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À (re)conquista do CHEGA — Já há quem dispute a Ventura o monopólio da revolta

O espaço à direita do CHEGA não estava vazio por falta de eleitores disponíveis. Estava vazio por falta de um veículo que se candidatasse a representá-los.

Nelson Miguel Dias da Silva
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Em artigos anteriores tentei demonstrar o impacto das políticas de imigração de António Costa em vários sectores da sociedade portuguesa. Hoje vamos lançar um olhar sobre as consequências políticas.

Em 2016, Portugal vivia instalado no mito da exceção: era o país que a direita radical europeia parecia ter esquecido de visitar. Em 2026, Portugal vive outra coisa. Vive a competição pelo maior mercado político da atualidade — o mesmo que já reconfigurou a Alemanha, a França, a Itália ou a Suécia. A diferença entre as duas décadas não é uma mudança de carácter nacional. É o tempo que levou a admitir que a procura sempre lá esteve.

Há um nome a que essa procura anda associada, ainda que raramente se diga com esta franqueza: António Costa. Não porque tenha construído a direita radical portuguesa — não construiu. Mas porque geriu, durante os seus anos de governação, a política migratória e demográfica que criou as condições para a sua procura. Um modelo de regularização massiva. Uma alteração acelerada da composição populacional, sem debate público equivalente. E a recusa em tratar a ansiedade que isso gerava como um problema político legítimo, em vez de um preconceito a corrigir. É isso que preenche, hoje, o “mercado” que o CHEGA abriu e que o Reconquista tenta agora disputar-lhe. Costa não fez a direita radical portuguesa. Fez o país onde ela floresce.

Essa é a tese. Os dados de uma sondagem recente sobre o movimento Reconquista (Intercampus, universo de 803 inquiridos, realizada entre 10 e 31 de julho), ainda sem estatuto formal de partido, permitem medir até onde esse crescimento já vai — e mostram que ele não parou no CHEGA.

Mas há uma segunda camada nesta tese que importa separar da primeira. O CHEGA é o produto da geringonça. Nasce e cresce como resposta direta à entrada da extrema-esquerda no governo pela mão de António Costa. E, noutra parte, como resposta ao modelo de imigração e de gestão demográfica dos anos de Costa. Vale a pena lembrar que essa ligação não foi imediata nem óbvia desde o início — o CHEGA hesitou em entrar de frente no combate às políticas migratórias de Costa, e não havia, nos seus primeiros cartazes e campanhas, um único que falasse de imigração. A imigração tornou-se bandeira central muito mais tarde, só depois de as consequências se tornarem incontornáveis. Não porque tivesse sido o motor original da direção do partido, mas porque se tornou eleitoralmente vantajoso. Essa contenção não resultava necessariamente da falta de apoio das bases – pelo contrário – mas do receio de que assumir uma linha mais dura sobre imigração tivesse custos para a imagem do partido e do seu líder. Mas a hesitação do CHEGA diz mais sobre o partido do que sobre a procura que lhe deu origem — e é essa procura que importa perceber.

Ela não nasceu do nada nem à espera de um partido que a descobrisse: se existe hoje uma maioria ideológica – no que toca à rejeição do modelo migratório actual – ela também é fruto de muito esforço de alertas e denúncias por parte de organizações e ativistas que, durante anos, prepararam o terreno para que a representação política pudesse depois herdá-lo. Os partidos chegaram tarde a uma luta que a sociedade civil já vinha travando. Talvez o próprio CHEGA nunca tenha sabido reconhecer, ou dar o devido crédito, a esse trabalho de anos feito por outros. Sem palco parlamentar, foram eles os primeiros a insistir numa pauta que o partido só depois decidiu abraçar.

O Reconquista é outra coisa. Apesar de ter nascido ainda na era de Costa, foi já no tempo da AD que se consolidou — e isso é consequência direta da maquilhagem de Montenegro. Não da rutura que prometeu, mas da continuidade disfarçada de correção: Montenegro conseguiu reduzir a velocidade do fenómeno; aquilo que não fez foi inverter a transformação demográfica acumulada.

Se o CHEGA cresceu a cobrar a fatura a quem abriu as portas, o Reconquista quer agora cobrar a fatura a quem prometeu acabar com as portas escancaradas e não o fez.

E há aqui uma ironia difícil de ignorar. Montenegro endureceu o discurso migratório precisamente para retirar espaço ao CHEGA. Como pode ter acabado a criar espaço para uma força ainda mais à direita? Talvez porque há um limite para aquilo que a linguagem consegue esconder. Se o discurso muda mas os fluxos continuam, o eleitor que acreditava ser necessária uma mudança não desaparece. Procura quem lhe prometa uma mudança maior. E o Reconquista já lhe deu um nome: remigração — não apenas travar novas entradas, mas promover o regresso de quem já entrou.

O que os números mostram

Hoje, 33,6% dos portugueses já ouviram falar do Reconquista e 26% reconhecem o nome do seu líder, Afonso Gonçalves, apesar de o movimento nunca ter concorrido a eleições. Quando se simula a sua entrada na corrida eleitoral, o CHEGA é o partido que mais perde: cai 3,4 pontos percentuais, o equivalente a cerca de dois terços de todo o eleitorado que o Reconquista consegue captar (5,2%). O PS cede uma fração bem menor; os restantes partidos, praticamente nada. A erosão não é generalizada — é dirigida, e incide sobretudo sobre o eleitorado do CHEGA mais fiel: Norte, meio urbano, faixas etárias mais avançadas.

Mais relevante do que este número, porém, é o que fica por baixo dele: 31,3% dos inquiridos dizem que “ponderariam” votar no Reconquista caso este se torne partido — seis vezes mais do que os que já o fariam hoje — e este universo tem um perfil quase inverso ao dos que já mudaram de voto: mais jovem, mais feminino, mais rural. Há, portanto, dois fenómenos sobrepostos: uma canibalização já em curso do núcleo duro do CHEGA, e uma reserva de simpatia difusa, ainda não convertida em voto, fora desse núcleo.

O que é que o Reconquista tem que o CHEGA não tem?

Do ponto de vista da sociologia política, aquilo que um movimento nascente oferece raramente é um programa distinto — é uma origem distinta. O CHEGA, sete anos depois da sua fundação, já é uma organização com histórico parlamentar, com fações internas, com o desgaste normal de quem exerceu oposição visível e fez concessões táticas. A isto somam-se casos graves, como os de elementos ligados ao partido que foram associados a esquemas de enriquecimento através da exploração de alojamentos para imigrantes — um desgaste tanto mais corrosivo quanto contradiz frontalmente o discurso que o próprio partido construiu sobre o tema.

Há ainda uma perda menos evidente: pelo caminho, o CHEGA foi perdendo precisamente alguns dos quadros que, desde a fundação, lhe davam maior consistência e conhecimento na área da imigração.

No seu lugar, quem hoje fala de imigração em nome do partido inclui vários “arrependidos” vindos de outros quadrantes políticos — figuras que noutro tempo estiveram associadas a forças que defenderam precisamente o modelo migratório que o CHEGA diz combater. É difícil construir autoridade sobre um tema quando parte dos seus porta-vozes são convertidos tardios das mesmas correntes que o partido nasceu para contestar.

O Reconquista não tem nada disto: não votou, não geriu conflitos internos publicamente, não dececionou ninguém ainda. Nos dados, isto aparece com clareza — a opinião sobre Afonso Gonçalves, entre quem o reconhece, é ligeiramente positiva; a opinião sobre o CHEGA enquanto marca já consolidada tende a ser mais polarizada. Um movimento sem historial vende uma promessa de pureza que nenhum partido em exercício de oposição consegue manter durante muito tempo. É esse capital simbólico — não um posicionamento ideológico mais radical, necessariamente — que parece explicar a atração sobre uma fatia jovem e feminina que o CHEGA nunca converteu.

O que ganha o CHEGA com o aparecimento de um partido mais à direita?

Contraintuitivamente, mais do que perde. Um sistema partidário com uma força situada ainda mais à direita empurra o centro percecionado do espectro, e o CHEGA passa a ocupar, por comparação, uma posição mais próxima do “aceitável” — o efeito de flanco que a ciência política regista quando emerge um concorrente mais extremo do mesmo lado. Em representação proporcional, como é o caso português, o risco de “voto desperdiçado” por fragmentação da direita radical é também menor do que seria num sistema maioritário, o que reduz o custo de ter um rival à direita. E há ainda uma função de válvula de escape: o eleitorado mais radicalizado, que incomoda a normalização do discurso do CHEGA em contexto de negociação de poder, tem agora para onde ir sem que o CHEGA precise de o expulsar ou de romper com ele publicamente.

Mas há outro lado nesta equação. E se o verdadeiro problema do CHEGA já não for conquistar eleitores ao centro, mas impedir que apareça alguém capaz de lhe retirar o monopólio da revolta à direita?

Ventura pôde, até agora, jogar nos dois tabuleiros. Moderar quando precisava de parecer governo; endurecer quando precisava de voltar a ser protesto. Podia fazê-lo porque praticamente não tinha ninguém à sua direita com capacidade para lhe cobrar as cedências. O Reconquista, mesmo pequeno, muda essa conta. Cada passo do CHEGA em direção ao centro passa a ter um preço possível à direita.

E aí começa um problema que Ventura nunca teve verdadeiramente de resolver: para chegar ao poder precisa de normalizar o CHEGA; para continuar dono do protesto precisa de evitar que essa normalização pareça uma rendição. O Reconquista nem sequer precisa de crescer muito para lhe criar esse problema. Basta existir e ter votos suficientes para tornar cada cedência visível.

Porque razão o CHEGA nunca quis absorver o Reconquista?

Absorver teria um custo que os ganhos de flanco não têm: validaria a ideia de que o CHEGA não esgota o espaço à direita — de que existe algo a captar que o próprio CHEGA não conseguiu representar. Um partido construído em torno da personalização de um único líder, como é o caso do CHEGA em torno de André Ventura, tem dificuldade estrutural em incorporar outra figura com visibilidade própria sem gerar competição interna pela liderança. E há um cálculo reputacional: associar-se formalmente a um movimento ainda por testar, com uma imagem de marca mais negativa do que a do seu próprio líder, é arriscado. Reforça precisamente a etiqueta de extremismo de que o CHEGA tenta ativamente distanciar-se à medida que se aproxima do exercício de poder. É mais rentável deixar o Reconquista existir como concorrente do que geri-lo como aliado.

O que fica por confirmar

Nada disto garante que o Reconquista se torne, de facto, partido, nem que sobreviva ao teste das urnas — movimentos com este perfil dissolvem-se com frequência antes de lá chegarem. Fica também por confirmar se o Tribunal Constitucional aplicará ao Reconquista o mesmo escrutínio de assinaturas e estatutos que, recorde-se, também recaiu sobre o CHEGA em 2019 — ou se, desta vez, esse processo servirá de pretexto para atrasar ou dificultar a entrada de um movimento que a sondagem já coloca com 5,2% dos votos.

E é justamente esses 5,2% que interessa isolar do ruído processual à volta do Tribunal Constitucional. O que os dados desta sondagem estabelecem é mais modesto e, ainda assim, significativo: o espaço à direita do CHEGA não estava vazio por falta de eleitores disponíveis. Estava vazio por falta de um veículo que se candidatasse a representá-los.

Essa distinção — entre ausência de procura e ausência de oferta — é exatamente aquela que Portugal, entre 2016 e 2026, deixou de poder ignorar.

Durante anos perguntámos por que razão Portugal não tinha uma direita radical comparável à que crescia no resto da Europa. Talvez a pergunta estivesse errada.

A questão nunca foi saber se existia procura. Era saber quanto tempo demoraria até aparecer oferta.

O CHEGA foi o primeiro a percebê-lo. O problema de Ventura é que pode não ser o último.