Dentro da sua casa, na própria cama, foi aí que uma mulher austríaca de 39 anos foi encontrada morta após ter sido agredida e violada pelo próprio marido e outro homem enquanto estava “extremamente embriagada”. O abuso que lhe tirou a vida não foi o primeiro, o segundo, ou o terceiro, mas um de muitos, de acordo com os primeiros testemunhos conhecidos. As semelhanças com o caso francês que correu o mundo em 2024 fazem com que vários órgãos de comunicação social austríacos lhe chamem o “Caso Pelicot 2.0”.
Gisèle Pelicot, uma mulher francesa de 73 anos, foi violada por mais de 80 homens entre 2010 e 2020. O crime que chocou França envolveu um planeamento detalhado dos atos de violência sexual pelo próprio marido. Dominique Pelicot drogou sucessivamente a mulher, colocando-a num estado de inconsciência total, e convidou estranhos, que conhecia online, para a violarem na casa de ambos. Depois de fazer questão de dar a cara nas várias sessões do julgamento do marido e dos seus violadores, Pelicot tornou-se num símbolo mundial de resistência contra os abusos sexuais a mulheres.
No caso que já tinha sido noticiado há algumas semanas pela Agência de Imprensa Austríaca, mas cujos detalhes começam agora a ser conhecidos, as autoridades relatam que a mulher estava “indefesa” na noite em que foi morta pelos dois homens, devido à intoxicação por álcool. O marido, um homem de 51 anos, está em prisão preventiva, bem como o segundo suspeito. De acordo com o testemunho da irmã do principal suspeito, citado pelo jornal austríaco Kronen Zeitung, o familiar ter-lhe-á relatado que a mulher “morreu durante o sexo” e que foi ele que a matou.
Também em conversa com a irmã, o homem terá mostrado fotografias sugestivas da vítima mortal no telemóvel, garantindo que ela lhe “rendia” 500 euros por encontro marcado com outros homens. Tal como Dominique Pelicot, suspeita-se que o homem expunha a mulher online para que homens fossem até à casa do casal e a violassem com ela num estado de intoxicação que a deixava vulnerável. Garantiu à mesma familiar que o dinheiro servia para financiar a vida de ambos.
https://observador.pt/especiais/de-nao-poder-resistir-ate-se-tornar-um-simbolo-de-resistencia-gisele-a-mulher-violada-em-serie-pelo-marido-condenado-a-20-anos/
As primeiras provas recolhidas pelas autoridades da Áustria indicam que o segundo suspeito presente na morte da mulher de 39 anos tem um “papel brutal e direto” na série de violações. As mensagens entre os dois homens mostram que falavam das violações como se fossem compromissos de negócios, referindo-se à mulher como um objeto, chamando-lhe, entre outras coisas, “carne morta”. A acusação alega que entre estes dois homens não existiu troca de dinheiro.
Na conversa entre os dois, o marido da vítima terá afirmado que o seu passatempo favorito era ouvir os gritos de dor da mulher vindos do quarto ao lado enquanto era violada.
Apesar dos pormenores do caso que já foram revelados por vários órgãos de comunicação social austríacos, os procuradores responsáveis pelo caso garantiram à CNN Internacional que ainda não confirmam a certeza da existência de uma rede de violação semelhante à descoberta no caso Pelicot, mas indicam que a investigação vai continuar.