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(A) :: Porque é que continuamos a sair da escola sem saber gerir dinheiro?

Porque é que continuamos a sair da escola sem saber gerir dinheiro?

Continuamos a tomar decisões financeiras sem nunca termos aprendido, de forma estruturada, a fazê-lo.

Ana Filipa Castro
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Na escola ensinam-nos a resolver equações, a identificar as capitais do mundo e a analisar textos literários. Mas quantos de nós terminámos o ensino obrigatório a saber ler um contrato de crédito, a distinguir a TAN da TAEG ou a compreender o impacto da inflação nas nossas poupanças?

Existe um desfasamento entre aquilo que aprendemos ao longo do percurso escolar e algumas das competências de que realmente precisamos para navegarmos no mundo atual. E uma das mais evidentes é a educação financeira.

Esta lacuna não começa nem termina na escola. Muitas vezes prolonga-se em casa, onde os pais e encarregados de educação também não se sentem preparados para assumir este papel. O resultado é um ciclo que se repete de geração em geração: continuamos a tomar decisões financeiras sem nunca termos aprendido, de forma estruturada, a fazê-lo.

Persistem também alguns preconceitos. Ainda há quem associe educação financeira a enriquecer ou a investir na bolsa. Como se fosse um conhecimento reservado a quem tem património ou trabalha na área das finanças. Mas, na verdade, educação financeira é muito mais do que isso. É a capacidade de compreender as consequências das nossas decisões, planear o futuro, evitar erros evitáveis e ganhar autonomia para fazer escolhas conscientes.

A economista Annamaria Lusardi, uma das maiores referências mundiais nesta área, defende que a literacia financeira é uma competência essencial para a vida no século XXI, tão importante como saber ler, escrever e fazer contas. A sua relevância não está apenas no conhecimento teórico que transmite, mas na capacidade de o aplicar na prática e transformar esse conhecimento em decisões mais informadas ao longo da vida.

Essa aprendizagem acompanha-nos em momentos decisivos: a entrada no mercado de trabalho, a escolha entre comprar ou arrendar casa, a contratação de um crédito, a constituição de família, a educação dos filhos, a preparação da reforma ou a gestão de um negócio. Em todas estas etapas, as decisões financeiras têm impacto direto na nossa qualidade de vida e impactam crianças, jovens, empreendedores, famílias, trabalhadores e reformados.

Os benefícios ultrapassam, aliás, a esfera individual, uma vez que têm um efeito multiplicador no bem-estar coletivo. Sociedades com maiores níveis de literacia financeira tendem a apresentar melhores decisões de poupança, de investimento e de gestão do endividamento. São também sociedades mais resilientes, mais inclusivas e com cidadãos mais autónomos.

Por isso, a educação financeira deve começar cedo, adaptar-se às diferentes fases da vida e envolver famílias, escolas, empresas e instituições. Não basta disponibilizar informação, é necessário garantir que esse conhecimento é aplicado na prática, através da criação de hábitos, do desenvolvimento do pensamento crítico e de dar confiança às pessoas para decidirem.

Porque, no fundo, é disso que falamos quando falamos de educação financeira: Liberdade. Liberdade para escolher, para dizer não ao endividamento excessivo e desnecessário, para aproveitar oportunidades, para enfrentar imprevistos e para construir o futuro que desejamos com maior segurança.

Vivemos numa época em que quase tudo pode ser aprendido online, mas continuamos a deixar ao acaso uma das competências que mais influencia a qualidade de vida das pessoas. A educação financeira não garante riqueza, mas garante algo ainda mais importante: a capacidade de fazer escolhas conscientes e construir um futuro melhor e com maior liberdade.

E essa não é nem pode ser uma competência reservada aos economistas ou aos especialistas em finanças. É uma competência básica de cidadania. E, como todas as competências essenciais, deve ser aprendida antes de ser necessária.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.