A certa altura não havia como passar ao lado. Uma, duas, três, cinco, dez, 12. Umas vezes 12, outras vezes 14. Tudo antes de cada serviço. Se teve 20 jogos de serviço ao longo de cada um dos quatro sets, se houve ainda um tie break, se alguns dos jogos foram às vantagens, é fazer as contas. Sim, ainda existiu um warning por excesso de tempo mas Alexander Zverev nunca abdicou de uma rotina que se tornou quase uma imagem de marca que tem apenas paralelo com aquilo que faz Novak Djokovic. É a sua forma de servir, de ganhar foco, de ser melhor. A forma que permitiu que, no melhor ano da carreira, fosse a três finais de Grand Slam com a conquista dos dois primeiros Majors entre Roland Garros e US Open. Os adversários não gostaram.
“Ele deve bater a bola uns 25 ou 30 segundos. Não queria estar parado tanto tempo, queria ter o meu corpo relaxado e não esperar agachado e concentrado durante tanto tempo para nada. Nunca bate a bola menos de dez vezes. Acho uma regra absurda ter de ficar parado à espera enquanto o adversário vai fazendo a sua rotina, devia estar apenas pronto no momento em que ele juntasse as mãos para servir”, comentou Ben Shelton, que a partir sobretudo do terceiro set foi começando a desligar até o alemão terminar todos esses batimentos antes do serviço. Mais: dois dias antes, Karen Khachanov queixara-se do mesmo.
“Não há nenhum desportista do mundo que vejas em ação e que fique sossegado apenas na sua posição durante 30 segundos antes que comece uma jogada”, acrescentou, falando mais da “regra” existente do que do adversário. “A forma como bate a bola antes do serviço não me incomoda apenas a mim, há muitos jogadores que acham desconfortável porque demora muito tempo. Nunca se sabe exatamente qual é o melhor momento para preparar o serviço. Estás pronto, de repente bate a bola mais 12 vezes, depois tens de fazer o split step de novo e preparar tudo outra vez. E acontece quase em todos os pontos”, tinha argumentado após as meias-finais o russo Karen Khachanov, que chegou a ter dois set points não concretizados com o alemão.
Com mais ou menos batimentos, com maior ou menor paciência, Alexander Zverev acabou com aquilo que já se dizia ser o American Dream e bateu Ben Shelton para se tornar o melhor jogador do circuito em 2026 – e com a perspetiva de poder chegar ainda a número 1 do ranking ATP, apesar da diferença que ainda tem para o atualmente lesionado Jannik Sinner. O foco nos jogos, nas finais e nas vitórias é tanto que ganhou e nem se apercebeu, começando a ver a reação das bancadas para cair na real e saber que se tinha sagrado campeão (sendo que mais tarde, numa entrevista, explicou que pensava estar 5-1 e não 6-2 no quarto set). Aos 29 anos, o germânico chegou ao topo – ou perto disso. Mas nem por isso perdeu a humildade.
“Se me sinto o melhor tenista da atualidade? Não sei como responder a isso, precisamos ter tudo em conta. Com o Jannik [Sinner] lesionado e o Carlos [Alcaraz] a voltar após uma paragem de quatro meses, neste preciso momento, agora mesmo, provavelmente sou. Se ambos estivessem saudáveis e com pleno rendimento, talvez não fosse porque quando eles estavam bem, eu não era o melhor. Perdia de forma constante com o Jannik, há quatro ou cinco meses. Se todos estiverem bem, acho que o Jannik está acima de todos os outros. É um tema assim tão simples como isto”, assumiu o jogador alemão após o US Open, que confirmou o registo 100% vitorioso contra Ben Shelton (6-0) e esmagador contra jogadores canhotos.
Em paralelo, Alexander Zverev, que já tinha sido campeão olímpico, já tinha conquistado o ATP Finals e somava 26 títulos ATP em 44 finais na carreira mas que só agora chegou aos Grand Slams (vingando uma derrota amarga em Nova Iorque frente a Dominic Thiem no ano de 2020), recordou também uma frase da mãe quando era ainda uma criança para tentar dar o exemplo de como não há impossíveis na vida.
“Acredito que não mudei assim muito o meu nível para ser sincero. Ganhar um Grand Slam era um objetivo que tinha definido, agora ganhei o segundo e quero mais. Queremos sempre alcançar coisas maiores, com o mesmo trabalho duro para conseguir e estando centrado nessas metas. Toda a gente tem sempre um objetivo na cabeça. Eu acreditava que era possível, apesar de muitos de vocês não acreditarem…”, salientou o jogador que se tornou o segundo alemão a conquistar o US Open depois da vitória de Boris Becker em 1989.
“Quando o teu filho de quatro anos é diagnosticado com diabetes e os médicos no consultório dizem que a sua vida e as suas atividades desportivas serão extremamente limitadas, é preciso muita força para uma mãe sair dali a dizer ‘O meu filho será o que ele quiser ser. Se quiser ser tenista, será tenista; se quiser fazer outra coisa, fará outra coisa. Esta doença não nos vai definir'”, comentara no court após o triunfo, recebendo uma enorme salva de palmas de todos aqueles que, minutos antes, lhe rogavam pragas… pelos serviços.