Eu lamento muito que se levante sempre um coro de indignados quando que se tenta falar do passado, sobretudo num país onde há mais vacas sagradas do que na Índia, mas a nossa história colectiva não se conta sem regressarmos a 2015. É o ano a que nunca se quer voltar, naturalmente. Durante os últimos onze anos consolidou-se mediaticamente e na política portuguesa a ideia de que nada de extraordinário ali ocorreu, pelo que qualquer tentativa de balanço é imediatamente vista como um sacrilégio e uma afronta. A verdade é que 2015 é o ano que nos bate cada vez mais vezes à porta.
Quando António Costa, embalado por um incentivo explícito do Partido Comunista, resolveu quebrar todas as regras não escritas que formavam o consenso democrático e constitucional, os elogios foram-lhe todos dirigidos. Costa, um cínico amoral que oficializou o baixo nível do debate parlamentar, foi elevado à categoria de Príncipe Perfeito por aquilo a que, hoje, se chama bolha. Com Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, viu estender-se-lhe um tapete vermelho sobre o qual podia cometer todas as patranhas, acenar todos os engodos, construir a sua própria narrativa. Com o Bloco de Esquerda e os comunistas às costas, pôde oferecer-lhes todas as vitórias revolucionárias possíveis, ao mesmo tempo que os secava eleitoralmente, acenando com a moderação das contas certas, um método contabilístico e orçamental que transformou em verdadeiro programa político e uma aldrabice que consistiu em negar tudo aquilo que prometera. Costa tinha no Syriza de Varoufakis e Tsipras o modelo a seguir, mas assim que percebeu que não tinha outra hipótese que não a de manter o rigor orçamental, optou pela magia de trapaceiro, tentando mostrar ao país que era possível abandonar a austeridade e ter saldos orçamentais. Não foram muitos os que contrariaram o charlatão. A geringonça manteve a austeridade por outros meios, conduzindo o país a mínimos históricos de investimento público, depauperando o Estado e os serviços públicos. Em 2026, a erosão do Estado é evidente por todos os lados, mas, caramba, não se pode olhar para 2015!
Na Educação, na Saúde, na Justiça, nos Registos, o país sofre hoje um bloqueio total. Ao mesmo tempo, Costa conseguiu ainda o feito de derrubar outros muros, um dos quais o do consenso social e político que existia em torno das migrações. Foi Costa, com ou sem geringonça, quem explicou ao país que as instituições não serviam para nada, os consensos não serviam para nada, que o PSD e o CDS não serviam para nada. Eram eles, de resto, os perigosos radicais – a direita, e não o Bloco de Esquerda, que achava que podia criar novas bolsas de eleitorado que lhe seriam teoricamente mais favoráveis, era a direita a radical. Gozou de um país que tinha recuperado de uma bancarrota, que vinha a crescer economicamente, a recuperar emprego, a diminuir desemprego, sem perder qualidade nos serviços públicos, socialmente coeso. E desbaratou tudo, ele e Marcelo, dois populistas carentes, um para quem o poder era tudo, outro para quem o amor do povo era essencial.
Costa liderou a esquerda portuguesa, e as redacções mais fiéis, na rota da erosão social e política do país. Acusando os adversários de radicalismo e ilegitimidade. Atirando sobre os outros a soberba dos nababos não escrutinados e não questionados. A tese vinha de trás, dos tempos da troika, sobretudo a partir do momento em que se percebeu que o Governo de Passos Coelho ia conseguir não pedir um segundo resgate, cumprir o memorando, libertando-se do jugo, regressando aos mercados. Passos passou a ser, oficialmente, não apenas um político com ideias diferentes, mas um psicopata, um ser malévolo que se fazia feliz por ver os outros sofrer. A esquerda nunca teve esse tipo de problemas porque a esquerda é boa. E quando é má é por boas razões, o que a absolve sempre. E é por isso que nunca se pode voltar a 2015. Nem mesmo hoje, que nos rebenta nas mãos um país que está a ficar sem dinheiro europeu, que começa a dar cada vez mais sinais de que tem as costuras a rebentar por todos os lados em que o PS mexeu politicamente, na educação, na saúde, na habitação, na coesão social, na segurança. Nem mesmo hoje, apesar de o Governo ser liderado pelo PSD, porque este PSD é liderado por dois incapazes acomodados que, como Costa, entendem que estar no poder é tudo, cortando mesmo as pernas a quem, estando no Governo, ambicionaria fazer o país chegar mais longe.
É por isso que sempre que Passos Coelho surge todos tremem. Uns por ressabiamento ou porque um eventual regresso lhes expõe os fracassos e as incapacidades. Outros porque não gostam que Passos Coelho escancare de forma tão desabrida as fragilidades do país. Outros porque não gostam que exponha a mentira em que vivemos durante os últimos onze anos e continuamos a viver. Outros porque não gostam que se possa suspeitar de que foram cúmplices dessa mentira. Outros porque não têm outro remédio que não seja encolherem-se perante quem é maior do que eles. Outros mesmo, incluindo o actual Governo e o PSD, porque vislumbram no horizonte a verdade e a autoridade que nenhum dos seus actuais dirigentes tem; ou talvez porque ficam horrorizados com a possibilidade de alguém ter autoridade bastante sem precisar de controlar distritais e aparelhos. Tem medo de Passos Coelho quem, no fundo, não gosta de ver as suas próprias misérias expostas. Tem medo quem é pequeno. O país político e o país mediático estão recheados de gente pequena, como quem teme a luz por viver no breu total. É por isso que o resto do país precisa que ele volte. O “como?” e o “quando?” são o que menos importa quando todos sabem responder ao “para quê?”. Eu, que nunca fui ista de coisa alguma, ao contrário de tantos ex-passistas, que em boa medida lhe devem as devidas carreiras políticas ou mediáticas e hoje vivem apavorados com o fim do situacionismo, não tenho medo nenhum dele. E mesmo que nunca regresse à vida política activa, já me contenta que não se cale, como tem feito ultimamente, e que seja cada vez mais futuro e menos passado. Das poucas coisas que me animam é saber que não vivemos inteiramente entre estúpidos e que há ainda quem, sempre que abre a boca, represente boa parte do país que ainda não se resignou.