Se vocês tivessem de antemão clicado no play em Kick Stones, a canção que abre It Goes On, o disco de estreia dos Westside Cowboy, estariam agora a ler um texto sobre eles enquanto os ouviam e assim pelo menos eram previdentes e tinham garantia de que, mesmo que não apreciassem o texto, ao menos ouviam grande música. E agora vou ter de explicar porque é que este ano, durante breves instantes, odiei os Westside Cowboy e para o fazer vou ter de citar um texto que já escrevi, uma repetição de conteúdos que pode muito simbolizar a decadência do ocidente, os efeitos do wokismo ou do Tik-Tok, pouco importa. Porque o que temos mesmo por certo são os impostos e o facto de It Goes On ser incrível.
Dizia então que, em março deste ano, por instantes odiei os Westside Cowboy. Meses antes eu tinha comprado bilhetes para ver os Geese ao vivo em Colónia, numa altura em ninguém sabia quem eram os Geese; também ninguém sabia onde e o que é Colónia e não vejo nenhuma razão para alguém querer saber. Por esses dias em que cliquei num botão numa app e adquiri bilhete, a sala escolhida tinha 200 lugares e não havia banda de abertura; ali estava a sociedade ocidental idealizada, a operar na sua mais funcional perfeição.
Mas depois o mundo inteiro resolveu adorar os Geese e a digressão passou para salas maiores, passando a haver uma banda de abertura – factos a que só tive acesso no próprio dia do concerto, porque todas estas mudanças foram anunciadas, sim senhora, só que foram sendo enviadas para o meu mail EM ALEMÃO e deus me dê paciência para emails assim, eu sou latino, vivo cada dia em caos máximo.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/3dWKCKeiWtxjDNPTbGCQTO?si=jwM_N–hSA6kcRNxN3jiuA
Naqueles primeiros segundos em que pessoas subiram ao palco e não eram os Geese, odiei-os um pouco. Eram os Westside Cowboy e como aquela música não era dos Geese, aí têm: naquele momento, odiei um pouco o que estava a acontecer. Deu-se então um fenómeno dramático no meu humilde interior: fui acometido de um arrebatamento tal que a minha cabeça começou a abanar, os meus ombros a tremer, os meus centros de prazer a encher até deitar por fora e ai Jesus que lá me fui e ali fiquei, apaixonado por estes desgraçados que ninguém sabe quem são (ou ninguém sabia, nequela altura).
O álbum It Goes On confirma aquilo que me ocorreu naquela noite: aqui está uma banda que conhece toda a história do indie-rock, dos Velvet aos Geese, passando pelos Feelies e pelos Strokes, sem esquecer a countryzada e as kinkalhadas britânicas, eles pegaram na enciclopédia e comeram-na, mastigaram cada página até que no sangue só lhes corria a dita enciclopédia e vai daí pegaram em guitarras e, como mandam as regras, desafinaram nos sítios certos e ai Jesus que (mais uma vez) lá me fui e fiquei apaixonado por mais uns desgraçados das guitarras — eu nunca aprendo.
Isto já nem devia sequer acontecer, isto é de uma época que julgávamos ter acabado: quatro seres humanos que se encontram, começam a tocar juntos quase por brincadeira, gramam do barulho das guitarras, gramam não, amam, amam mas amam tanto que concluem que as sacanas das guitarras ainda lhes vão salvar a vida e entregam-se com devoção a elas e de repente estão em Glastonbury, na televisão, em digressão com os Geese, diante de salas cada vez maiores, com um disco de estreia nas mãos. Se é isto a decadência do ocidente, eu quero decair com ele todos os dias. Se a culpa é do woke, mano, bota mais woke. Se é do Tik-Tok, vou já criar conta. Adoro isto – já vos disse que adoro isto? Se calhar está na hora de dizer que adoro isto.
Adoro o riff de Pin Up Boys e os coros e o trabalho de bateria (que são duas coisas a destacar neste disco). Adoro Worried Age, com o seu ataque furioso à bateria e as guitarras rasgadas – por alguma razão lembra-me bué os Felt. Adoro Dobro, que para alguns amigos lembra Shark Smile dos Big Thief, mas não, isto tem uma patine cool urbana mais aproximada dos Strokes num dia triste.
https://www.youtube.com/watch?v=RRI0tuDiyy4
Consigo percorrer o alinhamento do disco e adorar cada canção, sempre de maneira diferente a cada audição, ouvir bandas diferentes dentro de cada uma delas a cada escuta. A mutação é permanente porque a quantidade de influências semeadas, colhidas e cozinhadas é colossal – há muita, muita música aqui dentro.
A culpa – tem sempre de haver culpa – deve ser de Manchester, de onde vêm Reuben Haycocks, Paddy Murphy e Aoife Anson-O’Connell; Jimmy Bradbury, que trabalhava numa loja de instrumentos Johnny Roadhouse, já circulava pela mesma grupeta de seres humanos com extremo bom gosto. Antes de serem os Westside Cowboy foram outras bandas: Haycocks e Murphy tocaram nos DieKaiDai, Murphy e Bradbury nos Katz. Eram projetos mais esquisitos, enfim, faz parte desse processo de tentativa e desespero que é encontrar uma identidade – ninguém disse que era fácil ser puto.
Estes moços deviam ser estranhos aos olhos dos seus colegas, ninguém devia querer falar com eles, deviam andar desesperados na sua vida. E digo isto porque um um dia resolveram tocar canções de Hank Williams e não deve haver nada menos cool na idade deles e aposto que na altura ainda eram todos virgens. Country, rock’n’roll primitivo: junte cerveja e se não gostar saia da minha vida — é este o mote de qualquer pessoa de bem.
E assim os moços começaram a apreciar esse tipo de canção que parece estar a desmoronar-se a cada instante. Está pelo disco inteiro, em cada pequena paragem, ou linha de baixo a atacar a nona quando devia ir à dominante, em cada corda de guitarra fora do tom preciso, está lá essa vontade de não estar certo, de correr como quem cambaleia. É algo que se nota quando ouvimos as guitarras dedilhadas de “Well Done Kid, You Did It”: isto é gente que gosta mesmo de malhar guitarra, mas de malhar guitarra que tropeça a cada passo.
https://www.youtube.com/watch?v=Hdx0uQR_Sro
Eles têm um nome para isto, “Britainicana”, resumindo a sua reverência pela cultura americana, pela country e a folk, o indie americano e o rock’n’roll, sem esquecer a tradição das bandas britânicas. Como todas, é uma palavra escassa, porque se existem violinos, guitarras jangly e restos de country, também estão lá os Velvet, os Pixies, os Feelies (por amor de Cameron Winter, ponham Worried Age em repeat), Horsegirl, todo o indie rock que atravessa as últimas quatro décadas.
É caricato que há meia dúzia de anos andávamos a dizer que o rock morreu e de repente temos Geese, Horsegirl, Wednesday, MJ Lenderman, e parece que pegar numa guitarra já não tem o peso ideológico que transportava há vinte anos, já não é um sinal de ser reaccionário, já não é uma afirmação contra o hip-hop ou a favor da pureza do cancioneiro blablabla, é só uma cena fixe para fazer música.
Ainda antes de os Westside Cowbow fazerem qualquer gravação, já Charlie Wayne, baterista dos Black Country, New Road, descobrira I’ve Never Met Anyone I Thought I Could Really Love (Until I Met You) e a descrevera como uma das suas canções favoritas de 2024. Em 2025 ganharam a Emerging Talent Competition de Glastonbury. Vieram os concertos sobrelotados no The Great Escape, o contrato com a Island Records, as digressões com Black Country, New Road, Blondshell e, sobretudo, Geese.
Mas acho que ninguém esperava Paperchains, de uma leveza quase Vampire Weekend, ninguém esperava Coyote e aquele coro e aqueles solos desvairados que nos deixam cheios de vontade de saltar, ninguém esperava Worried Age — parem lá de jogar padel e vão ouvir Worried Age, por favor.
Numa entrevista ao Guardian os Westside Cowboy falam da imperfeição quase como princípio moral. “Duds are what make music human”, disseram: são as falhas que tornam a música humana. É por isso que Patchwork e Take My Leaving As I Love You são tão importantes: aí podemos praticamente ouvir dedos contra cordas, espaços entre instrumentos, pequenas notas de piano que parecem ter entrado na sala por acaso. São canções que não têm medo de andar descalças por entre os vidros partidos.
Ninguém saberá se os Westside Cowboy têm talento para um segundo disco à altura do primeiro, muito menos os próprios. Mas pouco ou nada importa: neste instante, eles estão aqui. E não há nada mais importante na vida do que estar-se, inteiro, aqui.