Portugal tem uma relação curiosa com o futuro: desconfia quando ainda pode ajudar a construí-lo e entusiasma-se quando já tem de o comprar aos outros. Durante anos, a ciência que dá origem às grandes transformações parece-nos demasiado incerta ou distante das necessidades do país.
Corremos então atrás do prejuízo: anunciamos estratégias, adotamos o vocabulário da inovação e observamos aquilo que outros começaram a construir décadas antes. Não nos falta capacidade para compreender o futuro. Falta-nos, demasiadas vezes, persistência para participar na sua construção. A segunda revolução quântica pode vir a ser mais um capítulo desta história. Mas ainda não tem de o ser.
Durante grande parte do século XX, a Física Quântica foi o território do estranho, mesmo para alguns dos cientistas que a construíram, como Albert Einstein e Niels Bohr.
Poucas teorias científicas transformaram tão profundamente o mundo. O conhecimento das propriedades quânticas da matéria e da luz permitiu desenvolver o transístor e o laser e, com eles, os computadores, os telemóveis, a Internet, as comunicações por fibra óptica e praticamente toda a eletrónica moderna. A primeira revolução quântica não ficou confinada aos laboratórios: reorganizou a economia e mudou a forma como trabalhamos, comunicamos e vivemos.
Nada disto nasceu de um programa destinado a inventar o telemóvel ou a criar a Internet. Os fundadores da Mecânica Quântica procuravam compreender a matéria e a luz, movidos por perguntas cuja utilidade imediata estava longe de ser evidente. Só mais tarde esse conhecimento se transformou em tecnologia, indústria, riqueza e poder.
A lição deveria ser simples: a inovação de amanhã depende frequentemente da ciência que hoje parece não ter aplicação. Mas Portugal insiste em esquecer esta lição.
Encontramo-nos agora no início de uma segunda revolução quântica. Se a primeira utilizou as leis quânticas em materiais e dispositivos, a segunda procura preparar, manipular e medir sistemas individuais, explorando diretamente fenómenos quânticos que parecem saídos de filmes de ficção científica. A computação é a sua face mais conhecida. Os computadores quânticos não substituirão os atuais nem serão mais rápidos em todas as tarefas, mas poderão resolver alguns problemas que permanecem inacessíveis mesmo às máquinas convencionais mais poderosas. É precisamente aqui que começa o primeiro grande desafio.
Um computador quântico suficientemente avançado e tolerante a erros poderá executar o algoritmo de Shor e tornar vulneráveis sistemas criptográficos como o RSA, dos quais dependem comunicações, transações e informação pertencente a empresas e Estados. Quem primeiro adquirir essa capacidade poderá obter acesso a informação diplomática, militar, científica ou financeira e alcançar uma vantagem estratégica sem paralelo.
A ameaça pode, aliás, já ter começado. Informação cifrada pode ser intercetada e guardada hoje para ser decifrada quando existirem computadores quânticos suficientemente poderosos — “recolher agora, para decifrar depois”. Mas o desafio não se limita à criptografia. A concentração das tecnologias quânticas num pequeno número de potências e empresas poderá criar novas formas de dependência. Um país sem conhecimento próprio ficará limitado a comprar equipamentos, utilizar plataformas estrangeiras e confiar a terceiros a segurança das suas infraestruturas.
Perante estes riscos, seria tentador esperar. Mas esperar não nos protege da mudança; apenas garante que serão outros a defini-la. A resposta aos perigos da tecnologia não é abandonar o conhecimento, mas adquiri-lo.
A computação quântica poderá ajudar a simular moléculas e materiais, estudar processos químicos complexos e procurar novos medicamentos. As tecnologias quânticas incluem ainda sensores de grande precisão, comunicações seguras e novos instrumentos para a medicina, a navegação e a indústria. Algumas destas aplicações poderão tornar-se relevantes muito antes de existir um computador quântico universal.
Portugal não tem de construir sozinho o computador quântico mais poderoso do mundo, nem competir em todas as frentes com as maiores potências. Pode, contudo, escolher áreas em que já possui competências — como a fotónica, a instrumentação, os sensores ou o software — e nas quais uma estratégia continuada lhe permita participar nas cadeias de valor europeias, em vez de se limitar a comprar os produtos finais.
Uma política nacional para as tecnologias quânticas requer financiamento estável, carreiras dignas e formação avançada. Exige também a identificação de áreas estratégicas em que podemos acrescentar valor, financiamento e tempo para que a ciência produza resultados.
A segunda revolução quântica coloca-nos perante uma escolha científica, económica e política. Podemos esperar que outros desenvolvam os computadores, os sensores, as comunicações e as soluções de segurança de que dependeremos. Ou podemos construir conhecimento próprio, formar pessoas e participar na definição das tecnologias que moldarão o futuro.
Se investirmos agora na ciência, nas pessoas e nas infraestruturas, ainda poderemos participar na sua construção.
A escolha não será feita daqui a dez anos. Está a ser feita hoje.