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Cinquenta anos depois, Xi Jinping procura manter viva a imagem "do tipo certo de Mao"

Mao Tsé-Tung morreu há 50 anos. Numa China onde metade da população nasceu depois desse evento, Mao torna-se popular entre os jovens — e Xi procura um equilíbrio para lidar com o seu legado.

Cátia Bruno
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Às 4h da tarde, a mensagem foi transmitida nos altifalantes espalhados por todas as ruas da China: Mao Tsé-Tung, “o grande e amado líder do nosso Partido, do nosso Exército e das pessoas de todas as etnias no nosso passado, o grande líder do proletariado internacional e dos povos oprimidos”, tinha morrido. Estávamos a 9 de setembro de 1976 e a China absorvia a notícia da morte do seu líder.

Com Mao, a China assistiu à ascensão do Partido Comunista (PCC) e à unificação de praticamente todo o território (com exceção de Taiwan). Mas, ao longo dos últimos 25 anos anteriores, o país também foi marcado pela violência do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural, que levaram à morte de dezenas de milhões (40 a 70, segundo as estimativas) — mais do que o número de mortes causadas por Hitler e Estaline juntos.

No funeral, os mesmos altifalantes que anunciaram a morte de Mao passaram a Internacional. Mais de duas mil pessoas reuniram-se na Praça de Tiananmen, algumas em lágrimas, para o último adeus ao Grande Timoneiro. “Alguns soluçavam convulsivamente, outros choravam copiosamente e havia quem tivesse acessos de soluços como se fosse sufocar”, recorda o escritor Yu Hua no seu livro China em Dez Palavras (ed. Relógio d’Água). “Nunca tinha ouvido tal cacofonia.”

https://www.youtube.com/watch?v=raZmROeAo1o

Daí para a frente, a Constituição chinesa passou a incluir o seguinte parágrafo: “Mao Tsé-Tung, o principal representante do Partido, criou o Pensamento de Mao Tsé-Tung, que se provou através da prática ser correto e no qual o Partido Comunista se baseou para desenvolver o sistema básico do socialismo, economicamente, politicamente e culturalmente, após a fundação da República Popular.”

Cinquenta anos depois, centenas reuniram-se esta quarta-feira em vários pontos da China para prestar homenagem ao líder. As celebrações, porém, foram mais tímidas do que outras do passado. Um sinal da ambiguidade com que o Partido, liderado por Xi Jinping, encara atualmente o legado do Grande Timoneiro. Numa altura em que os jovens redescobrem Mao e a sua popularidade recrudesce entre alguns, as autoridades chinesas continuam a fazer um ato de equilibrismo, inspirando-se em alguns dos pensamentos do antigo líder, mas reconhecendo-lhe alguns “erros”, numa tentativa de impedir o crescimento das franjas neo-maoístas — não vão elas ameaçar os atuais poderes.

Perante o desemprego, jovens veem Mao “com lentes cor de rosa”

O consenso é nacional. Uma sondagem divulgada pelo Global Times (jornal próximo do PCC) em 2013 dava conta de que mais de 85% dos inquiridos consideravam que os feitos de Mao eram maiores do que os seus erros. Mais de dez anos depois, o cenário não terá mudado muito. Entre as gerações mais velhas, muitos continuam a admirar Mao. E para os que nasceram entretanto (metade da população chinesa nasceu após a morte do líder), o Grande Timoneiro é cada vez mais uma figura mítica que ganha relevância no contexto atual das suas vidas.

“Não interessa se se é novo ou velho”, partilha com o Observador o historiador especialista na China Kerry Brown. “Ele é o símbolo de uma China forte e poderosa que era respeitada. Mao Tsé-Tung encaixa-se na atual narrativa do Partido como uma pessoa que começou a tornar ‘a China grandiosa outra vez’. A China é agora forte geopoliticamente e Mao é considerado uma parte integral dessa história. Admirado pela maioria dos chineses no espírito de nacionalismo e populismo que existe na China de hoje em dia. Tem um capital simbólico e a iconografia do seu período continua a ser potente.”

Em páginas da internet, muitos elogiam o pensamento do “Professor”, como lhe chamam. Nas universidades, os empréstimos do pequeno “Livro Vermelho” — cujo título oficial é “As obras selecionadas de Mao Tsé-Tung” — são cada vez mais frequentes. Uma avaliação do académico Yinhao Zhang dá conta de que, em 2024, o livro era o mais requisitado nas quatro melhores universidades do país. Em 2021, o New York Times descrevia como circulavam agora online “fotos de jovens vestidos com roupa da moda a ler os seus livros no metro, em aeroportos e em cafés”.

“Os jovens enfrentam muitos desafios na China de hoje. Eles nunca viveram o período de Mao e não compreendem o que aquilo foi. Não é surpreendente que eles o vejam de certa forma, refletido através do prisma das suas preocupações atuais. Eles veem-no com lentes cor de rosa”, resume ao Observador Joseph Toringian, sinólogo do think tank Conselho para as Relações Internacionais.

O contexto é de um crescente desemprego jovem — em julho, estava nos 17,9%. O número de recém-licenciados é cada vez maior e a economia não tem capacidade para absorver toda a mão de obra, sobretudo numa sociedade onde a Inteligência Artificial ganha cada vez mais preponderância. A título de exemplo, olhemos para o caso de Jasmine, revelado pelo The Guardian em julho: licenciada em Contabilidade, já enviou mais de 150 currículos desde que acabou o curso, mas não conseguiu ainda ser contratada.

Perante esta realidade, os jovens chineses olham para o pensamento de Mao como uma inspiração para os tempos que vivem. “A abordagem dialética de Mao serve de manual prático para navegar os ambientes profissionais. Para alguns jovens, a filosofia de determinação permanente de Mao e o inevitável triunfo através da resistência dão um reforço psicológico”, nota Yinhao Zhang. “O passado modesto de Mao e a sua tumultuosa história de vida — de humilde professor a alguém que ultrapassou frequentes dificuldades militares e políticas — é um enquadramento que legitima a luta como um aspeto normal e, em última análise, algo que torna a sua vida superável.”

“Há uma espécie de nostalgia por uma sociedade que as pessoas acham que era mais simples e direta. Uma sociedade que, como alguém disse, as pessoas eram mais iguais, mesmo que partilhassem uma fatia igual de nada. Hoje em dia, há mais desigualdade, [a China] é uma sociedade mais complexa”, aponta o professor Brown.

Xi Jinping, “um pecador poupado por Mao”

Mas Joseph Toringian aponta para o desconhecimento do legado mais negro de Mao: “Ele não é parte da memória viva”, diz. “O Mao que encontramos na China é um Mao censurado, (…) é um Mao seletivo. No estrangeiro é possível encontrar o Mao real, mas essa não é uma realidade bem-vinda na China.”

A fome provocada pela industrialização forçada do Grande Salto em Frente caiu na obscuridade, apesar da sua violência. O historiador Frank Dikötter recorda como “pais foram forçados a enterrar vivos os seus filhos” e como “as pessoas eram forçadas a trabalhar nuas no meio do inverno”. Mao Tsé-Tung proclamou friamente que “metade da China pode ter de morrer”. Falar desse período é, atualmente, um completo tabu.

As memórias da Revolução Cultural, em que os estudantes dos Guardas Vermelhos aterrorizaram professores e elites, estão mais vivas. “Rapavam a cabeça a alguns dos acusados, enquanto a outros era feito o chamado corte de cabelo yin e yang, em que só metade da cabeça era tosquiada. Alguns eram expostos ao calor do verão durante horas. Em Xiamen, alguns foram forçados a ajoelhar-se sobre vidros partidos”, recorda Dikötter na sua obra The Cultural Revolution: A People’s History (sem edição em português).

“A maioria destes métodos de tortura já tinham sido usados frequentemente nas classes inimigas desde a libertação e mais recentemente durante a Campanha de Educação Socialista. Mas um era novo: a chamada posição do avião — em que se é forçado a ficar num ângulo de 90 graus, com os braços puxados para trás —, aperfeiçoada por Wang Guangmei dois anos antes. Nos campus da província de Fujian, dezenas morreram e suicidaram-se depois de serem atormentados por estudantes.”

A jornalista Tania Branigan conta em Memória Vermelha (Bertrand Editora) o caso aterrorizante de uma aluna, Bian, espancada até à morte enquanto era obrigada a limpar casas de banho. Quando a notícia da sua morte foi dada na escola, “houve um curto silêncio na sala de aula e alguém mudou o assunto, ‘como se Bian tivesse sido um sonho e ela ter sido espancada até à morte não era nada de especial, nem valia a pena discuti-lo’.”

Hoje em dia, a Revolução Cultural mal é abordada na escola. E os que têm idade para se lembrar dela, preferem não falar. “Trazer ao de cima o trauma é em si mesmo um trauma”, aponta Toringian. “Há muitos segredos nas famílias chinesas.”

Um chinês, porém, já falou publicamente sobre a sua experiência durante esse período. Xi Jinping sentiu o impacto da Revolução Cultural na pele. O seu pai, Xi Zhongxun, era um membro destacado do Partido que foi purgado pelo próprio Mao. Uma das suas irmãs enforcou-se, resultado da perseguição de que foi vítima.

O próprio Xi foi considerado um “inimigo de classe” e sujeito a uma sessão pública de humilhação, onde foi obrigado a adotar a posição do avião. A sua mãe, que assistia na audiência, gritou juntamente com os restantes “Abaixo Xi Jinping”, provavelmente demasiado assustada pelo que poderia acontecer se não o fizesse. Aos 15 anos, Xi foi enviado para viver com camponeses numa aldeia, onde morou numa gruta.

O Presidente chinês recorda essa experiência como algo que o fez amadurecer e, surpreendentemente, reforçar a sua fé no Partido. “Quando cheguei aos 15 anos, estava ansioso e confuso. Quando saí, aos 22, os meus objetivos de vida estavam firmes e eu estava cheio de confiança.” Apesar da violência que viveu, foi precisamente essa experiência que o fez dedicar-se mais ao PCC: “Levou-o a duvidar, mas ele decidiu no entanto que só o Partido podia salvar a China”, resume Joseph Toringian, que é também autor do livro Os Interesses do Partido em Primeiro Lugar: A Vida de Xi Zhongxun, Pai de Xi Jinping (sem edição em português).

Kerry Brown explica como, contraintuitivamente, esse passado tornou Xi mais devoto de Mao Tsé-Tung: “Ele via Mao como misericordioso. Era uma figura quase divina, alguém que, apesar de tudo, poupou a sua família. Ele tentou juntar-se ao partido dez vezes e, à décima, teve sorte. Acho que Xi Jinping sente que era um pecador que foi poupado por Mao e que chegou ao poder por causa de Mao. É uma psicologia complexa.”

Deng Xiaoping cristalizou a posição do PCC face a Mao no início dos anos 80: “É verdade que o Camarada Mao Tsé-Tung cometeu erros graves durante a Revolução Cultural, mas, analisando a globalidade da sua ação, os contributos que deu para a revolução chinesa superam em muito os erros cometidos. Os seus méritos são manifestamente superiores às suas falhas”. O Partido mede essa distribuição como tendo Mao acertado 70% e falhado 30%.

Com a chegada de Xi Jinping ao poder, esse jogo de elogio e crítica ao Grande Timoneiro tem sido repetido. “Não podemos adorá-los como deuses ou recusar às pessoas que apontem e corrijam esses erros só porque eles foram grandes”, já declarou o atual Presidente chinês sobre os líderes desse período. “Também não podemos repudiá-los totalmente e apagar os seus feitos históricos só porque cometeram erros.”

Um devoto do Partido como Xi entende que abrir a porta à crítica de Mao pode significar pôr em causa o próprio PCC. “Ele quer que as pessoas sofram pelo Partido. Quem quer uma vida com significado, deve juntar-se ao Partido”, nota Joseph Toringian. E se se começar a falar dos erros colossais, quem é que se vai sacrificar por uma organização dessas?”

Por outro lado, também é perigoso alimentar a nostalgia por um líder socialista cujas ideias podem pôr em causa o sistema económico atual: “Xi reconhece os dois perigos. O perigo de [os chineses] se preocuparem demasiado com a ideologia e o perigo de não se preocuparem o suficiente com ela”, diz o académico.

O perigo que os neo-maoístas representam para o Partido

Na verdade, é difícil conciliar a ideologia socialista de Mao com a economia capitalista da China atual. E Xi não quer mudar de rumo, como se viu pelo saneamento do político Bo Xilai, que foi preso em 2013, e que representava a corrente neo-maoísta. Outros como ele existem e a corrente está viva dentro do Partido. Em 2016, o Financial Times escrevia que “vários especialistas acreditam que um candidato neo-maoísta provavelmente ganharia umas eleições na China de hoje, se as eleições livres fossem permitidas”.

Os neo-maoístas elogiam Xi Jinping pelas suas campanhas anticorrupção, mas consideram que o Partido está dominado pelos “direitistas” que promovem uma economia de mercado. Nostálgicos pelo socialismo de Mao Tsé-Tung, representam uma ameaça ao sistema como ele existe atualmente.

“Mao ainda é um líder radical e perigoso. Por isso, o Partido quer ‘o tipo certo de Mao’. Não o querem demasiado forte nem demasiado fraco. Querem que seja uma figura simbólica, respeitada, mas não querem o tipo de luta de classes a que ele está associado”, resume Kerry Brown. “Por isso, aqueles que são demasiado maoístas podem ter problemas.”

Toringian diz que, na China de hoje, é possível estar “à esquerda de Xi Jinping”. “E esses, os que agitam a bandeira de Mao, são os mais perigosos [para o PCC]”. O Partido ainda hoje persegue os que criticam ou ridicularizam o Grande Timoneiro, ao mesmo tempo que prende membros de grupos neo-maoístas.

Joseph Toringian defende que Xi Jinping é perito nesse tipo de equilibrismo. “Na cabeça dele, está a fazer coisas para impedir uma nova Revolução Cultural. Mas, ao mesmo tempo, quer levar as pessoas a acreditar que tem qualidades semelhantes às de Mao e está a trazer de volta algumas das tradições terríveis que pensávamos terem desaparecido.”

Certo é que, cinquenta anos depois, a China ainda olha para Mao Tsé-Tung com admiração. “As pessoas só recordam as coisas positivas porque, na sua vida diária, há coisas duras a acontecer. E também há um aspeto humano, ninguém quer pensar no seu país como um lugar onde aconteceram coisas terríveis”, nota o especialista. “Rejeitá-lo seria rejeitar muito do significado das suas próprias vidas: seria rejeitar ser chinês.”

*Artigo atualizado para corrigir o número de anos que passou desde a morte de Mao Tsé-Tung: são 50 e não 40.