Céline Dion regressou aos palcos em Paris, após o prolongado hiato motivado por uma doença neurológica rara. No último sábado — a primeira de 26 datas, distribuídas em duas tranches — a cantora atuou numa arena esgotada por 33 mil pessoas, regressando aos temas em língua inglesa e francesa que lhe deram fama global, como My Heart Will Go On, It’s All Coming Back to Me Now ou Pour Que Tu M’Aimes Encore. As dificuldades impostas pela Síndrome da Pessoa Rígida, que, além de provocar espasmos e rigidez nos músculos, afeta as cordas vocais, não impediram a intérprete canadiana de surpreender o público, naquele que foi o primeiro concerto da canadiana desde 2020. A reação da crítica foi unânime e destacou o regresso “triunfante” e “emotivo”.
Foi no dia do seu 58.º aniversário, no passado 30 de março, que Céline Dion divulgou a boa-nova, num vídeo partilhado nas respetivas redes sociais: estaria de volta aos palcos com “dez espetáculos inesquecíveis” em Paris — o último sítio onde cantou em público, na cerimónia de fecho dos Jogos Olímpicos de 2024. A partir do primeiro andar da Torre Eiffel, interpretou L’Hymne à l’Amour, de Edith Piaf, apesar dos problemas de saúde que mostrou no documentário I Am: Céline Dion (2024).
https://www.youtube.com/watch?v=p2U48t0mgO4
Ao primeiro conjunto de concertos anunciados na Paris La Défense Arena (entretanto renomeada Plenitude Arena) somaram-se seis datas extras, “devido à procura avassaladora” registada. De acordo com o jornal Le Parisien, estas 16 datas, previstas para o intervalo de 12 de setembro a 17 de outubro, esgotaram em quatro dias — durante os quais foram vendidos 490 mil bilhetes. A adesão dos fãs estimulou uma terceira vaga de datas, desta vez para maio de 2027. No total, as residências de Céline Dion na capital francesa disponibilizam 780 mil bilhetes. Quando a cantora divulgou os primeiros concertos, o canal noticioso francês RFI avançou que 9 milhões de pessoas se inscreveram para a pré-venda.
“Fiz uma promessa”, admitiu Céline Dion, contemplando a vasta audiência que assistiu à sua estreia na Plenitude Arena. “Prometi regressar, voltar ao palco. E aqui estou. A cantar para vocês e para mim”, continuou, citada pela BBC. Entre lágrimas, que tentou conter sem sucesso, e múltiplos momentos de emoção, a cantora matou saudades de seis anos longe dos palcos, uma distância motivada pela pandemia de Covid-19 e pela doença incomum que lhe foi diagnosticada.
O último concerto a solo de Céline Dion antes da residência em Paris aconteceu em Newark (Nova Jérsia, EUA) dia 8 de março de 2020, dias antes das recomendações de confinamento motivadas pelo surto de covid-19 que começava a aumentar o número de infetados na América do Norte. Apesar do relaxamento das medidas de contenção da pandemia em meados de 2022, Dion não voltou à estrada a fim de concluir a Courage World Tour, cujas datas na Europa haviam sido sucessivamente adiadas para 2023 e 2024. Desta vez, a justificação foi “uma condição médica diagnosticada”, que preferiu não divulgar até 2022, numa publicação de Instagram.
“Infelizmente, estes espasmos afetam cada aspeto da minha vida, às vezes causam dificuldades quando ando e não me permitem usar as minhas cordas vocais para cantar da forma como costumava fazer”, confessou a cantora no vídeo (entretanto retirado) em que explicou as limitações impostas pela Síndrome da Pessoa Rígida, citada pela estação de rádio NPR. “Tudo o que sei fazer é cantar“, continuou, num tom emotivo, “é aquilo que fiz toda a minha vida e a coisa que mais amo”.
No documentário I Am: Céline Dion, entrou em mais detalhes sobre o processo terapêutico e o quotidiano com a doença autoimune crónica, além de fazer o retrato de uma carreira com mais de 30 anos, cinco Grammys, dois Óscares e mais de 200 milhões de álbuns vendidos. Ao mesmo tempo, a energia da cantora nas cenas de arquivo e as imagens da residência de longa duração em Las Vegas enfatizam as provações da síndrome que lhe causa episódios de convulsões incontroláveis, uma das quais ficou registada em vídeo.
https://observador.pt/2022/12/09/o-que-e-a-sindrome-da-pessoa-rigida-a-doenca-de-celine-dion-que-afeta-uma-pessoa-em-um-milhao/
Céline em concerto: “O sol está aqui, mesmo à minha frente”
Depois de apresentar a primeira canção do concerto, On Ne Change Pas — uma das muitas músicas do repertório francês da cantora original do Quebec, a região francófona do Canadá — Céline agradeceu ao público de “uma cidade que am[a] tanto”. Citada pela Variety, recordou a “jornada longa” e que terminou “no sol”. “O sol está aqui, mesmo à minha frente”, admitiu, envergando um vestido preto sem alças da Dior, que terminava em várias camadas de folhos, sob um colar de diamantes de grandes dimensões. Foi o primeiro de muitos figurinos, entre os quais um fato que permitia maior mobilidade e os passos de dança vagamente excêntricos a que habituou os fãs.
Cantou as músicas de sempre e as novas, como os recentes singles Dansons e Bonjour, Pardon, Merci, além de temas de outros artistas, de Donna Summer a Maria Callas. Baixou o tom das canções sempre que foi necessário, mas mostrou que está disposta a adaptações. “Ao conviver com [a doença] dia após dia, aceitei a situação. E decidi fazer disso a minha razão de viver“, confessou ao público.
https://twitter.com/CelineDionData/status/2098885605476172024
O regresso ao palco em Paris tem dominado as manchetes dos jornais, as redes sociais e até as ruas da capital francesa. De acordo com a Variety, a estação de metro mais próxima da arena foi temporariamente renomeada “Céline” e decorada com versos das canções mais famosas. Além disso, fãs de todo o mundo acamparam à entrada da sala de espetáculos e do hotel Royal Monceau, onde a cantora está alojada — e com quem interagem sempre que possível.
A Câmara Municipal de Paris organizou um evento de karaoke ao ar livre na noite de sexta-feira, a fim de honrar aquela que descreveu como “uma artista do povo”, nas palavras do autarca, Emmanuel Grégoire. “A música tem aquele poder singular de unir toda a gente e construir uma sociedade [melhor]”, continuou o político, no âmbito do evento destinado a acolher 10.000 fãs da intérprete de My Heart Will Go On.
A iniciativa do município não surpreende e junta-se a uma celebração mais alargada da classe política francesa, que festeja as contribuições da residência de Céline Dion para o recheio dos cofres públicos. O jornal Libération dedicou a sua capa justamente ao fenómeno que pode “salvar o orçamento de 2027”, após ter gerado mais de mil milhões de euros, quatro vezes mais do que os três concertos que Beyoncé deu em Paris, em junho de 2025, e um quinto dos lucros que toda a capital acumulou durante os últimos Jogos Olímpicos (segundo a estação de rádio Europe 1).
https://twitter.com/CelineDionData/status/2099002369358844325
https://twitter.com/CelineDionData/status/2099002073316503896








