“Roland Garros, 2026: Bonzi, 95.º; Machac, 43.º; Halys, 90.º; De Jong, 106.º; Jódar, 29.º; Mensik, 27.º. Wimbledon, 2026: Blockx, 36.º; Royer, 75.º; Giron, 92.º; Lehecka, 14.º; Taylor Fritz, 7.º; Fery, 114.º. US Open, 2026: Sonego, 89.º; Halys, 52.º; Tabilo, 28.º; Darderi, 22.º; Botic van de Zandschulp, 70.º; Karen Khachanov, 50.º. Só um top 10 e um top 20 nos últimos três Grand Slams para fechar às três finais”. Este foi um tweet que circulou este sábado, na “ressaca” das meias-finais do US Open. No entanto, esta é apenas uma versão reduzida, simplista e minimalista do caminho de Alexander Zverev este ano nos Majors. Facto: se no Open da Austrália Carlos Alcaraz foi mais forte nas meias-finais, o alemão conseguiu aproveitar todo o contexto que se criou em Roland Garros para alcançar o primeiro triunfo diante de Fabio Cobolli e voltou a uma decisão em Wimbledon que acabou por cair em quatro sets para Jannik Sinner. Sobrou o mérito.
https://twitter.com/JeuSetMaths/status/2099169863168131181
Olhando para a última década, o ténis foi dominado por Três Mosqueteiros que mudaram toda a história da modalidade chamados Roger Federer, Rafa Nadal e Novak Djokovic (com um quarto elemento chamado Andy Murray, acrescente-se) até ao aparecimento de uma nova geração que tem Jannik Sinner e Carlos Alcaraz pelo meio. À exceção dos US Open de 2019 e 2020, ganhos por Daniil Medvedev (numa final em que foi muito superior a Djokovic) e Dominic Thien (contra Alexander Zverev), todos os 40 triunfos em disputa foram divididos entre velha e nova geração. Foi aqui que houve um erro de perceção: entre uma e outra nunca deixaram de estar jogadores como Zverev e Medvedev. E enquanto se iam procurando candidatos para se juntarem a Sinner e Alcaraz entre nomes mais novos, o germânico foi aproveitando para fazer história.
https://twitter.com/Tiempodetenis1/status/2098828447241932921
A forma como conseguiu chegar à terceira final consecutiva, com adversários de ranking maior ou menor, foi um exemplo paradigmático do que mudou no jogo de Alexander Zverev: ganhar Roland Garros foi quase um desbloqueador de um caminho que parecia há muito traçado por destino. Um bom exemplo disso mesmo foi o terceiro e último set das meias-finais frente a Khachanov, com o russo a ter dois pontos para fechar o tie break antes da reviravolta do germânico que fechou a partida. Agora, teria pela frente mais um top 10. Partia com um ligeiro favoritismo mas defrontava um top 10. E não era um top 10 qualquer.
https://twitter.com/KalshiTen/status/2099154889062371685
Quando venceu Carlos Alcaraz em cinco sets naquela que foi a grande surpresa do torneio, Ben Shelton teve também o condão de encontrar o seu desbloqueador em Grand Slams: chegou pela primeira vez às meias-finais, encheu o peito de confiança que fez toda a diferença no jogo seguinte diante do compatriota Frances Tiafoe e tinha agora a possibilidade de quebrar um longo jejum de triunfos norte-americanos em Majors. Era quase obrigatório chegar a um cenário como este, tendo em conta que 25% do top 20 mundial tem jogadores do país, mas a decisão era diferente daquela que teve Taylor Fritz em 2024 frente a Jannik Sinner: havia mais hipóteses de sucesso em Nova Iorque do jogador da casa do que houve antes frente ao italiano.
https://twitter.com/JeuSetMaths/status/2097589312111919450
https://twitter.com/TheTennisLetter/status/2098609317410906166
Estava bem mais do que um torneio em jogo. Ben Shelton, filho do também tenista Bryan Shelton, tornara-se o primeiro tenista norte-americano de sempre a chegar a uma decisão de Grand Slam depois de Arthur Ashe (1972), sendo também o primeiro a chegar à final de um Major desde 2008 (Jo-Wilfried Tsonga, Austrália em 2008). Mais: queria quebrar um jejum de troféus no US Open, que já vinha desde Andy Roddick em 2003. “Ben Shelton vai enfrentar um encontro com o seu destino”, escrevia o The Guardian, num dia de domingo em que todas as atenções estavam centradas no jogador de 23 anos visto como o outsider da decisão. E havia uma outra estatística interessante: podia ser apenas o terceiro ano a contar com quatro vencedores diferentes no Grand Slam, depois de 2012 (Djokovic, Nadal, Federer e Murray) e 2014 (Wawrinka, Nadal, Djokovic e Marian Cilic). Agora havia Carlos Alcaraz, Alexander Zverev e Jannik Sinner… para já.
https://twitter.com/JeuSetMaths/status/2099055909699805276
“É muita emoção. A minha mãe e o meu pai sacrificaram muito para eu estar hoje nesta posição. O meu pai perdeu a mãe dele no início deste ano. Foi por causa dela que ele pôde jogar ténis. Sem ela, não haveria um Ben Shelton aqui hoje. Esta é para ela”, comentou o jogador após bater o “irmão mais velho” Frances Tiafoe, num encontro onde “a compostura e capacidade de resolução de problemas se mostraram ser tão essenciais para o seu jogo como o extraordinário atleticismo”, como destacava a The New Yorker. E o nome de Jaime Faria apareceu pelo meio, à boleia de uma história contada pelo US Open: o pai, Bryan Shelton, ligou a Rafa Nadal depois do triunfo do português frente ao canhoto em Cincinnati, que ganhara antes o Masters de Montreal: “Disse-me algo como ‘Precisas de conseguir superar esta primeira partida, descansar um pouco e voltar a jogar o teu melhor ténis na semana seguinte’. Foi uma lição para o Ben: é preciso saber recuperar quando as coisas boas acontecem, tal como é preciso recuperar quando as adversidades surgem”.
https://twitter.com/BenRaby31/status/2099163216773251280
“O talento de Ben Shelton para o ténis fez dele um forte candidato ao título. Para se tornar um campeão, ainda tem muito para mostrar”, dizia o The Athletic. “No US Open, Ben Shelton faz a América voltar a acreditar”, salientava a Time. Todos os holofotes estavam focados no jovem jogador da casa que nunca tinha sequer chegado a uma meia-final de Grand Slam mas que se tornava a grande esperança de um país.
https://twitter.com/usopen/status/2099266112193957992
https://twitter.com/usopen/status/2099264457570488500
Esse peso extra acabou por sentir-se no arranque da partida. Mais: foi mais de meio caminho andado para decidir o primeiro set. Depois de um 0-30 a abrir, Ben Shelton ainda chegou ao 30-30 mas acabou mesmo por sofrer o break no primeiro encontro de serviço, deixando Alexander Zverev numa zona de conforto para gerir essa vantagem inicial. O norte-americano ainda conseguiu em três ocasiões chegar ao 30-30 em jogos de serviço do alemão, o que dava um enorme alento às muitas estrelas de Hollywood presentes nas bancadas, mas Zverev foi conseguindo sempre encontrar respostas para segurar o seu serviço e fazer ainda mais um break na nona partida, fechando o primeiro parcial com um 6-3 menos nivelado do que se esperava. Shelton fechou com mais ases, Zverev dominou em três aspetos que fizeram toda a diferença: 94% de pontos ganhos no primeiro serviço, apenas nove erros não forçados e 100% de eficácia nos dois pontos de break.
https://twitter.com/usopen/status/2099212148291289519
Se o norte-americano tinha uma montanha para escalar, agora as dificuldades eram muito maiores. Zverev percebeu o contexto favorável que enfrentava e, entre aquele bater de bola longo antes de cada serviço que ia provocando uns ataques de nervos de vez em quando, continuou a agarrar-se aos seus jogos tentando depois desequilibrar quando Shelton servia. Teve um ponto de break não convertido na quarta partida, teve de passar pelas vantagens no sétimo jogo, levou o adversário às vantagens no 12.º encontro e tudo acabou por ser resolvido no tie break com a particularidade de nem aí ter sofrido qualquer mini break (7-2). Shelton somou o dobro de erros não forçados (18-9), Zverev continuou acima dos 90% nos pontos no primeiro serviço e a final estava cada vez mais encaminhada para o jogador mais experiente na final.
https://twitter.com/usopen/status/2099229658164125800
A possibilidade de haver um norte-americano a ganhar um Grand Slam no US Open 8.407 dias depois era cada vez mais uma miragem mas Ben Shelton recusava desistir. A postura quando voltou dos balneários de ténis na mão antes do terceiro set continuava tensa mas o jovem jogador sabia que tinha pouco ou nada a perder a partir dali. O primeiro jogo ainda passou por um sempre perigoso 30-30, a partir daí os encontros de serviço foram bem mais tranquilos, houve mesmo o primeiro ponto de break no serviço do alemão que acabou por não ser convertido. A decisão passava a ter muito mais Shelton em campo, havendo quase um contágio por osmose com as bancadas que começavam também a entrar mais a sério no jogo. Foi aí que, quando todos esperavam pelo tie break, o norte-americano chegou ao 0-40 e conseguiu finalmente quebrar um serviço de Zverev com um erro do jogador germânico numa bola à rede que parecia fácil (7-5).
https://twitter.com/usopen/status/2099245171342758156
Shelton levantava a cabeça para o jogo, Shelton levava demasiado os pés fora da terra – e Zverev, mesmo vindo do pior jogo de serviço na final, não perdoou, fazendo logo a abrir o break para deixar o norte-americano sob pressão e “travar” um público que estava cada vez mais empolgado. Aí, mesmo sendo o início do quarto parcial, foi o fim. Com mais de dez erros não forçados contra apenas um do adversário, Shelton afundou-se na partida, não conseguiu colocar os mesmos problemas no serviço de Zverev e permitiu um novo break na sétima partida. Antes da decisão, o alemão dizia que ia procurar seguir o guião para acabar com o American Dream que se estava a desenhar. Procurou, conseguiu. E o segundo Grand Slam da carreira chegou com um triunfo por 6-2 no quarto set frente a um Shelton sem argumentos para contrariar a lógica.
https://twitter.com/usopen/status/2099256168342257762
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