O júri presidido por Maggie Gyllenhaal atribuiu esta noite, em Veneza, o Leão de Ouro da 83.ª edição do festival a Woman Unknown, de May el-Thoukhy. Surpresa? Dir-se-ia outra coisa: uma resposta elegante, à altura. Quando a Mostra apresentou os 20 seleccionados ao prémio máximo (Naza, de Yval Abraham e Rachel Szor, só mais tarde foi acrescido ao lote), esta era a única obra realizada por uma mulher. Afinal, 5% de hipóteses bastaram — e quem levou a melhor foi a cineasta dinamarquesa de origem egípcia.
Deixemos de lado as diferenças de género, pois Woman Unknown não precisa delas e bateu-se de igual para igual com a concorrência. O filme acompanha o destino de Marie (Mathilde Arcel), uma babysitter na Copenhaga do imediato pós-II Guerra Mundial, quando o país se livra finalmente do jugo nazi. A liberdade traz-lhe fortuna, já que é pedida em casamento pelo abastado viúvo que serviu como empregada. Só que Marie tem um segredo que lhe pode trazer desgraça. Durante a guerra, dormiu com o inimigo. Envolveu-se com um soldado alemão — e há quem recorde a infâmia. Vive agora com medo de ser denunciada. Este filme sólido valeu também uma recompensa na categoria de interpretação feminina à actriz dinamarquesa de 30 anos, Mathilde Arcel, desconhecida de quase todos nós. Emocionou-se no palco ao receber o prémio. A partir desta noite, tem uma Taça Volpi.

Possible Love ficou com a “medalha de prata” do festival, o Grande Prémio do Júri. É uma radiografia subtilíssima dos comportamentos familiares de hoje em dia e da influência do dinheiro nas nossas vidas, cruzando dois casais desiguais a nível financeiro. Uma recompensa justa para o sul-coreano Lee Chang-dong, que já fez melhor mas, ainda assim, mostrou filme suficiente para chegar onde chegou.
Surpreendente, sim, pois ninguém diria que o júri teria tal ousadia, foi o prémio de realização atribuído ao russo Ilya Khrzhanovsky por DAU, cineasta que renunciou à cidadania do seu país quando começou a guerra na Ucrânia. Ao povo ucraniano, dedicou ele este épico invulgar, mesclado de filme biográfico sobre Lev Landau (1908-1968), o “pai da bomba atómica soviética” que estudou e viveu, desde os anos 30, em Kharkiv, cidade que continua a resistir à ocupação. Também aqui houve resposta à altura: o Governo ucraniano opôs-se à exibição da obra em Veneza ainda antes desta ser exibida.

A presença no palmarés de Un bon petit soldat, de Stéphane Brizé (é o seu melhor argumento e, porventura, o seu melhor filme até à data) e de 15/18, de Cédric Kahn (premiado pela actuação de uma das suas actrizes, Malou Khebizi), legitima a forte presença que a França levou este ano ao Lido. Longe de Veneza, enviou John Malkovich um vídeo simpático de agradecimento pelo prémio que distinguiu o seu trabalho em Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, que a partir de agora ficará certamente a caminho dos Óscares.
O caso de Naza, nos telhados de Telavive: outro filme premiado
Naza é uma reportagem com entrevistas a 24 israelitas que pertenceram, ou ainda fazem parte (não sabemos ao certo), da actividade recente das IDF. Os rostos dos entrevistados não estão visíveis, escondidos como sombras chinesas. As suas vozes foram digitalmente alteradas para impedir o reconhecimento. Realizaram Yval Abraham e Rachel Szor, a “metade israelita” do oscarizado documentário No Other Land (filme de 2024 sobre a ocupação israelita da Cisjordânia, assinado por quatro cineastas, com outra dupla de origem palestiniana, Basel Adra e Hamdan Ballal).
Naza intercala estes momentos com algumas imagens de arquivo das forças armadas de Israel e de Gaza nos anos 70. Noutro momento, lá mais para a frente, é focado um tributo prestado pela Cinemateca de Telavive a Claude Lanzmann (o autor de Shoah, 1985). Yval Abraham e Rachel Szor sugerem então à audiência que existe um paralelo entre o Holocausto e os massacres em Gaza posteriores ao 7 de Outubro. O título do filme é um acrónimo militar hebraico, utilizado pelos serviços de informação e forças armadas israelitas, para estimar o número de vítimas civis (os “danos colaterais”) previstos para cada ataque aéreo.

Pela voz (alterada) dos entrevistados, que por vezes também confessam o seu arrependimento pessoal, Naza, enquanto documentário de reportagem (foi produzido pelo jornal britânico The Guardian), mostra o trabalho de bastidores, rigoroso e sistemático, que os massacres têm exigido, ora pelo controlo total, com recurso à IA, das redes telefónicas em Gaza, permitindo às IDF calcular matematicamente a localização de um alvo inimigo do Hamas e a probabilidade de baixas causadas pela sua eliminação, ora pelo bombardeamento meticuloso, quarteirão a quarteirão, de bairros inteiros do enclave palestiniano, numa “terraplanagem” das infraestruturas que assim trava qualquer possibilidade de regresso futuro.
Não é a primeira vez que esta lógica de jogo de vídeo, em que a morte é calculada à distância, se impõe a qualquer factor civilizacional e humano. Os Estados Unidos normalizaram a metodologia na Guerra do Iraque e há imensos filmes sobre isso. Naza pretende agora demonstrar que a resposta israelita ao dia do seu maior desastre militar evoluiu para uma máquina de destruição em curso, com procedimentos planificados e o silêncio da sociedade israelita. É uma realidade horrenda. E a maior tragédia de tudo isto é que nem precisamos deste filme para sabermos que existe.
Naza acaba por expô-la desgraçadamente e sem decoro no seu último plano (um pai à procura dos filhos soterrados nos escombros), sem evitar o porno-miserabilismo e o sensacionalismo da tragédia. Nos telhados de Telavive, apesar de tudo, o que Yval Abraham e Rachel Szor querem salvar não são vidas, mas males profundos de consciência.
No ano passado, Veneza apresentou a concurso a história da agonia de uma criança palestiniana a partir da gravação do seu próprio relato, A Voz de Hind Rajab, um trabalho de dramatização exigente, interpretado por actores sem medo, e que acabou, inclusivamente, por ser premiado. Naza não tem nada que se lhe compare. Chegou ao palmarés mas é pobre a nível cinematográfico. A sua presença na competição do mais antigo festival de cinema do mundo, tornada um “acontecimento” desde a chamada imprevista e de última hora, não só é discutível como se torna hipócrita de parte a parte: dos seus autores, que aceitaram uma corrida pelo Leão de Ouro, ao próprio festival, que assim colheu louros da mediatização de um assunto controverso e incendiário. Naza não foi programado em Veneza no devido lugar. Deveria ter sido apresentado fora de competição.

Mais sentido faria ter levado a concurso Imperium, de Sergei Loznitsa. Ou as três partes do monumental Biografia de Jorge Luis Borges, do argentino Mariano Llinás, que merecerá tratamento aprofundado mais à frente, a condizer com os seus 330 minutos. O filme é extraordinário, não só pelo biografado mas pelo modo como o Llinás-narrador nos envolve no seu jogo, como se fosse personagem de um thriller da Guerra Fria. Ficamos presos a este labirinto, com umas ganas tremendas de reler todo o Borges que conhecemos e de descobrir tudo o que dele nos falta ler. Não tardará muito a descoberta desta obra em Portugal, haverá exibição única no próximo DocLisboa.
Não queremos acabar sem uma menção a outro filme muito longo, a começar pelo seu título, o maior de todos os que Veneza exibiu este ano: Joie de Vivre. Notes, thoughts, words, reflections, faces, visions, around Bernardo Bertolucci and the cinephilia of the 20th century that is no more.
É ainda maior: 7 horas e 25 minutos. Um documentário de Luca Guadagnino sobre Bernardo Bertolucci — e quanto mais se conhece o cineasta, mais apaixonante se torna. Surpreendeu a abordagem nada ortodoxa de Guadagnino, que não tem propriamente o mais pequeno dos egos. O resultado é tão caótico como empolgante.

Deixemos um exemplo: logo a abrir, Luca confessa-nos que nunca gostou, nem é agora que passará a gostar, de Beleza Roubada (1993). Revela-nos, sem pestanejar, este tipo de franquezas. Mas sobre os filmes de Bertolucci que ele realmente ama, naquele entrelaçado riquíssimo que vamos descobrindo entre a vida e a obra do cineasta de Parma, Joie de Vivre fascina. Podia ser mais económico e ter metade da sua duração? Podia. Mas Guadagnino quer passar tempo, sem pressas. Estabelece connosco esse pacto.
A primeira parte desenvolve-se a partir de Antes da Revolução (1964) e torna-se uma autêntica masterclass sobre O Conformista (1970), trespassando essa obra-prima pelos mais diversos pontos de vista. Na segunda parte, o foco principal são as transgressões de Novecento (1976) e La Luna (1979). Um filme a priori polémico como O Último Tango em Paris (1972) não tem a atenção dos citados, talvez por ter já exposição em demasia (pela celebérrima cena entre Marlon Brando e Maria Schneider) ou, quem sabe, por Guadagnino não gostar tanto dele.
O documentário também traz para a conversa Martin Scorsese, James Gray, David Cronenberg, o também cineasta e historiador escocês Mark Cousins, entre outros convidados, num ambiente informal. Guadagnino inquire, revolve, demora-se com prazer em detalhes, como o daquele sofá usado em La Luna que ele reconheceu depois no salão da casa de Bertolucci em Roma. Joie de Vivre acabará por chegar ao streaming, um destes dias. Foi um dos trunfos do festival.
VENEZA 2026 — Palmarés da 83ª edição:
LEÃO DE OURO
Woman Unknown, de May el-Thoukhy
(Dinamarca/Suécia/Letónia)
GRANDE PRÉMIO DO JÚRI (LEÃO DE PRATA)
Possible Love, de Lee Chang-dong
(Coreia do Sul)
https://observador.pt/2026/09/07/imperium-janela-aberta-para-um-pais-colonizador-e-desconhecido-a-uniao-sovietica/
MELHOR REALIZAÇÃO (LEÃO DE PRATA)
Ilya Khrzhanovsky por DAU
(Alemanha/França/Suécia)
https://observador.pt/2026/09/11/um-filme-intenso-sobre-o-mundo-do-trabalho-arrepiou-veneza-un-bon-petit-soldat/
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
Naza, de Yval Abraham e Rachel Szor (Reino Unido)
MELHOR ARGUMENTO
Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce por Un bon petit soldat, de Stéphane Brizé
(França)
MELHOR ACTOR (TAÇA VOLPI)
John Malkovich por Wild Horse Nine, de Martin McDonagh
(EUA/Reino Unido/Chile)
https://observador.pt/2026/09/04/nos-primeiros-filmes-a-concurso-em-veneza-ganha-a-panache-de-malkovich/
MELHOR ACTRIZ (TAÇA VOLPI)
Mathilde Arcel em Woman Unknown, de May el-Thoukhy
(Dinamarca/Suécia/Letónia)
PRÉMIO MARCELLO MASTROIANNI (MELHOR ACTOR OU ACTRIZ EMERGENTE)
Malou Khebizi em 15/18, de Cédric Kahn
(França)
https://observador.pt/2026/09/05/cedric-kahn-sobe-o-nivel-da-competicao-em-dia-de-graves-transtornos-psicologicos/
PRÉMIO LEÃO DO FUTURO (MELHOR PRIMEIRA OBRA)
La maison du vent, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu
(Camarões/França/Bélgica/Benin/Arábia Saudita/Qatar)
ORIZZONTI – MELHOR FILME
Un détour par Diane, de Ann Sirot e Raphaël Balboni
(Bélgica/França)
ORIZZONTI – MELHOR REALIZAÇÃO
Jacqueline Lentzou por A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra
(Grécia/Alemanha/França)
ORIZZONTI – PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
La maison du vent, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu
(Camarões/França/Bélgica/Benin/Arábia Saudita/Qatar)
ORIZZONTI – MELHOR ACTOR
Riccardo Scamarcio em I figli della scimmia, de Tommaso Landucci
(Itália)
ORIZZONTI – MELHOR ACTRIZ
Laleh Marzban em Fallen House, de Mohsen Gharaei
(Irão/EUA/Alemanha)
ORIZZONTI – MELHOR ARGUMENTO
I figli della scimmia, de Tommaso Landucci
(Itália)
O autor escreve segundo a antiga ortografia.