Em condições normais, André Ventura estaria em permanente rodapé televisivo a clamar por justiça, a exigir demissões e a transformar o “assalto” ao seu gabinete num comício diário. O facto de, desta vez, preferir o silêncio, a esquiva e o argumento ridículo de que se trata de um “assunto interno” não é prudência, é uma confissão de cobardia política e uma afronta direta às instituições.
Desde quando é que uma invasão de segurança na Assembleia da República é um assunto privado? A vida e os bastidores do Chega não pertencem ao domínio pessoal de Ventura. Dizem respeito aos seus eleitores, aos seus simpatizantes e a cada cidadão que paga o funcionamento da casa da democracia. Exigir a verdade sobre o que aconteceu no parlamento não é ingerência partidária: é um dever democrático elementar.
O país tem o direito de saber exatamente com o que está a lidar e com quem está a lidar , porque não há meio-termo nesta história. Apenas existem duas hipóteses, e ambas são de uma gravidade extrema:
1. Se o assalto aconteceu de facto: Estamos perante uma falha inaceitável na segurança da Assembleia da República e um crime grave que exige o apuramento imediato de responsabilidades e a revisão total da estrutura de segurança do parlamento.
2. Se o assalto foi uma invenção: Estamos perante uma aldrabice grotesca, uma manobra miserável de diversão política e um crime explícito de simulação, previsto e punido pelo artigo 366.º do Código Penal.
É precisamente por isto que a insistência do Chega em abafar o tema é intolerável. Um partido que construiu toda a sua existência com base na exploração do crime, na manipulação de vídeos, na desinformação sistemática de figuras como Pedro Frazão e no aproveitamento do ruído medático, não pode agora vir exigir recato, pudor e privacidade quando a suspeita de farsa bate à sua própria porta. Quem vive de acusar tudo e todos não tem o direito de esconder as mãos no momento em que é confrontado com os seus próprios atos.
Ao tentar trancar este caso a sete chaves, André Ventura está a fazer o que sempre fez: a jogar num tabuleiro perigoso e a passar um atestado de estupidez aos portugueses. A democracia não aguenta esta nuvem de suspeição nem pode pactuar com jogadas de bastidores. Apurar este caso é substancialmente mais urgente e prioritário para a integridade do Estado do que qualquer outra manobra de diversão política do momento.
Se Ventura não tem nada a esconder e se a sua conduta é assim tão ilibada, devia ser o primeiro a exigir a investigação até às últimas consequências e o debate público sem filtros. Se prefere fugir, esconder-se e dizer que “ninguém quer saber”, a resposta do país tem de ser clara: nós queremos saber.
A verdade virá ao de cima, e ela tem de ter consequências fatais. Se o alegado assalto não passou de uma encenação para vitimização política, a André Ventura resta apenas um caminho moral e político: a demissão imediata. A democracia exige respostas, não tolera farsas e não se vai calar.