então pode chegar o dia em que os partidos tradicionais darão lugar a outros.

Não é uma ideia assim tão original. E nem vale a pena procurar em latitudes mais exóticas ou menos próximas dos valores ocidentais e europeus. Em Itália, já perceberam. Na Alemanha, a lição veio com compreensível espanto e horror. Em França, apesar dos sinais que se foram acumulando, a disputa a dois que se coloca no horizonte mais próximo era inimaginável há uma década. No Reino Unido, acendem-se velinhas para que desta vez corra bem. Em Espanha, o sistema continua a testar a paciência dos eleitores — veremos até quando.

Existe um sentido de urgência por essa Europa fora. Um sentido de urgência que está a castigar quem liderou os regimes no pós-guerra, durante o período de integração europeia e na resposta às duas grandes crises, financeira e sanitária. Que está a castigar quem teve de enfrentar os desafios colocados por duas guerras que não estavam no guião da História e por um salto tecnológico que parecia reservado às obras de ficção científica. Existe um exército de gente que ficou para trás a exigir respostas e os paliativos que o travaram no passado começam a não surtir efeito.

É justo dizer que os partidos tradicionais disputam o futuro num campo inclinado. Que problemas complexos exigem soluções complexas e que levam necessariamente tempo. Mas ficar parado não deveria ser uma opção. Por cá, o PSD parece estar a ficar sem ideias. O PS continua à procura delas e parece convencido de que basta ficar sentado à espera da santa alternância. O Chega, que não faz ideia de como se resolvem os problemas, coleciona inimigos (reais e imaginários) para justificar os atrasos do país. Só que, em momentos de crise como este, é o que basta para juntar quem deixou de acreditar.

Qualquer que seja o ângulo que se procure (resultados eleitorais, sondagens, distribuição de votos em função da idade, classe social ou região do país, trabalhos de campo com eleitores que fugiram dos partidos tradicionais, exemplos do que vai acontecendo lá fora), a lição só pode ser uma: o sentido de urgência não deveria ser ignorado porque a paciência está a esgotar-se. E o tempo é um brutamontes.