Bombardear uma fábrica iraniana de mísseis é uma actividade ruidosa mas bastante libertadora. Há uma fábrica, cai uma bomba e deixa de haver fábrica. O problema começa no dia seguinte.
Porque, se houver dinheiro, fornecedores, divisas, intermediários e um cliente chinês com apetite por petróleo ao preço da chuva, a fábrica acaba por regressar. Talvez noutro sítio, talvez enterrada numa montanha, talvez registada como cooperativa agrícola para exportação de pistácios. No Irão, uma quantidade surpreendente de mísseis nasce em estabelecimentos que, oficialmente, vendem parafusos.
É aqui que entra a estratégia económica americana contra Teerão, anunciada por Scott Bessent.
O objectivo declarado é cortar as artérias financeiras que mantêm vivo o regime islâmico. Washington avisou bancos, empresas, companhias de transporte, intermediários e governos de que sofrerão certos prejuízos se continuarem a facilitar os negócios do Irão.
Durante décadas, Teerão construiu uma rede financeira à altura das grandes organizações mafiosas, incluindo o Kremlin. Empresas de fachada, bancos, intermediários, petroleiros que mudam de nome e bandeira, transferências opacas, e esquemas variados para transformar petróleo em dinheiro e dinheiro em armas.
Funcionou suficientemente bem para pagar à Guarda Revolucionária, financiar programas de mísseis e drones, alimentar a corrida à bomba atómica e sustentar o rol de grupos terroristas do “Eixo da Resistência”.
Tudo isto, naturalmente, enquanto o normal cidadão iraniano leva com a inflação, a corrupção, a repressão e a possibilidade de ser fuzilado por causa do cabelo da filha.
A guerra iniciada em 2023 contra a “entidade sionista” deveria provar que Israel estava cercado, mas a coisa fez boomerang sobre os sermões de Teerão. Além de centenas de líderes enviados para o paraíso, foram destruídos radares, instalações militares e nucleares, navios, depósitos, centros de comando, fábricas de mísseis, etc.
O estreito de Ormuz está fechado para o petróleo iraniano, o custo económico é colossal e, cereja no topo do bolo, Washington aparece agora com um garrote financeiro quando Teerão necessita desesperadamente de dinheiro.
A Guarda Revolucionária não vive apenas de versículos. É preciso pagar pessoal, comprar componentes, fabricar drones e mísseis, reparar radares, sustentar proxies, recompensar aliados, distribuir empregos e comprar lealdades, porque até o fervor revolucionário tem despesas correntes.
O poder militar americano e israelita mostrou aquilo que consegue fazer sem ter de mandar divisões blindadas desfilar pelas avenidas de Teerão. Mas uma coisa é a bomba e outra a bancarrota.
A bomba destrói aquilo que existe, a bancarrota impede que volte a existir.
É por isso que sancionar apenas bancos iranianos, que já vivem praticamente excluídos do sistema financeiro ocidental, tem uma utilidade meramente decorativa.
O importante é atingir quem negoceia com Teerão.
Um banco estrangeiro que ajuda o regime a movimentar dinheiro ficou a saber que arrisca perder o acesso ao dólar. Uma empresa que branqueia receitas do petróleo iraniano percebe que pode perder o mercado americano. Uma rede de transporte que esconde a origem das cargas arrisca-se a transportar nada de parte nenhuma para nenhures.
As sanções secundárias são poderosas precisamente porque transformam Teerão num parceiro comercial com lepra. E obrigam cada banco, empresa, seguradora ou refinaria a optar entre ganhar agora alguns dólares por barril de petróleo iraniano, e o acesso aos EUA, ao dólar e aos mercados financeiros internacionais.
Um banco egípcio e outro turco já descobriram que isto é a sério, mas existe um elefante bastante volumoso na sala: a China!
A China compra petróleo iraniano barato, fornece produtos industriais, permite pagamentos em renminbi e tem bancos, refinarias e empresas com baixa exposição ao sistema financeiro americano.
Enquanto Washington sancionar apenas estas, Pequim adapta-se. Fecha uma empresa, abre outra. Muda-se o intermediário, altera-se a factura, troca-se o nome do navio.
Mas se os EUA decidirem atingir um grande banco estatal chinês, tudo muda.
É relativamente simples ameaçar um negociante de petróleo em Shandong. É mais complicado expulsar um gigante bancário chinês do sistema do dólar sem provocar efeitos em cadeia nos mercados internacionais.
É aqui que se fará o teste decisivo da Economic Outcast.
A operação será uma estratégia séria se conseguir obrigar bancos, refinarias, seguradoras e comerciantes chineses a escolher entre o Irão e o sistema económico americano.
Se Washington recuar perante a possibilidade de atingir interesses financeiros chineses importantes, Teerão descobrirá rapidamente que se trata de bluff e tudo ficará como dantes, quartel-general em Abrantes.
Washington pretende alcançar um acordo, o enfraquecimento permanente do Irão, ou o colapso do regime?
Se é um acordo, terá de oferecer uma saída que Teerão possa apresentar internamente sem parecer uma capitulação, porque dificilmente o regime assinará voluntariamente uma “Confissão formal de derrota dos gloriosos herdeiros de Khomeini”.
Para obter concessões sobre o programa nuclear, mísseis, Ormuz ou apoio aos proxies, Washington poderá ter de combinar pressão militar com incentivos, garantias ou concessões recíprocas.
Um regime que acredita que a rendição corresponde ao seu desaparecimento tende a preferir a resistência. Sobretudo quando quem decide resistir não é normalmente quem passa fome.
Mas se Washington concluir que não existe acordo aceitável, então tudo muda.
Nesse caso, o objectivo passa a ser reduzir receitas, destruir capacidade militar, degradar os serviços de segurança, enfraquecer a Guarda Revolucionária, cortar financiamento às milícias e tornar progressivamente impossível ao regime comprar a fidelidade de quem o mantém de pé.
Pode funcionar, mas leva tempo, e os iranianos sabem que Trump detesta guerras longas, baixas americanas, petróleo caro e sobretudo perder eleições.
Os generais de Teerão sabem também que as democracias vivem ao ritmo das sondagens, eleições e mercados financeiros, enquanto por lá eles podem mandar prender as sondagens, forjar as eleições e macaquear o mercado financeiro. Se concluírem que basta resistir mais seis meses do que Washington, tentarão fazê-lo.
A questão é saber se o dinheiro chegará e aqui surge o paradoxo mais perigoso: as sanções podem resultar demasiado bem.
Imagine-se a liderança da Guarda Revolucionária com receitas e reservas cambiais em queda, fornecedores em fuga, milícias sem dinheiro, instalações destruídas e oficiais superiores a suspeitar que a República Islâmica talvez não seja eterna, apesar do que lhes disseram no último Ramadão.
Essa liderança pode fugir para trás ou para a frente, mas os regimes fanáticos cercados possuem uma predilecção histórica pela segunda.
Se acreditarem que o fim se aproxima, podem decidir aumentar brutalmente o preço que os adversários terão de pagar.
O Irão ainda tem mísseis e drones capazes de atingir infra-estruturas críticas em grande parte do Médio Oriente. A equação é simples: se vão destruir a nossa economia, destruiremos um bocadinho da vossa.
Ataques massivos contra Emirados, Arábia Saudita ou Qatar poderiam provocar aumentos súbitos do petróleo, elevar dramaticamente os seguros marítimos e transformar aliados de Washington em fervorosos defensores da “desescalada”.
Seria desesperado, mas não necessariamente irracional.
Para generais que sentem a aproximação do fim do regime e do seu próprio, gastar o arsenal restante em apostas desesperadas pode parecer preferível a aguardar educadamente que Bessent lhes feche a conta bancária.
Ou seja, quanto mais eficaz for o garrote financeiro, mais perigoso poderá tornar-se o período imediatamente anterior a um acordo ou a um colapso. É aliás o que se está já a passar.
Washington terá, portanto, de apertar e simultaneamente preparar-se para morder e ser mordido.
Na melhor das hipóteses esta guerra poderá terminar, não com um míssil a cair sobre Teerão, nem com aquele porta-voz empolgado a anunciar mais uma vitória esmagadora do Islão sobre o Grande Satã, mas num banco em Shenzhen, onde o gerente recebe uma ordem de transferência associada ao Irão, olha para as sanções americanas, olha para o acesso do seu banco ao dólar, liga ao Comité Central e recusa.
Os filhos de Khomeini sobreviveram a manifestações, atentados, revoltas, sanções, bombardeamentos, decapitações de líderes, e funerais suficientes para encher décadas de propaganda épico-religiosa.
Agora enfrentam, não o heroico martírio na Grande Jihad, mas a prosaica doença que fez definhar e a matar a URSS, quando Reagan se lhe plantou à frente:
— A falta de dinheiro!