Há meses que o ministro da Administração Interna não faz mais do que inspirar dúvidas e suspeitas. O líder da oposição decidiu, por isso, apresentar uma moção de censura ao governo. Como respondeu o primeiro-ministro? Demitindo Luís Neves? Explicando Luís Neves? Não: anunciando um aumento de pensões e uma baixa do IRS. E as restantes oposições, que fizeram? Atacaram Luís Neves? Defenderam Luís Neves? Não: acusaram a moção de ignorar a única “realidade” que supostamente interessa aos portugueses, e que é o que podem sacar ao Estado.
André Ventura usa Luís Neves para subir ao palco? Provavelmente. Mas mais do que saber a quem aproveita o caso, importa saber quem tem razão. Não é quem protege ou tolera Luís Neves. Luís Neves nunca deveria ter sido ministro. Não o deveria ter sido porque quando um chefe de polícia passa directamente para o governo põe em causa a independência da polícia. Não o deveria ter sido porque Luís Neves se permitiu, na PJ, demasiadas “informalidades” e “imprudências”, que perturbam agora a sua vida governamental. Não o deveria ter sido porque já provou, com as suas arrogâncias e ameaças de autocrata rústico, que lhe falta educação para o lugar onde está.
Os portugueses percebem. Na sondagem da CNN, 65% responderam que Luís Neves “não tem condições para continuar no governo”. Não há outro ministro na mesma situação. Nem os responsáveis pelos sectores mais discutidos, educação e saúde. Só os políticos, tirando o líder do Chega, acham que Luís Neves tem condições para continuar, ou que, não as tendo, pouco importa que continue ou não. Donde vem tão grande divergência entre os cidadãos e a classe política?
Luís Neves é tão inexplicável que há quem invoque rocambolescas promiscuidades e comprometimentos. A situação, porém, parece mais séria. Repare-se na convicção do governo de que pode fazer desaparecer este caso com uns anúncios de benefícios. É uma convicção que as oposições, com excepção do Chega, partilharam neste debate, porque foram precisamente mais benefícios que exigiram ao governo. A nossa classe política acredita que governa um país onde os cidadãos se estão nas tintas para o regular funcionamento das instituições desde que tenham as tigelas cheias. Sendo assim, estaremos, no caso Luís Neves, perante um problema estrutural de cultura política, e não de um simples enredo acidental de solidariedade e chantagem, que pode ocorrer até num regime arejado e saudável. Os cidadãos têm razões para não confiar em Luís Neves, mas Luís Montenegro acredita que isso se resolve com mais uns euros.
Imaginam Nixon a escapar-se do Watergate com um aumento de pensões? Em Portugal, teria tentado. Ora, isto remete-nos para a cultura política criada neste país pelo poder socialista. Desde 1995, o PS exerceu o poder com base na ideia de que os eleitores não se movem por outra coisa que não sejam dádivas do Estado. Foi isso que os socialistas julgaram que tinha acontecido durante o “cavaquismo”, quando viram tantos eleitores de esquerda desertarem para o PSD. Não admitiram que Cavaco Silva tivesse uma visão do país mais convincente. Preferiram pensar que tinha sido simples compra de votos, até porque, com o socialismo desacreditado, era só isso que o PS podia fazer. E foi o que fez no governo: segmentou a população, como as empresas fazem aos consumidores nas suas campanhas comerciais, e cumulou funcionários e pensionistas de razões para votar PS. Luís Montenegro representa a geração do PSD que, perante a hegemonia socialista, se convenceu de que o PS descobrira como se manda em Portugal. A sua linhagem não é a de Cavaco Silva, mas a de António Costa.