(c) 2023 am|dev

(A) :: “Joana Marques – Culpada ou Indecente?”. Extremamente desnecessário

“Joana Marques – Culpada ou Indecente?”. Extremamente desnecessário

A Prime Video estreia um documentário sobre o caso que opôs os Anjos a Joana Marques e o respetivo espectáculo de humor. Alexandre Borges já o viu e pergunta: esta piada ainda tinha algo por contar?

Alexandre Borges
text

Declaração à mesa: não costumamos acompanhar o trabalho de Joana Marques. Nada pessoal; simplesmente não conhecemos muitas das pessoas de quem fala: personagens de reality shows ou influenciadores, mundos que optamos por não frequentar, mas que merecem, certamente, o direito a serem objeto de humor, como só as figuras públicas ou os tipos sociais podem ser. Mas vimo-la uma vez nuns Globos de Ouro fazer piadas com metade dos presentes na sala e, estando nós próprios na sala, percebemos quanto a outra metade gelava com medo de ser apanhada nas câmaras a rir. Rimos, portanto, nós à gargalhada, de ambas as coisas e aplaudimos a falta de respeitinho, que, justamente, tanta falta nos faz por cá.

Soubemos do caso dos Anjos, como, supomos, quase toda a gente: pelos próprios. Quando processaram Joana Marques por uma “vídeo-montagem”, transformaram uma piada numa notícia de telejornal. Tiveram, um dia, uma interpretação infeliz do Hino Nacional que algumas pessoas viram; puseram, inadvertidamente, o país inteiro a ver. E ainda pediram uma indemnização de mais de um milhão de euros por isso. Tudo mau. Tudo embaraçoso ou, como agora se diz por tudo e por nada, “vergonha alheia”. Assistimos, sem surpresa, mas com contentamento, à decisão do tribunal favorável a Joana Marques, à liberdade de expressão e criação, sobretudo num tempo em que o impulso para os “cancelamentos” parecia estar a querer pegar também por cá. Joana Marques foi absolvida e a dupla de cantores teve de arcar com os custos judiciais, fora a situação humilhante em que se tinha colocado a si própria. Caso encerrado. Ou então, não.

Joana Marques – Culpada ou Indecente? é um documentário que se estreia agora (esta segunda-feira, dia 14 de setembro) na Amazon Prime Video quase quatro anos e meio depois do facto original: a atuação dos Anjos na prova de MotoGP, em Portimão, e o vídeo de Joana Marques intercalando-a com reacções dos jurados de um concurso de talentos. Estreia-se depois do processo judicial e depois do espectáculo que Joana Marques entendeu fazer sobre o assunto. Isto é, recapitulando, para que não se perca: os Anjos cantaram mal o Hino; Joana Marques fez uma piada; os Anjos processaram-na; Joana Marques ganhou. Os Anjos não fizeram nada; Joana Marques fez um espectáculo. Os Anjos voltaram a não fazer nada; Joana Marques fez um documentário ou aceitou ser protagonista de um. Haveria mais alguma coisa para dizer acerca deste assunto? Algum ângulo por explorar, alguma piada por fazer?

Spoilert alert: se havia, passou-nos ao lado. Doutro modo, diríamos que Joana Marques – Culpada ou Indecente? começa só de forma escancaradamente demagógica: com uma “reconstituição” da vida “real”, em que Joana fala com um dos filhos sobre como, na escola, lhe perguntam porque está a mãe em tribunal. Para concluírem, na voz da criança, que quem a processou só podem ser pessoas sem “sentido de humor” e até “um bocado palermas”. Segue-se hora e meia em que ouvimos Joana Marques em testemunho direto para a câmara, os amigos de Joana Marques em testemunho direto para a câmara, Joana Marques e os amigos à volta da mesa, outras “reconstituições” da vida “real” de Joana Marques, trechos do espectáculo de Joana Marques, bastidores do espectáculo de Joana Marques, um ou outro sketch de Joana Marques (a consulta de oftalmologia) e uma muleta a que se vai regressando, em que Joana Marques vai afixando fotografias e nomes num quadro de cortiça, à laia de série policial, procurando reconstituir, com ar preocupado, um processo que todos sabem como acabou, que tem absolutamente zero de misterioso e que, como a própria dirá, nunca a preocupou, nunca lhe tirou o sono, sempre soube que ia ganhar.

Raso do início ao fim, sem um conflito, plot twist possível ou qualquer elemento-surpresa, Joana Marques – Culpada ou Indecente? é, fundamentalmente, uma repetição em loop de tudo o que já sabemos: como Joana Marques ganhou e os Anjos quase acabaram com a própria carreira. Sobram umas imagens de arquivo da infância de Joana (um achado aquele momento a tocar bateria e a gritar “Carnificina total!”), a revelação, como dizer?, ternurenta de um dos primeiros presentes que o marido lhe deu ter sido um CD duplo dos Anjos, e a inclusão de três testemunhos críticos de Joana, que, porém, não cumprem mais do que o papel de ter ido ouvir também “o outro lado”.

Perto do final, Joana Marques vai confessar ter muito “mau perder”. E é curioso, porque, desde o início, só pensávamos justamente como também é preciso saber ganhar. Quase quatro anos e meio passados sobre o “incidente incitante”, depois de ter ganhado em tribunal, de ter feito um espectáculo sobre o assunto, vir agora ainda dar corpo a um documentário sobre o espectáculo sobre o processo sobre a piada, já nem conta como bater em mortos; é exumação de cadáver. Rimos quando o fraco enfrenta os fortes, mas, depois de os papéis se inverterem, que graça resta?

A dado momento, David Fonseca (que aporta um dos poucos elementos de humor do documentário envergando uma T-shirt onde se lê “Call my lawyer”) diz ter “a certeza de que não há um osso de maldade nesta rapariga.” Há-de estar aí a razão de ser deste filme: a bondade. Joana arranjou maneira de nos fazer voltar a gostar dos Anjos.