(c) 2023 am|dev

(A) :: (Es)tudo vale a pena, se a alma não é pequena

(Es)tudo vale a pena, se a alma não é pequena

Na universidade, ninguém nos manda estudar. Podemos fazer quase tudo. Até escolher não aprender. Deixo 4 ideias que aprendi quando passei da escola para a universidade. Bom estudo!

João Soares
text

“Estuda!” “Faz os trabalhos de casa!” “São horas de sair!” São frases que deixei de ouvir tão regularmente desde que entrei na faculdade há quase um ano. Este ano, outros tantos alunos, por esta altura estarão a passar pelo mesmo que passei. Independentemente da última vez que ouviram esses imperativos, um eco sobreviverá toda a vida universitária, mesmo que seja só no subconsciente.

Todos nós, estudantes e não só, precisamos de estudar. Acreditamos que precisamos, nem que seja um bocadinho, porque, se não, não estudávamos de todo. Porquê? Qual a razão para deitar tarde e cedo erguer na época de exames? De desperdiçar tanto tempo útil a olhar para resumos e livros? Maior parte, provavelmente todos, imagino, acreditam na necessidade de aprender para no futuro fazer de alguma tarefa seu emprego, a fim de ganhar dinheiro com que se sustentar. Mas sabemos muito bem que essa motivação nunca foi suficiente para estudar muito. Caso fosse, sair de casa para a faculdade não seria um problema. E, acredito, não haveria estudos de última hora, já há noite, ou mesmo à porta da sala do exame.

Ninguém na faculdade dá o máximo que podia. Ninguém! Por que haveríamos de dar? Sejamos sinceros, vale a pena faltar a festas e discotecas? Vale a pena acordar todos aqueles dias quando o sol ainda não nasceu? Vale a pena o dinheiro que se gasta na faculdade, quanto mais os custos de estar deslocado? Vale a pena pensar nos 8088 € que gasta anualmente o estado português com cada estudante universitário em Portugal?  Vale a pena olhar horas para o mesmo exercício em casa para não o conseguir resolver? E assistir às aulas daquele professor? E ir às teóricas?

Desculpem desiludir-vos, mas acho que vale imenso a pena. Contudo, permitam-me voltar um pouco atrás. Ainda me lembro dos primeiros dias na faculdade e das suas consequentes dinâmicas. Conhecer pessoas novas que escolheram o mesmo percurso que nós e com quem vamos sofrer os desafios do curso, a opção de ir ou não a algumas aulas, o aumentado tempo livre com o qual não sabemos se estudamos ou descansamos. Agora a responsabilidade de estudar aumentou bastante.

Para clarificar e defender o meu ponto quero sublinhar algumas ideias. No secundário tem-se bem mais tempo de aulas do que de estudo individual, especialmente em comparação com os horários da faculdade. Isso, acrescentado ao facto de podermos faltar a algumas horas de aulas, leva a uma obrigação de organizar o tempo de maneira inteligente. O estudo em casa agora deixa de ser opcional, se alguém quiser completar o curso. A situação complica-se quando parece que num só dia de aulas dão-nos mais informação do que numa semana inteira de secundário. Julgo que, entre outras, estas são algumas causas que levam à famosa discrepância entre notas de antes e depois da entrada na universidade.

Não pretendo desanimar ninguém. Nem assustar. Admito que o plano de estudo universitário exige muito mais esforço individual para brilhar. Tudo isto e muito mais é algo que todos os estudantes sentem ou vão sentir. Portanto, o que falta para conseguir aplicar este esforço são, naturalmente, motivações. Já ouvi dizer diversas vezes que “querer é poder” e, de facto, o primeiro passo para levar a cabo seja que projeto for é querê-lo. Por isso, digo: a grande maioria dos estudantes precisa é de motivação, porque é um trabalho que ainda exige esforço, além de não se receber algo visível (como dinheiro) em troca.

1. Ninguém estuda por nós

Primeiramente, algo que é dever cívico ter em conta é que o estudante pode ajudar a mudar o mundo. O quê, um jovem pode mudar o mundo a ler aquela bibliografia que mais ninguém leu? Pois, certamente, mas convém destacar o “pode”.  Ou seja, o estudante é um excelente profissional em potência. Contudo, cabe a ele decidir se o vai ser ou não. Com isto não digo que o estudo é tudo, mas certamente é muito importante.

Conseguir arranjar um emprego é uma necessidade fundamental. Contudo, a meu ver, existem duas maneiras principais de encarar o trabalho profissional: unicamente como fonte de rendimento ou, como gosto de pensar, também como meio de fazermos a nossa parte na sociedade. E aí, distinguem-se aqueles que têm mais conhecimento, ferramenta essencial para trabalhar. E muito deste conhecimento vem, não só do que se aprendeu na faculdade, como também do que se aprendeu aplicando os bons hábitos de estudo que aí se formaram.

Não falo unicamente das áreas de investigação científica. Nestes casos, a importância do estudo é indubitável e foi por grandes cientistas terem aprendido que nos ensinaram aquilo que acabou por mudar a sociedade. Refiro-me também a gestores, engenheiros, médicos e muitos outros, que, por saberem mais do que o mínimo, são capazes de sugerir melhores ideias, contribuir para mais projetos, aspirar a trabalhos mais ambiciosos.

Tendo em conta que mais conhecimento leva a mais oportunidades, diria que é útil aproveitar o tempo de universitário, durante o qual o principal dever é aprender. Claro que o tempo é limitado. É uma questão de fazer escolhas. Caso escolham aprender um pouco mais e dedicar mais empenho ao estudo, eis que a universidade é o sítio perfeito para adquirir excelentes conhecimentos, dado que, logicamente, está repleta de professores que têm por profissão estudar e são capazes de esclarecer muitas dúvidas. Aproveitem, que muitos professores (digo isto por experiência) terão gosto em esclarecer alunos interessados.

2. Estudar não é passar horas a olhar para um livro

Em segundo lugar, diria que é importante reconhecer que o hábito do estudo traz muitas vantagens além da aquisição de conhecimentos. Além de treinar a mente para conseguir aprender mais, o estudo, como muitos trabalhos, permite o desenvolvimento de um leque considerável de virtudes. Apesar de acreditar que existem muitas mais, optei por destacar aquelas qualidades que mais senti que desenvolvi no meu primeiro ano de faculdade. E são certamente uma mais-valia, mesmo fora do contexto universitário.

A virtude da ciência é das mais obviamente afetadas, mas, a nível intelectual, não é a única. Para resolver problemas e apreender conceitos, o cérebro vê-se obrigado a desenvolver a criatividade para encontrar soluções. Por um lado, é fundamental para arranjar métodos para fazer exercícios, que muitas vezes exigem uma ideia mais fora da caixa. Por outro, a criatividade é, diria, essencial para aprender matéria. Seja a pensar em comparações, fazer esquemas mentais ou organizar resumos, a capacidade de imaginar e gerir ideias facilita a aprendizagem. Requer alguma imaginação para perceber intuitivamente certos conceitos, além disso.

3. Há uma altura em que descobrimos que não somos assim tão bons

O início do ano pede-nos realismo, humildade, virtude que se treina durante estes anos na universidade. Não se assustem com a repentina queda de notas. Todos passam por isso e é quase inevitável. Um amigo meu disse, nos primeiros dias de faculdade, que, se não era humilde, passá-lo-ia a ser. Apercebi-me da veracidade da afirmação. Eventualmente, decidi-me a preocupar-me mais com o que aprendo do que com o que a média pode ou não dizer sobre mim. Já para não falar de colocar dúvidas nas aulas. Conheci durante muito tempo o medo de falar durante a aula e dizer algo aberrante. Mas isso não pode ser a causa de não perceber a matéria.

Como última virtude que queria ressaltar, a fortaleza parece-me, contudo, a mais afetada. Todas aquelas dificuldades da vida universitária exigem esforço para serem enfrentadas. Ou podemos guiar-nos pela lei do menor esforço. Precisamente por ser muito chamativo e tentador esta segunda hipótese, é que a fortaleza tem o potencial de ser muito desenvolvida. Considero uma virtude fundamental, por nos ajudar a fazer aquilo que tem de ser feito, mas que não nos apetece. Portanto, existe aqui um círculo virtuoso. Contrariar a preguiça ao levantar de madrugada faz-nos mais fortes para a próxima vez ser mais fácil.

4. A curiosidade também se treina

Espero que maior parte tenha conseguido entrar no curso que queriam, ou, pelo menos, num que gostam. Caso não gostem, também se aplica, de uma maneira um pouco diferente. De qualquer modo, o que mais me motivou para continuar a estudar e (alerta hipérbole) dado o meu máximo no curso, foi o próprio gosto por aprender.

Esta motivação, geralmente conhecida por curiosidade, é capaz de ser a mais eficaz de todas, se bem que mais difícil de conseguir para muitos. Procedendo à explicação: a curiosidade é mais direta, porque consiste no próprio prazer ou vontade por saber algo. Enquanto outras motivações parecem mais distantes, esta é imediata e pode levar a uma vida de estudante mais agradável. No entanto, e convém salientar, não é o mesmo que gostar de estudar.

Quem gosta de futebol consegue passar horas a discutir estatísticas, tácticas, jogadores e transferências. Quem gosta de música sabe reconhecer diferenças que outra pessoa nem sequer nota. Quem gosta de carros quer saber motores, consumos e desempenhos. Quem gosta de história passa horas a descobrir como uma decisão tomada há séculos mudou o mundo.

Todos sabemos muito sobre alguma coisa. A questão é descobrir como transportar essa curiosidade para aquilo que escolhemos estudar.

A curiosidade pode tornar mais fácil e prazerosa esta atividade, pois é um meio de adquirir conhecimentos, mas nem sempre basta. Tem de se querer os meios com a mesma força que se quer os fins ou não se alcança fim nenhum.

Como se ganha curiosidade?

Não sei qual o critério de muitos alunos, mas não devem ter escolhido cursos aleatoriamente. Existe sempre uma preferência por certas áreas, dentro de cada um. Conclui-se, então, que cada pessoa tem uma certa curiosidade inata para alguns temas, diria eu. Permitam-se ter alguma paixão por aquilo que aprendem, pois há uma certa beleza em tudo. Façam perguntas, questionem-se, tentem perceber melhor cada objeto do vosso interesse. Note-se, toda a gente sabe muito de pelo menos algum tema (desporto, por exemplo, parece um caso comum). Tentem ver o que há de interessante naquilo que estudam, naquilo que escolheram estudar. É certamente possível.

Portanto, este ano, tentem lembrar-se de porque estudam. Eu, pessoalmente, prefiro pensar em como o meu estudo pode ter consequências. Tanto sendo melhor pessoa como melhor profissional posso fazer a minha parte para melhorar a vida de todos. Quando pensamos que ninguém é grande o suficiente para mudar o mundo sozinho, convém ter em mente que também ninguém é demasiado pequeno para não ajudar a fazê-lo. Certamente, o convívio e o lazer não são descartáveis. Constituem, em parte, a vida do jovem. Mas, quando for para estudar, dever do estudante, façamo-lo com vontade.