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2026 bateu 2003. O verão mais quente de sempre na Europa, onde os recordes caíram de Espanha à Alemanha

Sete países tiveram o verão mais quente de sempre. Noutros caíram recordes de temperatura, de noites quentes, de duração e número de vagas de calor. E a tendência é para continuar.

Filomena Martins
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Havia uma referência: 2003. Era este o ano para o qual todos olhavam quando se falava de calor na Europa. Era este o ano que concentrava praticamente todos os recordes de temperatura da Europa. Era este o ano que tinha merecido mais estudos sobre as alterações climáticas. Já não há essa referência. Tudo isso acabou esta quinta-feira, vai começar um novo ciclo: os números divulgados pelo Copernicus não deixam dúvidas — a Europa nunca tinha tido um verão tão quente. Mais: agosto foi mesmo o agosto mais quente alguma vez registado no planeta.

23 anos depois, junho, julho e agosto de 2026 ultrapassaram o verão de 2003, a referência para os grandes extremos de calor europeus. Os números agora conhecidos só confirmam aquilo que se foi sabendo país a país, vaga de calor atrás de vaga de calor, recordes batidos todos os dias por toda a Europa. E ainda falta setembro. E não está contabilizado maio, quando a primeira cúpula quente pôs a Península Ibérica a escaldar.

Entre junho e agosto deste ano, a temperatura média na Europa Ocidental chegou aos 21,69°C. São 2,54°C acima da média de 1991–2020. Nunca tinha sido tão alta. Se olharmos depois para toda a Europa, 2026 passa a ocupar o terceiro lugar na tabela, atrás apenas de 2024 e 2022.

Mas o problema não é o novo recorde de 2026. É que quando 2003 entrou para a história meteorológica, aparecia praticamente isolado nos gráficos, muito distante dos que o rodeavam. Agora, este novo recorde surge depois de uma sucessão de verões anormalmente quentes. Desde 2015 que as temperaturas estiveram acima da média na Europa Ocidental. 2022 quase chegou ao recorde de 2003. Agora, quatro anos depois, esse máximo foi mesmo batido.

E o calor não ficou só em terra, chegou também à água do mar. Em agosto, a temperatura média da superfície dos oceanos fora das regiões polares (na faixa entre os 60°Sul e os 60°Norte) chegou aos 21,07°C. O valor mais alto de sempre registado neste mês e um valor igual ao máximo mensal absoluto de março de 2024. Num único dia houve registos de 21,11°C. E, se abrirmos o ângulo, chegamos a números mais impressionantes. Junto à Europa, houve temperaturas absolutas recorde para agosto quer no Atlântico, quase nos 30ºC; quer no Mediterrâneo ocidental, acima dos 33ºC. Temperaturas que foram acompanhadas por vagas de calor marinhas, um outro risco para tempestades e ondas de calor.

E, se olharmos para a escala global, também há recordes. Agosto foi o agosto mais quente alguma vez registado no planeta: a temperatura média global registada foi de 16,96°C, 0,85°C acima da média de 1991–2020 e 1,65°C acima do período pré-industrial. Foi a primeira vez desde novembro de 2025 que um mês voltou a ultrapassar isoladamente os 1,5°C — embora isso não signifique que o limite de longo prazo estabelecido no Acordo de Paris tenha sido ultrapassado.

Os números que fomos conhecendo um a um

A pergunta é se os números agora divulgados pelo Copernicus são uma surpresa. Não são. Dão apenas a medida geral do que vinha sendo contado, país a país, ao longo destes três últimos meses. Verdadeiramente, desde o final de maio. Com vagas de calor sucessivas, recordes atrás de recordes a cair, muitos com temperaturas acima de 40°C onde nunca antes tinham sido sentidas. O máximo que agora passa a ser detido por 2026 é uma nova referência que não sai de um único e isolado episódio de calor, nem vem de uma única região ou de um único país. É a contabilização de vários fenómenos, mais ou menos severos, mais ou menos prolongados. E que atingiram sobretudo oito países: Espanha, França, Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Bélgica, Áustria e Portugal.

Este novo recorde juntou os números que, isoladamente, já tinham parecido excecionais. Espanha teve o verão mais quente desde 1961: 24,5°C de temperatura média, 2,4°C acima do normal e 0,3°C acima do anterior recorde, que era do ano passado. Talvez seja ainda mais impressionante olhar para outro detalhe: nestes três meses, os espanhóis estiveram 61 dias sob vaga de calor. São dois em cada três dias do verão. O anterior recorde era de 2022, com 41 dias.

França também teve o verão mais quente desde 1900. A temperatura média foi de 24,0°C, 3,6°C acima do normal. Neste caso, 2003 ficou muito para trás, já que a anomalia tinha sido de 2,7°C. Os franceses estiveram 53 dias em vaga de calor, mais 20 do que em 2022, com 33 dias. A Météo-France registou 178 momentos em que foram registados mais de 40°C, quando em 2003 tinham sido 88.

E em 90% do território francês houve pelo menos um dia com 35°C ou mais e em 45% chegou-se pelo menos uma vez aos 40°C. A produção de vinho deverá ficar entre as mais baixas dos últimos 30 anos, 17% abaixo da média de 2021–2025, depois das vagas de calor e da seca.

Mas não foram só Espanha e França, os países este ano mais atingidos pelo calor — Portugal ficou protegido pela faixa marítima e a nortada. Os dados do Copernicus mostram que as temperaturas médias destes três meses foram as mais elevadas desde pelo menos 1979 em praticamente toda a Inglaterra, País de Gales e Bélgica e na maior parte de França, Espanha, Itália, Suíça e Áustria.

Um mapa português de recordes

No mapa europeu do Copernicus fica claro: o calor foi generalizado, mas não foi distribuído da mesma forma em todos os lados. Espanha, França, Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Bélgica e Áustria têm recordes para mostrar. Portugal fica fora dessa lista. O extremo de calor português esteve no início do verão e na falta de chuva – que parece ter caído toda com as tempestades de inverno.

Portugal começou o verão com um junho muito quente e muito seco. Mas antes já tinha tido uma onda de calor prolongada nos últimos 15 dias de maio. Junho teve então uma temperatura média de 22,40°C, 2,05°C acima do normal: foi o quarto junho mais quente desde 1931. A temperatura máxima média chegou aos 29,35°C, 2,65°C acima do valor de referência; a precipitação foi de apenas 6,9 milímetros, cerca de 30% do normal.

Julho foi igual, prolongando a combinação entre calor e falta de água. Foi muito quente e extremamente seco, a temperatura média chegou aos 24,04°C, 1,41°C acima do normal, o sétimo valor mais alto desde 1931. A máxima média subiu para 31,46°C. Mas o número a dar destaque não é o dos termómetros: em todo o continente houve apenas 0,8 milímetros de precipitação, 8% do normal. Resumindo, no país não caiu chuva durante todo o mês, com exceção dos distritos de Viana do Castelo e Braga.

Agosto pôs fim a esta cadência. Aliás, houve uma mudança significativa. Foi um mês quente, mas só 0,16ºC acima da média. E, a grande diferença foi esta, tornou-se o quinto agosto mais chuvoso em Portugal continental desde 1931.

Portugal torna-se assim um caso de estudo na fotografia deste verão europeu. O país fez parte do verão anormalmente quente e seco da Europa Ocidental, mas sem qualquer recorde nacional da temperatura média dos três meses. Houve muita irregularidade: junho e julho muito quentes e secos; agosto muito mais húmido.

Mas nem por isso se deixaram de bater recordes. A onda de calor que começou nos últimos dias de junho e só terminou a 11 de julho foi dos episódios mais relevantes desde 1981, de acordo com o IPMA. Porque teve a maior magnitude e a segunda maior expansão nacional. Antes, Portugal já somava seis ondas de calor desde fevereiro, num total de 59 dias.

Portugal não bateu, até julho (até quando o IPMA tem dados), o recorde nacional da temperatura média, nem de um mês, nem do verão. Mas também teve extremos. Junho foi o quarto mais quente desde 1931. Julho foi o sétimo. A onda de calor de junho para julho teve a maior magnitude desde 1981 e a segunda maior extensão. E os 0,8 milímetros de precipitação média de julho no continente tornam-o o mais seco deste século.

Há ainda recordes locais. Em julho, Castro Marim bateu o seu recorde de precipitação diária, embora com apenas 4,5 mm — o anterior era 1,3 mm. Também em julho, Mora bateu o recorde de temperatura máxima para este mês, 44,3°C. Porto Santo teve a temperatura média mais elevada desde 1961. Porto Moniz e a Selvagem Grande registaram igualmente novos extremos de temperatura máxima. E o Funchal e Santana o segundo valor mais elevado dos seus termómetros.

Outros máximos que caíram em série

Olhar para recordes país a país é debitar números consecutivos. Na Alemanha, o balanço preliminar do Deutscher Wetterdienst (DWD) mostra que o verão de 2026 atingiu uma temperatura média de 19,6°C, contra 19,7°C em 2003. Foi o segundo verão mais quente desde que há registos, em 1881. Ficou +2,0°C acima da média 1991–2020 e +3,3°C relativamente a 1961–1990.

Mas se não há recorde na média nacional, há recordes extremos. A 27 de junho, Möckern-Drewitz, na Saxónia-Anhalt, chegou aos 41,8°C, um novo recorde absoluto de temperatura máxima na Alemanha. Na noite seguinte, foi Kubschütz, na Saxónia, que não desceu dos 29,4°C: estava estabelecida a mínima noturna mais alta de sempre no país.

O DWD classifica ainda como “sem precedentes” a frequência do calor. Cerca de 22 dias com pelo menos 30°C e cinco dias com pelo menos 35°C. O verão teve ainda 779 horas de sol, o que deixa 2026 entre os cinco verões mais soalheiros desde 1951. Chuva é que quase nem vê-la. Caíram apenas cerca de 171 litros/m², aproximadamente 72% do normal, com os rios a ficarem em níveis historicamente baixos.

No Reino Unido, 2026 tornou-se o verão mais quente desde 1884. A temperatura média dos três meses chegou aos 16,5°C, quatro décimas acima do recorde estabelecido apenas um ano antes. Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte bateram individualmente os respetivos recordes. E, em Inglaterra e no País de Gales, várias regiões terminaram o verão mais de 2°C acima da média.

Mas são os números absolutos das temperaturas que causam mais espanto. 54 estações meteorológicas bateram os seus próprios recordes de temperatura máxima. 2026 foi, pela primeira vez, o ano em que estes três meses do verão britânico — junho, julho e agosto — tiveram pelo menos um dia acima dos 35°C.

Nos Países Baixos, a temperatura média atingiu os 19,3°C, quando o último máximo era de 17,5°C. Foi o verão mais quente desde que há registos, em 1901, ultrapassando os 18,9°C de 2018 e atirando a referência, 2003, com 18,7°C, para terceiro. A 26 de junho, Ell chegou aos 39,4°C e o país emitiu pela primeira vez um código vermelho por calor extremo. Até final do mês passado, agosto, havia um défice de precipitação de cerca de 285 milímetros — é quase três vezes o valor normal nesta época do ano.

A Bélgica ultrapassou uma barreira que já levava quase dois séculos, desde que são feitas observações em 1833. Nunca a média de junho, julho e agosto tinha atingido os 20°C. O anterior recorde, em 2018, era 19,9°C, mas em meteorologia e em médias deste género, esta décima é mesmo muito importante.

Esta média recorde tem muitos extremos por detrás. Vamos ser repetitivos: a temperatura máxima média do verão atingiu 25,2°C, outro máximo histórico e a mínima média chegou aos 15,2°C, outro recorde. Houve três vagas de calor e, durante 64 dias consecutivos, de 16 de junho a 18 de agosto, a temperatura máxima nunca desceu dos 20°C. No conjunto do território belga, o maior recorde foi de Houyet: 40,4°C a 27 de junho.

Na Áustria, o verão de 2026 também passou para o primeiro dos registos históricos. A temperatura média ficou 2,6°C acima da normal da sequência 1991–2020. Em 5 de agosto aconteceu algo que nunca tinha acontecido desde que há medições oficiais: a barreira dos 41°C foi ultrapassada, com 41,2°C em Bad Deutsch-Altenburg.

Mas não foi um recorde único, longe disso. Em 93 estações austríacas foi batido o máximo do número de dias com 35°C ou mais. Nas zonas abaixo dos 500 metros de altitude houve, em média, 42 dias acima dos 30°C, mais 170% do que seria normal. E em Bad Deutsch-Altenburg, Ferlach e St. Andrä im Lavanttal chegaram a contar-se 55 dias acima dos 30°C.

Um dado importante na questão austríaca: está com seca desde antes destes três meses de verão. De agosto do ano passado até agosto deste ano, teve os 12 meses mais secos desde o início das medições, em 1850. Até 12 de agosto, 72% do território austríaco tinha registado mais dias secos do que nos 65 anos anteriores.

Na Irlanda, o recorde caiu pelo segundo ano consecutivo. A temperatura média nacional foi de 16,28°C e bateu por nove centésimos os 16,19°C de 2025. As medições começaram em 1900 e seis dos 10 verões mais quentes irlandeses são já neste século.

Itália ajuda a mostrar que há uma tendência clara, mas não uniforme. O Copernicus mostra várias áreas italianas com o verão mais quente pelo menos desde 1979, mas ainda não há registos definitivos, nem balanços regionais que garantam tratar-se de recordes. Na Emilia-Romagna, 2026 ficou praticamente ao nível de 2003 na temperatura média do verão. Sabe-se, contudo, que as máximas foram as mais altas desde 1961 e que houve 32 dias acima dos 35°C, este sim, um novo máximo. Em Bolonha, contabilizaram-se 81 noites tropicais.

O calor europeu já está a alterar até fluxos comerciais agrícolas: as más colheitas de milho na Europa, combinadas com outros choques, estão a favorecer exportações recorde da Argentina, segundo a Reuters. E, a tudo isto, ainda há a juntar a seca nos grandes rios europeus, como o Danúbio e o Reno, que alteraram vias comerciais.

2003 deixou de ser o fenómeno. E 2026 pode passar à história muito depressa

É por tudo isto que ganha grande importância comparar 2026 com 2003. E nem é porque 2026 foi o pior em todos os pontos avaliados ou nos vários países. Até porque não foi. A grande questão é que o que há 23 anos parecia um fenómeno extraordinário da climatologia europeia, e que até já ia ficando distante, deixou de o ser. Foi batido. Ultrapassado. E todos os especialistas apontam para que isso se repita quase anualmente.

Todos os verões desde 2015 já foram mais quentes do que a média registada entre 1991–2020. Antes destes dados do Copernicus/IPMA, a soma de junho e julho já mostrava que eram os dois meses consecutivos mais quentes de sempre na Europa Ocidental, com 21,62°C, +2,79°C acima da média, quase 0,9°C acima do anterior ano recorde, que neste caso era de 2022. Ou seja, no fim de julho o recorde europeu já estava praticamente definido. Agosto só fechou o verão e confirmou que 2026 ultrapassou finalmente 2003.

Por isso o recorde de 2026 mostra essencialmente duas coisas. Que estamos a viver um verão excecional. E que, mais importante ainda, o que é ou era excecional está a ser substituído a grande velocidade por novos excecionais. Para o ano há mais possibilidade de novos extremos do que o contrário.