Os primeiros-ministros da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte têm encontro marcado para esta segunda-feira, em Cardiff, onde, segundo o jornal The Telegraph, deverá ser assinado um memorando de entendimento que poderá marcar o início do fim da união destes países sob o Reino Unido. Em comum está a pretensão destes três países para a realização de referendos com vista à respetiva independência em relação a Londres, o que significaria a dissolução do Reino Unido, tal como se conhece hoje.
O mote foi já dado pelo líder do Governo escocês, John Swinney, que lidera os nacionalistas do SNP: “[Andy Burnham] enfrenta a ideia de que ficará na história como o último primeiro-ministro do Reino Unido”.
As palavras de Swinney surgem na sequência de uma declaração do primeiro-ministro britânico, na qual Burnham abriu a porta a um novo referendo escocês se existisse um “consenso claro” favorável a uma nova consulta popular. Em 2014, o ‘Não’ à independência escocesa acabaria por vencer os sonhos independentistas (55% contra 45%).
https://twitter.com/JohnSwinney/status/2097981619042701626
“Pela primeira vez na história, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte são liderados por primeiros-ministros pró-independência. Não poderia haver sinal mais claro de que o statu quo não é sustentável – e de que Westminster tem de se preparar para um futuro pós-Reino Unido. O impulso por trás de uma mudança constitucional significativa é inegável”, salientou ainda Swinney, que se declarou “ansioso” por discutir o futuro com os seus homólogos galês e norte-irlandês.
Paralelamente às palavras de Burnham, a “interferência” do Presidente dos EUA, Donald Trump, no sábado, em que manifestou o seu apoio a uma Irlanda unida e independente, veio aumentar ainda mais a pressão sobre Londres. Trump descreveu esse cenário como “uma coisa fantástica” e o cenário poderá deixar de ser apenas isso para se vir a tornar uma realidade.
https://observador.pt/2026/09/13/trump-defende-que-reunificacao-da-irlanda-vai-acontecer-eventualmente/
Já em relação à Irlanda do Norte, a vitória dos nacionalistas do Sinn Féin, em 2022, e uma previsível vitória nas eleições do próximo ano, consolidam as aspirações de uma Irlanda unida, apesar dos condicionalismos impostos pelo Acordo de Sexta-feira Santa, de 1998. O acordo depende de uma decisão do ministro britânico para a Irlanda do Norte; de um aparente consenso de que a maioria irá votar pela saída do Reino Unido e a posterior junção com a Irlanda; de uma dupla validação em referendo (um na Irlanda do Norte e outro na República da Irlanda) e de um limite temporal de sete anos entre sufrágios.
A primeira-ministra Michelle O’Neill, que se refere ao encontro como “histórico” e “uma oportunidade”, contará ainda com Mary Lou McDonald, presidente do Sinn Féin e líder da oposição na República da Irlanda (que sucedeu em 2018 ao histórico Gerry Adams, ligado ao IRA, figura central do conflito que ficou conhecido como The Troubles). As duas responsáveis, segundo conta o jornal, vão encontrar-se também para abordar a colaboração numa nova campanha pela independência.
https://twitter.com/moneillsf/status/2099197348308029557
Por último, o País de Gales também reforçou uma aspiração independentista depois de ver, em maio passado, chegar Rhun ap Iowerth ao cargo de primeiro-ministro. O líder do partido nacionalista Plaid Cymru é o primeiro governante deste território que não pertence ao Partido Trabalhista. De acordo com a publicação britânica, o partido nacionalista galês deverá usar esta reunião em Cardiff para pressionar Andy Burnham e levá-lo a conceder mais poderes e autonomia na gestão financeira do País de Gales.
O anunciado memorando de entendimento deverá incidir sobre quatro vertentes: economia, energia, Europa e cooperação internacional, e a autodeterminação. Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte entendem que o seu futuro é dentro da União Europeia, com os dois primeiros na qualidade de novos membros e o último enquanto parte integrante da República da Irlanda (que já é um Estado-membro).
Carta de Andy Burnham a PM escocês tenta evitar problema por agora
O primeiro-ministro do Reino Unido enviou uma carta na quinta-feira ao homólogo escocês, com Burnham a avisar Swinney que um eventual referendo para a independência da Escócia estava fora da equação no curto prazo, ao notar que a questão não se irá colocar nesta legislatura (que apenas termina em 2029).
https://twitter.com/Telegraph/status/2099023264123162643
“Não existe consenso para um referendo sobre a independência na Escócia, nem há uma base clara que sugira que a maioria da população da Irlanda do Norte deseje, neste momento, separar-se do Reino Unido”, lê-se na missiva enviada, continuando: “O manifesto de 2024, com base no qual o Partido Trabalhista garantiu a sua maioria parlamentar, foi inequívoco: ‘O Partido Trabalhista não apoia a independência nem outro referendo’”.
Andy Burnham lembrou ainda um recente encontro em Glasgow com John Swinney, no qual asseverou que a independência não fazia sentido neste momento, porque isso “desviaria a atenção do crescimento da economia e do apoio às famílias face ao custo de vida”.