A próxima eleição geral no Brasil promete reconfigurar o espaço à esquerda e/ou à direita, a depender do resultado. Nada ficará igual. A vitória de Lula irá inevitavelmente acelerar uma revolução já evidente em curso no espaço da direita. A vitória de Bolsonaro demonstrará um esgotamento da imagem de Lula que não tem sucessor minimamente competitivo à vista. Contudo, para esta eleição, é justo falar em esquerda e direita? É justo falar numa esquerda e numa direita? E que tal um caminho de terceira via de paz e amor que vai resolver todos os problemas do mundo?
A postura de um dos candidatos vai respondendo às perguntas. É no mínimo curioso que dentro do Partido Missão (recém-criado) e da candidatura de Renan Santos se tenha abandonado rapidamente o rótulo de terceira via. O conceito de “terceira via” pode não ser claro. Uma candidatura de terceira via recusa o rótulo de esquerda e direita para evitar associações simples a Lula ou Bolsonaro. A postura do Missão é clara: de direita, mas sem Bolsonaro. Mesmo que o rótulo de terceira via seja aplicado numa entrevista, prontamente é corrigido pelo candidato presidencial ou afetos ao partido. É um rótulo perdedor. O sistema maioritário tende sempre a afunilar a corrida a dois inevitavelmente, mesmo que a duas voltas. Talvez em 2022 tenha sido o auge dessa polarização. Ao mesmo tempo, reduzir a corrida a dois nomes este ano não faz sentido. Explico:
O Missão procura assumir a “verdadeira direita” que Bolsonaro teria deixado cair. Isto significa que, atualmente, não há slogans de “Nem Lula, nem Bolsonaro”, “Nem Esquerda, Nem Direita” ou algo como “vamos todos evitar esta polarização que assola deprimentemente o nosso ambiente democrático”. Essa é a incorporação dos 2% dos votos no primeiro turno. Um espírito que alguns candidatos assumiram na eleição de 2022 e que protagonizou uma diferença de quase quarenta pontos percentuais entre o segundo e o terceiro colocado. O leitor dirá que há circunstâncias próprias da eleição que levaram a este resultado e eu concordo, mas não deixa de ser significativo. Mais uma vez, uma postura perdedora que Eduardo Leite estava preparado para assumir nesta eleição, não tivesse o PSD optado por Ronaldo Caiado.
O primeiro slogan que mencionei acima foi precisamente próximo do MBL (Partido Missão) em 2022. A posição pode ser a rejeição de ambos os polos, mas a solução não é a criação de um novo. Objetivamente, na minha visão e os próprios deixam isso claro, o intuito de Renan é ocupar o espaço à direita hoje maioritariamente ocupado pelo “Bolsonarismo”. Atenção: ocupar o espaço não pela via da moderação no discurso, mas pela radicalização e completa rejeição de que a moderação seja o caminho para o sucesso, espelhando-se em vitórias no mesmo continente. Curiosamente, essa é a opção de Flávio Bolsonaro que se autoproclama um Bolsonaro moderado, embora as declarações contra o crime organizado tenham enrijecido nas últimas semanas. A polarização atual, não só no Brasil, não permite um “João Amoedo”, embora eu lhe reconheça o seu valor político e seja solidário com a perseguição e assalto no partido que o próprio fundou.
Das restantes candidaturas é difícil perceber um cenário em que possam surpreender e, desta forma, assumir essa terceira via ou ambicionar ocupar um dos polos. Caiado tem uma boa aprovação no estado de Goiás, mas não entusiasma. Ficou-me na memória a sua entrevista recente à TV Globo em que é perguntado sobre a possível reforma da Previdência e a sua insustentabilidade, e Caiado deslizou, recusando-se a entrar em detalhes. A resposta a essa pergunta foi algo constrangedora recorrendo rapidamente a jargões que a equipa de marketing lhe terá preparado. Romeu Zema é uma candidatura satélite de Flávio que eu tenho dúvidas que vá até ao fim, sinceramente. A candidatura do coach Pablo Marçal não deverá ser aprovada pelo TSE, embora a sua aprovação adicionasse algum “sal” a uma eleição já encaminhada. Augusto Cury cresce nos últimos dias, mas não é claro até onde irá, nem quão sustentável é esse crescimento; um caso para acompanhar. As restantes candidaturas são irrelevantes. No entanto, estou curioso para perceber a adesão à candidatura de Samara Martins do UP. Uma candidatura de um grupo de esquerda radical bem implementado em algumas faculdades do país. Com Lula a ocupar hegemonicamente todo o campo da esquerda, será interessante perceber qual o nível de adesão a uma corrente ideológica que cresce cada vez mais no país.
Assim sendo, tudo indica o fim de um ciclo para um dos polos. O mais evidente é o do Bolsonarismo que, com a principal figura encarcerada e sem permissão para qualquer tipo de aparição pública, terá uma guerra interna com a ascensão de figuras eminentes ou até mesmo a reconfiguração do espaço à direita rejeitando o legado de Jair. A terceira via que existir não será um terceiro polo. Será sim um que inevitavelmente irá ocupar um dos já existentes.