Na semana passada, fui convidado para um encontro de diálogo inter-religioso. Por motivos que desconheço, das várias confissões religiosas convidadas, apenas representantes do cristianismo e do islão marcaram presença.
Ao longo da mesa-redonda, o representante do islão disse que existe radicalismo na comunidade muçulmana; que o condena totalmente; que as comunidades islâmicas são muito diversas e que há problemas até no seio de alguns dos seus setores, algo potenciado pelo facto de não existir uma hierarquia centralizada, como sucede no catolicismo; que não aceita que exista em Portugal uma lei paralela, seja ela qual for, mesmo que de origem ou inspiração muçulmana; que a imigração deve obedecer a regras; e que a assimilação absoluta é tão perigosa como «a multiculturalidade difusa que a esquerda progressista quer defender». Ainda assim, não foi suficiente.
Um grupo foi à conferência para sabotar o encontro. Não havia volta a dar. Havia, de facto, boas perguntas que poderiam ter sido feitas. Ficaram todas por fazer. Por mais que o representante muçulmano se explicasse, não adiantava. O grupo queria deixar uma mensagem: o islão é um mal em si mesmo, que deve ser controlado e afastado do espaço público. Sem dúvidas nem complexidades.
Atenção: o diálogo entre o cristianismo e o islão é altamente complexo. Estão em causa universos religiosos e culturais diferentes, que influenciaram tradições políticas, sociais e económicas distintas. Parafraseando o início de Anna Karénina: ambos falam de amor, paz e misericórdia, mas cada um à sua maneira. Além disso, independentemente do universo religioso em causa, a própria discussão acerca da relação entre pertença religiosa e cidadania não é assim tão clara. Por outro lado, tal como se verificou no encontro a que assisti, existe um pudor público em falar do islão. Por uma espécie de remorso cultural, temos sempre medo de ser vistos como xenófobos quando empregamos uma conjunção adversativa.
No entanto, parece-me que, no dia em que os cristãos cederem a um ou ao outro lado — tornando-se cúmplices da discriminação contra o islão ou envergonhando-se de si próprios —, será precisamente o cristianismo o próximo alvo a abater. Se o cristianismo quer viver em liberdade e com responsabilidade, deve contribuir para que outras religiões possam viver do mesmo modo. Tudo isto porque este ódio ao islão, em particular, deriva de algo já antigo: o ódio à religião em geral.
No início do século, surgiu um Novo Ateísmo que visava mostrar que a religião «envenena tudo». E isso teve consequências. Na esteira de antigos preconceitos, os grupos religiosos são hoje, por vezes, vistos como impedimentos ao progresso e obstáculos à civilidade e à moral pública. Em Portugal, há pessoas que acham que o cristianismo é a pior coisa que nos aconteceu, tal como há outras que acham que o islão é a nossa grande ameaça civilizacional. Eu não concordo, em absoluto, nem com uma nem com a outra.
A questão é que ambas as afirmações contêm uma parte de verdade. O cristianismo não trouxe apenas amizade e concórdia à Península Ibérica. Contudo, foi também por causa dele — e não apesar dele — que o espaço ocidental, com todas as suas contradições, se construiu. Além disso, a entrada de pessoas muçulmanas em Portugal implica o confronto com uma visão do mundo diferente daquela que é maioritária no país, o que gera medos legítimos, tensões compreensíveis e conflitos evidentes. O problema é que não há debate. Existem dois hemisférios isolados, entre os quais não há confronto nem discussão. Existe apenas exclusão mútua. Tudo o resto é «ceder ao politicamente correto».
No fim, acabam por se tomar medidas absurdas. É tão estúpido uma autarquia dizer que «acabou o Natal porque isto põe em causa a laicidade do Estado» como alguém colocar propositadamente um presépio em frente a uma mesquita «porque isto é Portugal e quem não está bem que se mude».
Como diagnosticou Anton Jäger, vivemos tempos de hiperpolítica, mas somos simultaneamente confrontados com a falta de discussão política. Contrariamente ao que defendeu Carl Schmitt, a conflitualidade política tornou-se hoje sinónimo de inimizade pessoal. No fundo, não existe o imprescindível reconhecimento do adversário como interlocutor legítimo. Vivemos entre iluminados e ignorantes.
Sem negar que a política tem uma dimensão conflitual e que nem sempre o consenso deve ser canonizado, é cansativo que a discussão cívica se resuma a ultraje, indignação e ressentimento. Suspeito de que tudo isto vá desembocar, mais tarde ou mais cedo, na mesma impotência que a efusividade pública quer denunciar e criticar. Não precisamos de viver com toda a gente no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Precisamos de partilhar o mundo com pessoas de quem não gostamos. E isso é cada vez mais difícil.