Depois de figuras como Pedro Delgado, Miguel Indurain, Roberto Heras ou Alberto Contador, para falar só dos corredores com mais triunfos em Grandes Voltas de diferentes gerações, o ciclismo espanhol foi tendo um período do “quase”. Houve alguns triunfos em etapas, houve classificações positivas que valeram pódio, vitórias na classificação geral nem vê-las. A última tinha sido ainda por Contador há mais de uma década, quando venceu o Giro de 2015 – e um ano antes conquistada a Vuelta. Agora, estava tudo preparado para a grande consagração. E a antecâmara desse tão aguardado dia acabou por ser um hino à Espanha.
https://observador.pt/2026/08/29/o-dia-mais-aborrecido-tambem-e-capaz-de-mexer-com-uma-vuelta-e-de-que-maneira-pogacar-despede-se-da-vuelta-apos-queda-aparatosa/
Tudo começou na subida ao Collado del Alguacil, a última grande montanha desta Vuelta que traria também a derradeira oportunidade de Primoz Roglic ou Felix Gall arriscarem o impossível. Nada aconteceu. Pelo contrário, tudo aconteceu: Mikel Landa vingou-se de todos os azares dos últimos anos naquela que pode ser a sua última Grande Volta da carreira e venceu a etapa, Enric Mas mostrou que está mais forte do que toda a concorrência e até aumentou a margem de vantagem sobre os adversários diretos. Mas não ficou por aqui: no Memorial Marco Pantani, Ion Izagirre, que está somente a duas semanas de terminar a carreira, conseguiu aquele que pode ter sido o derradeiro triunfo, fechando com chave de ouro um “dia espanhol”.
https://twitter.com/cyclingontnt/status/2098789213764280323
“Sonhava com esta vitória. Era a última oportunidade de ganhar uma etapa. Pensei nos meus filhos e que não podia voltar a casa enquanto um desistente. Se algum dia eles virem isto espero que saibam que nunca devem desistir. A equipa confiou em mim e apoiou-me durante toda a Volta a Espanha. Choro pela m**** de ano que tive, ou neste caso os últimos anos. Sofri muito. Agradeço a todos os que me apoiaram durante estes dias. Sinto-me em dívida para com eles. Hoje não ganhei sozinho”, comentou no final da 20.ª etapa Mikel Landa, que corre pela Soudal Quick-Step mas vai mudar-se para a Euskaltel-Euskadi.
https://observador.pt/2026/09/12/o-landismo-resiste-a-rainha-mesmo-que-haja-um-mas-como-rei-landa-vence-cinco-anos-depois-e-apadrinha-regresso-de-espanha-ao-topo-da-vuelta/
“É a primeira vez na minha vida que me sinto assim. Inacreditável! São emoções novas para mim. Não sei o que dizer, obrigado à equipa, à minha família, aos meus amigos e aos adeptos. Com as pernas que tínhamos, vi-me como vencedor da Vuelta desde o início da etapa. Se não houvesse nenhum infortúnio e tudo corresse como planeado, sabia que seria assim e fui acreditando cada vez mais e descontando os quilómetros. Mais uma vez, a equipa esteve impecável. Se analisarmos todos os dias em que ganhei tempo, ou quase todos, foi graças a eles. A equipa fez um grande trabalho e ganhei graças à equipa”, destacou também Enric Mas, numa espécie de discurso de vitória antecipado antes da derradeira etapa em Granada… com polémica.
https://observador.pt/2026/09/12/a-vuelta-e-mesmo-mas-como-enric-chegou-ao-dia-menos-esperado-depois-de-celebrar-cada-segundo-em-busca-de-um-lugar-na-historia/
Os últimos 112 quilómetros da Vuelta teriam passagens por La Zubía, Gójar, Otura, Cúllar Vega e Santa Fe antes da chegada a um circuito final com três passagens a subir por La Alhambra, com pendentes até 10%. O traçado não é o mais habitual para fechar a competição, que por norma tem um dia de consagração na capital Madrid (que recebeu este domingo o Grande Prémio de Fórmula 1 45 anos depois) mas prometia no mínimo mais emoção. Demasiada emoção. E foi aqui que os corredores se chegaram à frente, pedindo para que os tempos fossem neutralizados antes da parte de circuito num troço técnico e com alguns perigos. “Isto não é nenhum circo”, dizia Sander De Pestel, da Decathlon. Também sou fã de espectáculo mas pode ser na mesma uma grande etapa se neutralizassem os tempos como fizeram no Tour”, acrescentou o corredor.
https://twitter.com/lavuelta/status/2098841241337070041
https://twitter.com/lavuelta/status/2099041120789361102
A primeira resposta a essa reivindicação que partiu de uma larga maioria das equipas foi negativa, com a Unipublic, que organiza a Vuelta, a dizer que não fazia parte dos seus planos alterar regras que já estavam antes definidas. No entanto, equipas e corredores não quiseram ficar por aí, ameaçando outro tipo de ações ou protestos. Na manhã deste domingo, a dúvida permanecia mas a tensão continuava no ar. Não foi à primeira, foi à segunda. “A Vuelta decidiu neutralizar os tempos da classificação geral individual da 21.ª etapa no último troço a 9,8 quilómetros da meta. Não haverá bonificações na meta, os pontos da classificação dos pontos serão na mesma entregues na linha da meta”, anunciou a organização antes do início da etapa. O braço-de-ferro acabou por ficar a meio caminho, tendo em conta que só a última passagem não iria contar.
https://twitter.com/lavuelta/status/2099152526780117300
https://twitter.com/lavuelta/status/2099155563699384437
Com destaques individuais além do óbvio, como aqueles que foram dados aos cinco corredores que estavam a fazer a última etapa de uma Grande Volta (Jesús Herrada da Burgos, Pello Bilbao da Bahrain, David de la Cruz da Pinarello-Q36.5, Steven Kruijswijk da Visma-Lease a Bike e Magnus Cort da Uno-X), a etapa foi mesmo um palco de consagração para todos os vencedores, com milhares de pessoas nas estradas a aplaudir um pelotão que estava claramente desgastado por três semanas de competição que tiveram etapas anuladas pela queda de granizo, outras encurtadas na parte final pelo calor e a queda de Tadej Pogacar pelo meio. Espectáculo, só mesmo no troço de circuito de Granada, com um ritmo e um ambiente descontraídos.
https://twitter.com/lavuelta/status/2099145983791624593
Até à chegada a Granada, houve um média inferior a 30 quilómetros/hora que mostrava bem o ambiente que se vivia num pelotão que ainda não estava convencido a 100% da decisão da Vuelta sobre a parte final desta etapa. Só mesmo nessa fase a corrida começou a mexer, com as subidas a causarem mossa e a fazerem cortes que deixavam vários potenciais vencedores para trás. Finn Fisher-Black, Matthew Brennan, Léo Bisiaux, Axel Laurance, Milan Vader, Matez Govekar, Thibau Nys, Bastien Tronchon, Valentin Paret-Peintre e Alessandro Romele conseguiram formar um grupo de fuga, todos os principais candidatos deixaram-se ficar a par de Enric Mas, que era quase “escudado” pela Movistar para garantir que a vitória já estava “selada”.
Com a passagem para os últimos dez quilómetros, a festa estava finalmente pronta a rebentar. A etapa ainda estava em aberto com vários elementos na luta pela vitória (que não Wout van Aert, que acabou também por ceder quando queria acompanhar Matthew Brennan), a Movistar começava a soltar os primeiros foguetes a par do próprio ciclismo espanhol. No entanto, havia uma outra “vingança” prestes a surgir: Tobias Halland Johannessen, que tantas vezes andou à procura de uma vitória no World Tour sempre a ficar em segundo ou em terceiro, resistiu ao ataque de Alessandro Romele nos derradeiros metros e fechou a Vuelta a ganhar.