Várias ideias, uma palavra em comum: processo. O léxico futebolês ganhou um novo termo querido sempre que se quer falar de algo que está num momento de construção – se estiver a correr bem, aquilo que se quer é consolidar e melhorar o processo; se os resultados não estiverem a aparecer, diz-se que é preciso acreditar e confiar no processo. “O” processo, sempre. E era aí também que entroncava o atual momento do Benfica, a uma semana da primeira paragem para compromissos das seleções e no ciclo competitivo mais duro até ao momento, não só pela receção ao Gil Vicente (que levava sete pontos em quatro jogos com apenas um golo sofrido) mas também pelas deslocações a San Siro para a Liga Europa e ao Dragão para o Campeonato.
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O “processo” estava a ser consolidado, o “processo” tinha de ser melhorado. Numa primeira instância, a ideia passou por montar um ataque que permitisse superar as barreiras tendencialmente mais baixas de equipas com menos argumentos. Para isso, houve muito trabalho a nível de dinâmicas ofensivas, as melhores opções para aproveitar ao máximo as características de Vangelis Pavlidis na frente (não foi por acaso que teve um arranque com mais golos do que nas épocas anteriores) e a colocação de Prestianni em posições onde pode render mais, entre a esquerda e o meio, com Rafa a descair sobre a direita sem que o rendimento baixasse. Objetivo cumprido. Depois, as questões defensivas. Mais do que uma maior rotina de Lenglet com Tomás Araújo ou de Samuel Soares com a linha recuada, a entrada de João Palhinha trouxe o poder nas transições que faltava para esconder algumas debilidades que iam sendo exploradas. Com o Moreirense, Marco Silva deu mais um passo na sistematização das opções iniciais, fazendo coabitar Prestianni e Schjelderup.
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“Prestianni na seleção? Terão de perguntar ao selecionador ou esperar pela convocatória, está fora do meu controlo. Ter os jogadores nas seleções é um motivo de orgulho, embora fiquemos sem eles. O Prestianni tem trabalhado muito nos treinos e isso tem permitido expressar o seu melhor futebol, tem compromisso”, frisou na antecâmara do encontro com os minhotos, onde confirmou a ausência de Bah sem que isso alterasse as dinâmicas da equipa. “O Prestianni jogou por dentro, como já tinha dito que podia acontecer. É um jogador que está num grande momento. Jogou mais pela direita, agora mais pela esquerda, mas sabia que podia jogar no meio. Teve várias permutas com o Andreas [Schjelderup] e fiquei muito satisfeito. Palhinha? Não é uma aposta pessoal minha, é uma aposta do Benfica”, explicou também o técnico dos encarnados.
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“A equipa tem muito a melhorar. Dei os parabéns à equipa no último jogo, em mais um relvado difícil, e fizemos uma exibição acutilante. No fim do jogo dei-lhes os parabéns e disse-lhes que fiquei muito satisfeito com a reação à perda da bola. Os nossos avançados são os primeiros a pressionar. Mas temos batalhas muito duras por vir. O Echeverri ainda tem muita coisa para perceber, o Soffian [El Karouani] dei-lhe alguns minutos no último jogo. Há muito ainda por melhorar e dinâmicas e isso só é possível com a mente aberta. Se olharem para a linha defensiva do ano passado, houve um jogador que terminou contrato, outros foram vendidos. Estamos ainda no princípio de setembro e há ainda um longo caminho”, resumiu.
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Era neste contexto de crescimento que chegava a receção ao conjunto de Barcelos, depois de uma série de quatro vitórias seguidas no Campeonato e seis contando com provas europeias sempre com muitos golos (e oportunidades criadas) e sem sofrer nos dois últimos encontros como visitante na Madeira e em Moreira de Cónegos. “O Gil Vicente é um adversário com qualidade mas que não vem de um bom resultado. Começou bem a época, explora os corredores e as situações de 1×1. A qualidade virá se mantivermos os nossos princípios mas também há um adversário do outro lado que nos conhece. Fala-se muito do jogar bem e jogar mal mas não há equipa que possa ganhar se não for competente em todos os momentos do jogo, não há volta a dar. Se não formos capazes de reagir quando perdemos a bola, vamos ter dissabores. Tivemos um empate com dois erros perfeitamente evitáveis”, recordou Marco Silva, sobre a receção ao Ac. Viseu.
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Apesar dos alertas, o Benfica acabou por enfrentar o duelo mais complicado na Luz esta temporada frente a um Gil Vicente que foi eficaz nas ações ofensivas (duas oportunidades, um golo, a possibilidade de fazer outro nos descontos com Samuel Soares a brilhar) e que montou uma teia defensiva que deu pouco ou nada aos encarnados. Rafa passou ao lado do jogo, Schjelderup foi tentando sem consequências práticas, Pavlidis esteve sempre ao serviço da equipa mas bateu nos centrais contrários. A entrada de Echeverri mexeu com o encontro mas seria o suspeito do costume a decidir a partida nos instantes finais com um remate à trave que originou o penálti da reviravolta e o 3-1 final em mais uma jogada de antologia. Apesar de estar fisicamente de rastos, como se viu nas dificuldades musculares que sentiu após marcar, Prestianni voltou a recusar desistir e voltou também a dar uma vitória à equipa que nunca desistiu dele apesar da última época.
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Ficha de jogo
Benfica-Gil Vicente, 3-1
6.ª jornada da Primeira Liga
Estádio da Luz, em Lisboa
Árbitro: João Gonçalves (AF Porto)
Benfica: Samuel Soares; Banjaqui (Jhon Durán, 81′), Tomás Araújo, Lenglet, Dahl; Enzo Barrenechea (João Palhinha, 58′), Leandro Barreiro (Aursnes, 58′); Rafa (Echeverri, 72′), Prestianni, Schjelderup (Lukebakio, 72′) e Pavlidis
Suplentes não utilizados: Trubin, Circati, Sudakov, Kaminski, Manu Silva, El Karouani e Anísio Cabral
Treinador: Marco Silva
Gil Vicente: Lucão; Ricardo Esgaio, Elimbi (Espigares, 88′), Buatu, David Moreira (José Silva, 81′); Zé Carlos, Lausen; Murilo Costa, Gil Martins (Touré, 81′), Agustín Moreira (Santi Garcia, 56′) e Héctor Hernández (Mohamed Kaba, 56′)
Suplentes não utilizados: Samuel Portugal, Joelson Fernandes, Sergio Lillo, Guilherme Gomes, Manuel Teixeira, Martin Benitez e Gonçalo Maia
Treinador: Luís Pinto
Golos: Héctor Hernández (7′), Pavlidis (29′ e 87′, g.p.) e Prestianni (90+3′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Enzo Barrenechea (12′), Héctor Hernández (26′), João Palhinha (63′), Lucão (70′) e Ricardo Esgaio (90+5′)
Respeitando uma matriz de jogo que não funcionou nos dois últimos encontros mas que define bem a forma de jogar, o Gil Vicente entrou apostado em tirar todos os espaços entre linhas e nos corredores laterais para os desequilibradores encarnados fazerem a diferença mas sem nunca tirar o foco das transições ofensivas. Mais: apesar de estar a defender com linhas baixas, os minhotos conseguiam com os primeiros três/quatro passes saltar a pressão dos visitados para depois lançarem as unidades mais rápidas na frente. Na primeira vez em que isso saiu bem, o marcador funcionou: Héctor Hernández recebeu no meio dos centrais, percebeu a saída rápida de Samuel Soares e atirou rasteiro para o 1-0 no primeiro remate que fez no jogo depois de ter tentado por 11 vezes sem efeito marcar na última partida diante do Ac. Viseu em Barcelos (7′).
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Aquilo que podia tornar-se um encontro “facilitado”, como acontecera com Marítimo e Moreirense, tinha uma dose extra de dificuldades pela vantagem do Gil Vicente e pela forma como os visitantes iam colocando a equipa sem bola para tirar todos os espaços às unidades desequilibradoras do Benfica. Assim, e até aos 25′ de jogo, os encarnados tiveram apenas uma tentativa de cabeça de Leandro Barreiro numa desmarcação de rutura de trás para a frente (8′) e um desvio na área de Pavlidis que saiu por cima depois de uma insistência na direita de Prestianni (20′). A forma como os gilistas conseguiam defender continuava a resultar mas a importância das segundas bolas aumentava, como aconteceu no golo do empate na Luz: Buatu cortou na área, Pavlidis ganhou o ressalto que enganou tudo e todos e só teve de picar por cima de Lucão (29′).
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O grego ainda foi buscar a bola à baliza, esperou depois para que João Gonçalves confirmasse a legalidade do golo e queria recomeçar de imediato a partida. Não foi isso que aconteceu, com a paragem para hidratação a funcionar como um desconto de tempo para Luís Pinto serenar ânimos e reorganizar tropas depois do golo sofrido. Foi isso que ajudou o Gil Vicente a ter os maiores tempos em posse da primeira parte até ao intervalo, o que permitia que a equipa respirasse de outra forma e sacudisse os momentos de maior pressão de um Benfica que não teve a possibilidade de trabalhar em cima do golo de Pavlidis para chegar ao intervalo em vantagem no marcador. Schjelderup ainda teve uma jogada individual na esquerda 1×1 contra Ricardo Esgaio com um remate que saiu sem perigo (38′) mas o descanso chegaria mesmo com tudo empatado.
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Sem fazer alterações na equipa, Marco Silva teria de desbravar novos caminhos para entrar num último terço especialmente carregado do Gil Vicente – com essa capacidade de levar bola até ao último terço contrário que deixava os encarnados com especial atenção às transições defensivas. A projeção dos laterais era uma das soluções, tentando uma maior largura de jogo mas com jogo interior pelas movimentações de Schjelderup e Rafa, o posicionamento de Enzo Barrenechea mais próximo de Prestianni permitia atrair mais um médio dos minhotos a si para aumentar o raio de ação do compatriota argentino, as saídas rápidas quando os visitantes tentassem algo mais na frente e ficassem descompensados também funcionavam como “arma”. Uma coisa era certa: pela primeira vez esta época, havia uma equipa capaz de criar problemas ofensivos ao Benfica.
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No entanto, e quando se esperava uma daquelas entradas arrasadoras a não deixar respirar os gilistas, os primeiros dez minutos foram cumpridos sem oportunidades ou remates com perigo, havendo só uma grande “manifestação” na Luz quando voltaram a surgir várias tochas na zona da claque No Name Boys. Sem outras respostas face ao que se tinha passado no primeiro tempo, os dois treinadores começaram a mexer nas suas equipas: Luís Pinto tirou Héctor Hernández e Agustín Moreira para refrescar o ataque e dar outro poder de fogo ao meio-campo, Marco Silva fez duas trocas diretas com João Palhinha e Aursnes nos lugares de Enzo Barrenechea e Leandro Barreiro. Os minutos passavam e o único lance de perigo acabou por atrair o azar dentro da sorte: Schjelderup tentou um cruzamento da esquerda, a bola sofreu um desvio em Dahl e bate ainda na parte de cima da trave, saindo depois sem mais perigo pelo corredor lateral contrário (62′).
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Pavlidis ainda teve uma grande oportunidade que nasceu de um corte de Buatu, ficando isolado na área sobre o lado direito para defesa de Lucão (68′), Schjelderup atirou de livre direto mais na esquerda por cima (70′) e Marco Silva não demorou para mexer de novo na equipa, lançando Lukebakio e Echeverri para as posições de Rafa e Schjelderup (72′) pouco antes de uma nova paragem para hidratação no jogo que voltava a funcionar como um desconto de tempo para os treinadores. Jhon Durán também foi aposta no lugar de Banjaqui, com essa aposta no segundo avançado a dar margem para Echeverri mexer no encontro mas voltou a ser dos pés de Prestianni que saiu o momento que definiu a partida, neste caso de uma forma indireta: o argentino teve mais um lance em diagonal da esquerda para o meio, atirou em jeito ao poste contrário, a bola bateu na trave mas Touré teve uma entrada precipitada sobre Aursnes que deu a Pavlidis a possibilidade de carimbar a reviravolta de penálti (87′) antes de Samuel Soares fazer a “mancha” com Lausen isolado na área (90+2′) e Prestianni fechar as contas com mais um golo de antologia numa jogada individual (90+3′).
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