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(A) ::  Rivais no relvado, inimigos na bancada

 Rivais no relvado, inimigos na bancada

Os clássicos e os dérbis deviam ser dias de festa. Em vez disso, tornaram-se sinónimo de pancadaria. Porque é que trocámos a união pela guerra, e como podemos trazer o futebol de volta a casa.

Fernando Morais
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O ambiente escaldante. O nervoso miudinho. A ansiedade de ver a bola no fundo das redes. É esta a sensação que todo o adepto sente dentro de um estádio de futebol. Até que num instante, tudo se inverte. As provocações sobem de tom, os insultos ganham corpo, a rivalidade deixa de ser paixão e passa a ser guerra. O que devia ser bonito transforma-se no pior que o futebol tem para mostrar. Fica a pergunta. Porque acontece isto num espaço que devia ser de amizade? Porque é que os clássicos e os dérbis surgem sempre acompanhados de pancadaria antes, durante e depois do jogo? Uma pessoa paga o bilhete para entrar no estádio e comporta-se de forma irracional. Porquê? Nos outros eventos, sabe comportar-se.

O desporto rei devia ser uma rivalidade desportiva saudável. Dentro das quatro linhas, os jogadores competem. Fora delas, muitos são amigos. Rivais no relvado, amigos no balneário. Se eles conseguem separar as duas coisas, porque nós não conseguimos? Também temos amigos que apoiam o clube rival, discutimos resultados, trocamos provocações leves, mas não olhamos para eles como inimigos, nem lhes batemos à saída do estádio. Houve um tempo, e ainda há quem se lembre dele, em que os adeptos de clubes rivais partilhavam uma bebida e comida antes do jogo, cantavam contra o adversário sem nunca lhe desejar mal, e saíam do estádio a comentar o jogo, não a fugir de alguém. É essa memória, mais do que qualquer outra coisa, que devíamos tentar recuperar.

Um estádio devia ser o lugar onde um pai leva o filho, pela primeira vez, para sentir aquele arrepio que só o futebol dá. Devia ser memória, não trauma. Mas há crianças que já não querem voltar, há pais que já hesitam em levar os filhos, porque o medo entrou onde só devia existir a alegria e amizade. E a responsabilidade não é só de quem está nas bancadas. Os clubes têm o dever de dar o exemplo, os comentadores e os meios de comunicação têm o dever de escolher palavras que tranquilizam, não que incendeiam, como acontece com frequência nos meios de comunicação, e as instituições do futebol têm o dever de agir com firmeza quando os limites são ultrapassados. Também aqui entra a forma como falamos do jogo. Chamamos-lhe invasão, tratamos o adversário como inimigo antes mesmo de começar. As palavras que escolhemos moldam o comportamento que depois descamba, e o bom senso começa na linguagem, antes de chegar às atitudes.

A imagem que os estádios mostram viaja para além das fronteiras. Um vídeo de confusão numa bancada corre mundo mais depressa do que qualquer golo bem construído, e fica a ideia errada de que o futebol é isto, barulho, insultos, medo. Mas não é. A maioria de nós vai ao estádio para viver, não para lutar. Mas basta uma minoria descontrolada para que essa seja a imagem que fica, e para que essa imagem apague, aos olhos de quem vê de fora, tudo o que o futebol tem de bom. E essa imagem começa sempre com um gesto isolado, de uma pessoa que, num segundo, decide reagir mal.

Há quem diga que é o calor do momento, a adrenalina do grupo, que explica tudo. Mas o calor do momento não obriga ninguém a insultar, a provocar ou a agredir uns aos outros. Escolhemos como reagimos, mesmo dentro da multidão, e é essa escolha, feita por cada um de nós, que decide se o jogo acaba em festa ou em tragédia. Da próxima vez que estiveres num estádio, a escolha também vai ser tua. Gritar de raiva ou gritar de alegria. Ver como rival ou ver como inimigo. Devíamos festejar as vitórias e sofrer as derrotas, mas sem sair de lá com mazelas que nada têm a ver com o resultado. O futebol devia deixar memórias, não cicatrizes.

Nelson Mandela disse-o melhor do que qualquer um de nós. “O desporto tem o poder de mudar o mundo… tem o poder de unir pessoas de uma forma que poucas outras coisas conseguem.” Que o estádio volte a ser isso. Não um campo de batalha, mas sim o lugar onde, por noventa minutos, aprendemos que se pode amar um clube sem odiar quem ama outro.