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(A) :: Pedro Penim trata um “trauma da história do Teatro Nacional” com fogo e provocação. Quem tem medo de “Macbeth”?

Pedro Penim trata um “trauma da história do Teatro Nacional” com fogo e provocação. Quem tem medo de “Macbeth”?

Após quase quatro anos fechado, o Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, em Lisboa, reabre, por fim, as suas portas. Fá-lo com uma "peça maldita" e com os bilhetes quase esgotados.

Joana Moreira
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João Porfírio
photography

“Na madrugada, este teatro ardeu.” A frase corta o silêncio da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. É a 2 de dezembro de 1964 que a memória recua. Nessa noite, a companhia Rey Colaço — Robles Monteiro apresentava a peça de William Shakespeare, Macbeth. Horas depois, as chamas devoravam o edifício. Falou-se de poeira, madeira velha, mas o que é certo é que quando os bombeiros chegaram já pouco havia a fazer. Restava apenas um crematório de memórias.

De volta a 2026. Durante o ensaio a que o Observador assiste, o alarme de incêndio volta a disparar. Cá fora, quase como um eco cómico, chega a notícia de um pequeno foco de incêndio no Rossio, no vizinho Café Nicola, mas o fogo é extinto em poucos minutos. Afinal, as maldições também falham. Já o fumo que preenche a caixa de palco do D. Maria II não é um acidente: é uma escolha deliberada, de Pedro Penim, o diretor artístico que decidiu atirar achas para a fogueira e fintar o temor da peça escolhendo-a para reabrir o edifício do Rossio após a maior intervenção das últimas décadas. Macbeth estreia-se esta sexta-feira, dia 18, e mostra-se até 31 de outubro.

Três anos e oito meses depois, o regresso ao monumental teatro acontece sem uma grandiosidade oca (até porque as mudanças são pouco percetíveis), mas com uma enorme carga simbólica. “Sabia que queria reabrir com um clássico da dramaturgia, para dar o sinal de que esta casa — que esteve em vários espaços, com uma programação atípica e itinerante — é também uma casa de repertório”, explica Pedro Penim ao Observador, findo o ensaio. “Andei a ler muita coisa, de Tchecov a Gil Vicente, até que a exposição ‘Quem és tu?’, coordenada pelo Tiago Bartolomeu Costa, que retratava os últimos 100 anos do teatro, me chamou à atenção com uma secção inteira dedicada ao incêndio de 1964 e à apresentação de Macbeth.”

Foi aí que o pensamento começou a ruminar: e se o teatro reabrisse exatamente com a peça que o fez encerrar? “Ficou como um trauma da história do teatro nacional, porque a peça nunca mais foi produzida pela casa. Já recebemos outras versões em regime de acolhimento, mas nunca mais a produzimos”, lembra o encenador. A ideia de reabrir com o texto “amaldiçoado” trazia “uma ideia de provocação ao destino”.

Mas a receção interna à proposta foi “cautelosa”, confessa. No meio teatral, a superstição em redor de Macbeth é lendária, pontuada por séculos de relatos de acidentes e tragédias. “No caso português, a maldição traduziu-se no incêndio da quase totalidade da casa mãe do teatro português. Embora nunca se tenham apurado as causas exatas, a responsabilidade do texto ficou sempre no ar”, diz Penim. Vencida a hesitação, a escolha revelou-se inevitável: “Já não consegui tirar a ideia da cabeça. É uma peça que enche as medidas para esta reabertura e estabelece um diálogo muito estreito com a história do próprio edifício”.

A provocação não esteve isenta de percalços. A intenção inicial de Pedro Penim era utilizar a tradução do poeta brasileiro Manuel Bandeira — a mesma que subiu ao palco na fatídica encenação de 1964. “Achava que utilizar a mesma tradução e as mesmas palavras poderia reificar a ideia de evocar o espírito dessa produção dos anos 60”, conta. Contudo, os representantes dos direitos do poeta nunca responderam às solicitações. “Insistimos durante nove meses. Chegou a um momento em que me senti encurralado e percebi que teria de ser eu a fazer a tradução.”

Dessa “longa, difícil e sofrida jornada” de traduzir Shakespeare nasceu uma imersão profunda no texto. A tradução assinada por Penim será agora editada em livro. A encenação, essa, procura “atenuar a ingerência autoral” para deixar a obra livre a interpretações selvagens por parte do público. “É uma obra tão aberta que permite milhares de leituras.” Ainda assim, há um filtro inevitável que atravessa o espetáculo e que conecta a tragédia escocesa ao século XXI. “Há um ângulo específico que tem a ver com a ideia do fascínio pelo mal, que me parece muito contemporânea”, reflete o encenador.

“Sinto que o mal se exibe hoje de uma forma bastante mais desabrida, às vezes até pavoneando-se pelas nossas televisões, pelos nossos telemóveis, por todos os consumos que fazemos de notícias e de opiniões."
Pedro Penim, encenador e diretor artístico do TNDMII

“O mal, tal como na época de Shakespeare, exibe-se hoje de uma forma bastante mais desabrida, às vezes até pavoneando-se pelas nossas televisões e telemóveis, por todos os consumos que fazemos de notícias e de opiniões”, reflete Penim. A espiral sangrenta de Macbeth deixa de ser uma abstração distante para se tornar num espelho do presente: “Perceber essa ideia do mal — e às vezes até o mal tresloucado, parecido com aquilo que os Macbeth preconizam — e ver que acaba por ter uma influência que não pensaríamos ser possível acontecer aos dias de hoje… O que é certo é que estamos cada vez mais entregues a uma loucura generalizada, que tem muitas vezes este propósito e este fundamento de, pura e simplesmente, causar o mal em proveito próprio, sem que haja nenhum escrutínio, nenhum pudor até de o assumir. Macbeth fala sobre esta ausência de limites.”

Para dar corpo a esta espiral moral de duas horas e meia, Pedro Penim apostou num elenco com quem já trabalhou no passado, destacando-se a dupla protagonista. No papel de Macbeth surge José Raposo, “um dos atores mais amados do país”, aqui convocado para interpretar um dos maiores vilões da história da dramaturgia. “Interessava-me que houvesse essa empatia inicial da parte do público. O Macbeth carrega violência, mas também muita dúvida e contradição, expostas de uma forma comovente”, nota o encenador.

No contraponto surge Bárbara Branco como Lady Macbeth. A atriz traz “uma energia mais Gen Z, uma frescura no gesto”. É ela quem assume a mentoria do plano trágico. “Dada a sua condição de mulher naquele contexto, ela conduz toda a empreitada através da inteligência, mas também da maldade. O jogo de contrastes entre o José e a Bárbara é extraordinário.”

Juntamente com a dupla protagonista, o elenco reúne Ana Coimbra, Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding, João Grosso, José Neves, June João, Sandro Feliciano, Stela e Vítor Silva Costa num trabalho de conjunto reforçado pelo desenho visual e sonoro da produção. A cenografia de Joana Sousa e os figurinos da marca BÉHEN (assinados por Joana Duarte) constroem o universo estético de uma encenação onde a luz de Daniel Worm d’Assumpção e a composição e desenho de som de Filipe Baptista têm um papel determinante para alimentar a atmosfera densa do espetáculo. A resposta do público traduz-se, para já, na bilheteira: com uma temporada mais alargada do que o habitual, os bilhetes esgotaram rapidamente, restando apenas lugares de visibilidade reduzida.

O edifício renascido e o futuro do Teatro Nacional

Quem entrar agora no D. Maria II vai encontrar uma máquina cénica totalmente renovada. A caixa de palco e a maquinaria, que estiveram interditas e obsoletas durante anos, funcionam agora em pleno. “As pessoas vão encontrar um teatro muito melhor do que aquele que deixaram”, garante o diretor, que nota como os quase quatro anos de portas fechadas no Rossio não significaram uma paragem. A iniciativa Odisseia Nacional levou o D. Maria II a percorrer municípios de norte a sul, numa descentralização inédita que deixou marcas profundas no tecido artístico. “Sentimos um misto de alívio e euforia por voltar”, admite Penim. “Mas há uma nostalgia saudável desse tempo de grande liberdade em que fomos obrigados a inventar uma nova forma de ser Teatro Nacional. O meu aviso para mim e para as direções artísticas que me seguirem é que não podemos voltar a ser apenas o ‘Teatro do Rossio’. É preciso reconhecer a monumentalidade do edifício, mas sem perder a ligação ao resto do território.”

Prestes a cumprir cinco anos na liderança artística da casa, Pedro Penim tem mandato até ao final de 2027 (com possibilidade legal de renovação por mais dois mandatos, decisão que, ao Observador, diz ainda não ter tomado). Certo é que deixará a programação desenhada até 2028 ou 2029, como exigem as boas práticas das instituições públicas. “Sairei sempre do D. Maria II com uma sensação de satisfação absoluta”, confessa.

Por agora, todas as atenções se concentram na Sala Garrett. As luzes apagam-se, o fumo avança sobre as primeiras filas. Sentimos o calor do fogo, a dança da chama diante dos nossos olhos. Macbeth descobre que o destino é apenas uma questão de interpretação. E o Teatro Nacional D. Maria II prova que, depois de arder, sabe como renascer. Enfrentemos a maldição.