Se não fosse o barulho ocasional de aviões a aterrar, a sensação era mesmo a de que voltámos no tempo. A poucos metros do aeroporto de Lisboa, esconde-se um palacete do século XVIII que recentemente serviu de cenário para um videoclipe dos BTS, ídolos do K-pop, e já recebeu Karlie Kloss para gravar um anúncio, ou o elenco da conhecida série para a televisão Equador, baseada no romance histórico de Miguel Sousa Tavares. Ao fim de mais de três séculos, a propriedade mantém-se preservada, quase intocada. Mas ao contrário de tantos outros espaços históricos, esta nunca deixou de ser uma casa de família — o que a permeia de ainda mais memórias e mistérios.
No pátio da Quinta da Francelha vemos os jardins que, em tempos, estiveram cercados por vinhas e propriedades agrícolas. É onde encontrámos Francisco Patrício, o atual proprietário e descendente das gerações que aqui viveram ao longo dos últimos 200 anos. Com passos firmes, aproxima-se pronto para nos apresentar a casa — e abrir as portas das memórias familiares contadas de geração em geração, numa altura em que a quinta se encontra listada para venda.

Tem 87 anos e sempre viveu na Francelha. Ouviu sobre o orgulho do bisavô na produção de vinhos internacionalmente premiada; as amizades da avó poetisa com vencedores do Nobel; viu acontecer pelo menos um baile na imponente sala de música; acompanhou a transformação de uma espécie de celeiro numa sala de brincar (e depois no próprio escritório); e recebeu dezenas — ou centenas — de encontros da família ao longo das décadas. E são os Natais aqueles que mais marcam a memória de Madalena, a neta que recebeu o nome em homenagem à antepassada escritora, Maria Madalena de Martel Patrício, nomeada 14 vezes para o Nobel de Literatura. É com o membro da geração mais recente da família que iniciámos a visita, pelo exterior da propriedade.
“Lembro-me de correr muito por estes jardins com os meus primos”, recorda, sobre as reuniões, que chegam a somar mais de 40 pessoas. Mostra-nos a casa de bonecas entre as árvores, o antigo pombal com os vários poleiros para as aves, o grande tanque de lavagem da roupa que já fez vezes de piscina, e que tem um moinho desativado que em tempos era movido a bois, a cavalariça ainda pintada em tons de azul e amarelo, e a adega com barris do século XIX.
“Isto era uma propriedade agrícola e uma casa de verão”, começa logo por dizer Francisco Patrício, quando se aproxima. Diz a lenda que na Francelha se produziu o famoso vinho Charneco, um tipo de vinho popularizado no Reino Unido pelo duque de Wellington, e que chega a aparecer na obra de William Shakespeare. “O vinho era bom, mas se era Charneco ou não, eu não sei”, diz logo o proprietário da Francelha, que conta que o bisavô chegou a participar em competições internacionais. Os certificados dos prémios em concursos em França e nos Estados Unidos da América estão devidamente registados nas paredes da casa. O que fica apenas na memória do herdeiro são as histórias. “Quem fazia o vinho era um homem que era um técnico de vinhos — não era técnico nenhum, era um camponês que tinha experiência da vida. O nome dele era ‘António Mija na Água’”, conta, entre risos. “Se calhar fazia o mesmo, por isso é que era bom!”, brinca o bem disposto Francisco Patrício.
O “milagre” do confessor de Salazar e os símbolos da maçonaria
Entramos pela porta principal, e sentimos logo o fresco. “O meu avô não nos deixa manter as portas abertas”, denuncia logo Madalena. “É verdade. Se ficarem abertas, o calor entra logo”, rebate o avô. Mas mesmo “no escuro”, o hall impressiona: piso e arco principal em pedra, uma escadaria curva de madeira e o teto e as paredes ornamentados com várias cores entre o verde, o vermelho e o amarelo. O palacete de arquitetura neoclássica do século XVIII é na verdade uma adição à construção original, provavelmente de antes do terramoto de 1755. Há divergências sobre a autoria: o Arquivo Municipal de Loures atribui a Nicolau Nasoni, enquanto investigações académicas sobre casas senhoriais apontam para a autoria de José Costa e Silva. O atual proprietário, entretanto, desvaloriza. “Naquela época não havia isso de arquitetos. Isto foi construído por pedreiros”, diz, ao destacar as características que permanecem sólidas até aos dias de hoje — o chão “todo original da época”, com pedras moldadas à mão; e as paredes grossas, que ajudam a manter a temperatura no interior, assim como conservam, em praticamente todas as divisões, os frescos.




O primeiro proprietário conhecido terá sido Bento José Monteiro, um comerciante de Lisboa que terá feito negócios na Ásia e na América, e provavelmente o responsável por ampliar a casa original, acrescentando o palacete decorado e a capela, no início do século XIX. Entretanto, morreu em 1821 com dívidas, e portanto a propriedade foi a leilão. Quem comprou a quinta, entre os anos de 1823 e 1824, foi Félix Martins da Costa, outro mercador da capital. Contudo, viveu pouco tempo na casa — morreu em 1827, sem descendentes, deixando a propriedade para a viúva, Maria do Carmo Campelo, que, sem filhos, deixou toda a sua herança para o afilhado, João Campelo Trigueiros Martel. “Isto era de um tio do meu bisavô que deixou à mulher a fortuna toda”, assinala Francisco Patrício.
E então, a posse pulou uma geração: o bisavô e a mulher, Maria Henriqueta Mascarenhas Godinho Valdez, deixaram a propriedade, afinal, para um dos netos. “O meu pai estava a brincar com um primo e a minha bisavó perguntou: ‘Meninos, querem ir à Francelha?’ E o outro diz: ‘Não avó, eu vou a Cascais’. E o meu pai disse: ‘vou consigo, gosto muito da Francelha’. A minha bisavó levou-o, comeu com ele, e chegou no dia seguinte e foi ter com o notário Silva e mudou o testamento. Deixou isto diretamente para o meu pai“.
O rés-do-chão é composto pelos quartos, que Patrício explica serem ali por causa da temperatura. “Era uma casa de verão, então estes eram os quartos mais frescos”. As divisões intercomunicam-se, no clássico estilo palaciano dos séculos XVII a XIX. Um dos quartos, reservado para o padre. Com acesso direto à sacristia, que se liga à capela da propriedade, consagrada a Nossa Senhora da Conceição, onde se casaram vários membros da família e ainda se celebram missas, especialmente no Natal. “Aqui costumava ficar um padre holandês que rezava a missa cá e é um santo. De uma bondade espantosa. Hoje em dia existe uma campanha para ver se é beatificado. Passava aqui sempre as suas férias e fazia o seu retiro espiritual”, conta Francisco Patrício.
O proprietário da Quinta da Francelha fala do padre Gregório Verdonk, um sacerdote que veio a Portugal na década de 1940 em missão, e que foi o responsável por administrar a extrema-unção a Salazar em julho de 1970. Inês Leitão, autora de O Último Exorcista de Lisboa, biógrafia do sacerdote, acredita que Verdonk foi o responsável por aquele que deveria ter sido reconhecido como o segundo milagre da Eucaristia em Portugal. Terá sido numa missa com Maria da Purificação, outra figura religiosa sobre a qual recai uma campanha pela canonização, que o padre terá recebido um cálice com o sangue de Jesus. O “milagre” ter-se-á passado aqui, na capela da Francelha — e a fotografia do cálice permanece exposta ao lado do altar.
A capela com pé direito duplo e cobertura em cúpula tem acesso direto no segundo piso a partir da casa, para que a família pudesse assistir às celebrações, e uma janela com treliça que dá para a cozinha. “Foi feita de maneira que a cozinheira pudesse estar a cozinhar e ouvir a missa”, conta Francisco Patrício. Sobre o altar, em dourado, o desenho do “delta luminoso” com o “olho que tudo vê”. “Dizem que representa a Santíssima Trindade. Mas eu não acredito”, explica o proprietário. “Foi um grande comerciante que mandou fazer esta casa. Ele devia ser maçom, porque isto é tudo representação da maçonaria”, sugere Patrício, sobre uma das principais salas do palacete, que no teto tem pintada uma mulher com um seio à mostra, junto de figuras como um compasso ou uma cornucópia.
Dos Nobel de Literatura ao urinol dos BTS
Ao entrar na divisão, a luz que invade o ambiente é logo o que mais chama a atenção. “Esta sala é extraordinariamente bonita”, diz. “Lembro-me de no verão vir com o meu pai. Ele ia à vindima e mandava buscar uvas moscatel. Então sentava-se nesta sala, mas comia apenas uma. Dizia que eram as melhores uvas do mundo, mas comia só uma”, ri-se o residente da Francelha. É nesta sala que aceita posar para um retrato, “mas só se for com a Madalena”, intima o avô.
À parte das paredes com pinturas que contam histórias que não viveu, os porta-retratos mantêm vivas as lembranças que ainda consegue contar. Avô e neta vão aos poucos explorando cada canto da sala. Pegam numa fotografia em que o pai de Francisco Patrício aparece ao lado de Amália Rodrigues e do toureiro João Núncio.
Noutra imagem, a avó de um e trisavó de outra, com os amigos escritores — entre eles François Mauriac, Nobel de Literatura em 1952. Maria Madalena de Martel Patrício escreveu mais de 20 obras, entre poesia em francês e o livro de memórias — que inclui passagens na Francelha — Quando eu era pequenina, de 1935. Madalena, a trineta que recebeu o nome da poetisa, confirma ter lido o livro da antepassada e recorda que todos na família escrevem. “É um gosto que passou de geração em geração sem aquela obrigação. Nunca ninguém nos pôs a escrever mas a verdade é que gostamos”.




Outro gosto que vem de gerações passadas é pela cozinha. “Sou cozinheiro e gosto de cozinhar”, conta Francisco Patrício, que logo se deixa levar por elogios à irmã mais nova de Madalena. “Ela tem a sensibilidade do tempero!”, diz à neta. E aprendeu com quem? “A minha mãe era boa cozinheira. Mas há aquele ditado: ‘On devient cuisinier, mais on naît rôtisseur‘. O assador já está garantido à nascença, mas com o tempo pode-se ser cozinheiro.”
Na vida familiar nesta casa, os cozinhados saíam de uma cozinha clássica com fogão a lenha e piso quadriculado. “A minha mãe vinha todos os dias de manhã dar as ordens do almoço. E então vinha uma carroça puxada a burro, com um cocheiro, que havia ido buscar as coisas que estavam encomendadas”, recorda. “Boas receitas eram feitas naqueles fogões”, diz o residente da Francelha, que conta ainda a receita de “uma canja que era um amor!”. “Era uma velhota que tinha uma canja excecional e dizia que era muito fácil. ‘Metem-se duas galinhas numa panela e quando elas estiverem desfeitas está a canja feita!’”, ri-se.
Da cozinha os pratos eram servidos na sala de jantar. “Havia um criado de mesa, uma cozinheira e uma ajudante de cozinha… Não sei se havia dinheiro”, diz Patrício, com bom humor. À mesa sentavam-se todos os sete irmãos. “Quando havia muita gente a mãe colocava uma cabeceira”, conta. A cristaleira original ainda guarda o serviço de loiça usado no seu batizado, há mais de oito décadas.
Do outro lado da porta, uma sala de baile, com um piano no canto. “Houve um baile, que eu me lembre. Uma comemoração dos 18 anos da minha irmã mais velha. Eu era pequenino e andava por aí… Foi o único baile com orquestra e tudo por aqui. Foi muito bonito, segundo disseram”, diz Francisco Patrício, que aponta para o teto da sala, atribuído ao pintor Pedro Alexandrino. O segundo piso guarda ainda uma antessala decorada com aguarelas do visconde Júlio de Castilho, “amigo da minha avó”, que retratam costumes da Lisboa de finais do século XIX; e uma sala de passagem totalmente forrada com papel de parede chinês do século XVIII, um dos únicos dois conjuntos deste tipo em Portugal ainda aplicado no local de origem — que para os BTS foi o espaço perfeito para instalar alguns urinóis. “O avô ficou escandalizado”, brinca Madalena, que se ri da utilização dada pela banda de k-pop à sala dos pássaros.
A sala fica imediatamente depois da imponente escadaria pela qual entrámos. No centro, uma mesa com dois livros que denunciam o tempo. Um deles é uma cópia do Index da Caza dos 24, que data de 1831. É, na verdade, um conjunto de leis de uma espécie de assembleia deliberativa em Lisboa, e que foi extinta em 1834 após a implantação do regime liberal em Portugal. Ao lado, outro livro que revela ser, afinal, um álbum de fotografias da família. Avô e neta folheiam as páginas lentamente — o patriarca a identificar membros da família, e a representante da geração mais nova a elogiar a aparência das tias e avós.
A vida num palácio do século XVII
Ao longo do tempo a casa serviu de cenário para gravações de videoclipes, produções para a televisão e publicidade e recebeu eventos — mas depois de mais de 200 anos na família, a propriedade com mais de 12 mil metros quadrados de terreno é colocada à venda numa altura em que, o seu morador confessa: “Já não posso andar por tudo isto”.
“Ainda existem propriedades com estas características em Portugal, embora sejam hoje cada vez mais raras”, assinala Miguel Poisson, CEO da Portugal Sotheby’s International Realty, a agência imobiliária a anunciar a casa, por quase 4,2 milhões de euros. A maioria das quintas, solares e casas familiares parecidas estarão concentradas nas regiões de Lisboa e no Norte do país. “O que torna casos como o da Quinta da Francelha particularmente relevantes é a combinação de vários fatores que nem sempre é fácil encontrar numa única propriedade: antiguidade, continuidade da utilização, preservação arquitetónica e manutenção do carácter privado e residencial ao longo dos séculos”, considera Poisson, que aponta dois principais perfis de compradores: os investidores interessados em transformar a propriedade num hotel ou espaço de eventos; ou os que tenham como motivação principal “precisamente o valor arquitetónico, histórico e cultural do imóvel”, destacando que a Francelha poderá “ser uma opção para colecionadores que procurem um espaço singular para albergar e apresentar uma coleção de arte, para galerias de maior dimensão ou mesmo para fundações e outras instituições que valorizem a ligação entre património, cultura e arquitetura.”
Classificada como imóvel de interesse público desde o início da década de 1980, Poisson considera que a classificação confere um “grau adicional de autenticidade, exclusividade e prestígio” à propriedade. Contudo, faz a ressalva de que “qualquer intervenção relevante num imóvel classificado terá de respeitar o seu enquadramento patrimonial e preservar os elementos que justificam essa classificação” — o que significa que todas as obras de remodelação terão de passar por uma análise mais rigorosa por parte da autarquia no que diz respeito à traça original, cores e materiais; sem falar na obrigatoriedade de conservação do imóvel, que tem interesse histórico.




Voltando à visita com avô e neta, deixámos o palacete principal, e seguimos até à parte de trás da casa. Passamos por uma porta através da cozinha que, depois de uma pequena sala de arrumos, dá numa outra sala de estar. Os livros e revistas sobre os sofás denunciam: é aqui onde efetivamente vive com a mulher. A casa é original do século XVII, provavelmente de antes do terramoto, arrisca o proprietário, sem precisar a data exata. O piso é de madeira e as paredes tão decoradas quanto o palácio que acabámos de visitar. Francisco Patrício chama a nossa atenção para as portas de madeira pintadas em tons de verde e vermelho: “parecem caixas de lápis”. Rumamos a uma sala de jantar que também ainda é usada pela família, em que se destacam as peças de mobiliário antigo.
Tal qual um labirinto, seguimos as portas até outros dois quartos menores, onde a neta Madalena recorda já ter passado algumas noites. Num deles, uma pintura a fresco que Patrício atribui a Jean Baptiste Pillement. “Não está assinado, mas dizem ser deste pintor francês, que veio a Portugal a fugir da Revolução Francesa. Curiosamente comprei uma gravura quase igual, e que é do Pillement”, conta.
A última paragem é o que Madalena brinca ser a “cave” do avô. O escritório, que fica onde em tempos a família “pendurava os porcos para se desmancharem”. “Depois foi feito um quarto de brincar para os miúdos, pela minha mãe. Mas as crianças só queriam ficar no andar de cima, então o meu pai ficava aqui sozinho. Dizia: ‘não me deixam estar sossegado, então venho para cá’”. A história parece repetir-se. Já adulto, Francisco Patrício transformou o espaço num escritório para uma sociedade que montou, e, depois de casado, fez da sala o seu reduto particular.
Com paredes recheadas de livros — “só lhe falta O Primo Basílio“, diz a neta, sobre as primeiras edições de Eça de Queirós — Patrício aponta-nos para “quatro gravuras excecionalmente boas” penduradas na parede. São gravuras com cor, “muito mais raras”, provavelmente do século XVII. Passadas duas horas, já fala da paixão pelas gravuras com muito mais à vontade, sem esconder o entusiasmo pelo tipo de arte, que foi alimentando ao longo das décadas, e decorando as várias paredes de todo o palácio.


No sofá, a neta mostra a almofada em formato de presunto que os netos ofereceram ao avô num Natal. Madalena aponta para a poltrona preferida de Francisco Patrício: “está sempre aí, a ler”. O avô senta-se — e temos a sorte de conseguir um retrato. Levanta-se logo, com a ajuda da neta. Com a bengala, aponta para as estantes. E com o mesmo bom-humor com que nos levou por uma viagem pelas suas memórias, faz piada com os anos que sustenta: “Já li isto tudo”, diz, com uma pausa. “Mas a idade tem uma grande vantagem… Posso voltar a ler, porque já os esqueci.”



















