A decisão de subir as taxas de juro para 2,5%, anunciada e confirmada nesta quinta-feira, não surpreendeu ninguém. Mas a forma como o comunicado do BCE enquadrou essa decisão, e as explicações dadas por Christine Lagarde, fizeram com que os investidores e analistas ficassem ainda mais convencidos de que dificilmente esta terá sido a última subida deste ciclo. Uma inflação demasiado alta por um período de tempo demasiado longo deverá forçar a mão do BCE, que já deu um sinal claro de que poderá apertar mais a política monetária se os preços da energia continuarem elevados.
No comunicado oficial, pode ler-se que, na opinião do BCE, “o conflito no Médio Oriente continua a gerar pressões inflacionistas, e a inflação deverá manter-se muito acima do objetivo durante um período prolongado”. Essa foi a frase-chave do comunicado, que levou até os analistas que achavam que não haveria mais subidas de juros a colocarem a viola no saco – é o caso de Jörg Krämer, do Commerzbank, que passou a prever mais uma subida em dezembro.
“Decidimos aproveitar este importante sinal [a formulação do comunicado] como uma oportunidade para rever a nossa previsão“, admitiu o especialista, acrescentando: “esperamos agora um aumento de 25 pontos base na taxa de juro diretora na reunião de dezembro”.
Porém, mesmo admitindo mais uma subida em dezembro, este analista não acredita que as taxas de juro possam subir mais três vezes nos próximos 12 meses – que foi a projeção que se consolidou nos mercados de futuros de taxas de juro à medida que Christine Lagarde falava. “Ao contrário do que indicam os mercados de futuros, porém, não prevemos dois novos aumentos das taxas de juro no próximo ano”, afirma Jörg Krämer, confiante de que “o conflito entre os EUA e o Irão irá provavelmente diminuir gradualmente ao longo dos meses de inverno, o que deverá levar a uma descida da inflação após a viragem do ano”.
Futuros da Euribor preveem mais subidas: taxa a 12 meses pode subir até 3,6%
Esta é a (nova) previsão do Commerzbank: o BCE ainda sobe os juros mais uma vez, perto do Natal, mas depois fica-se por aí. É essa, também, a previsão de vários outros bancos de investimento. Mas a realidade é que, nos mercados financeiros, consolidou-se a expectativa de que poderá haver mais subidas: uma ainda este ano e as tais duas subidas adicionais ao longo de 2027, até outubro desse ano.
A confirmar-se, isso significaria que a taxa de juro ascenderia aos 3,25%. E é à boleia dessa projeção dos mercados de futuros de taxas de juro que também os contratos futuros da Euribor passaram nesta quinta-feira a apontar para indexantes de crédito mais elevados. Se até quarta-feira esses indicadores de mercados apontaram para uma Euribor a 12 meses perto dos 3,4%, nesta quinta-feira a expectativa deslocou-se para um nível ainda mais elevado: 3,6%, ao longo do próximo ano.

Um dado que suporta a previsão de mais aumentos de juros é que, embora Lagarde tenha reconhecido que os riscos na economia pendem para o lado negativo (ou seja, é mais provável que o crescimento seja inferior ao esperado do que superior ao esperado), ficou claro na apresentação que o BCE considera que a economia europeia teve e continua a mostrar uma “resiliência” surpreendente.
A projeção base para o crescimento económico na zona euro é de 0,9% para 2026, 1,4% para 2027 e 1,5% para 2028, o que “é uma revisão em alta tanto para 2026 como para 2027, refletindo principalmente a resiliência superior à esperada da economia da zona euro”, afirmou o BCE.
Bas van Geffen, analista do holandês Rabobank, comenta que “as previsões mais positivas para a economia dão ao BCE alguma margem de manobra para mais subidas da taxa de juro”. Porém, o especialista salienta que “o BCE está agora no topo do intervalo daquilo que se pode considerar ‘taxas de juro neutrais'”, ou seja, um nível de juros que nem estimula nem restringe ativamente a atividade económica. Mas mais subidas elevarão a taxa de juro para níveis que já não se poderão considerar “neutrais”, pelo que “essa decisão implicará uma ponderação dos riscos que a economia da zona euro enfrenta”.
“Acreditamos que o BCE irá, portanto, ser cauteloso com eventuais subidas adicionais dos juros, aumentando as taxas apenas se for mesmo necessário“, antecipa Bas van Geffen, do Rabobank. Um ponto muito importante é que Lagarde disse que, “para já”, não está a verificar-se um aumento demasiado veloz dos salários, o que poderia ser um “efeito de segunda ordem” que indicaria que as pressões inflacionistas estariam a enraizar-se na economia.
Durante a conferência de imprensa, Christine Lagarde foi questionada sobre o facto de os mercados estarem a prever mais três subidas adicionais de juros: uma em dezembro e mais duas ao longo de 2027. A francesa repetiu uma resposta que já tinha dado noutra ocasião, a uma pergunta semelhante, e afirmou que “os mercados fazem aquilo que têm de fazer, nós [no BCE] fazemos aquilo que temos de fazer“.
Sendo uma resposta relativamente lacónica, e não tendo Lagarde sinalizado minimamente que as expectativas dos mercados poderiam estar a ser exageradas, a negociação dos contratos futuros de taxas de juro manteve-se firme naquela previsão. Já depois da reunião, porém, “fontes do BCE” disseram à Bloomberg que é verdade que poderá ser necessário subir mais vezes os juros, mas as três subidas que estão a ser previstas podem ser um exagero.
Inflação pode superar os 5% no cenário mais grave
Apesar dessas “fugas” de informação para a imprensa, após o final da conferência de Lagarde, os mercados financeiros mantiveram as expectativas de várias subidas de juros porque, ao mesmo tempo, o BCE divulgou os detalhes das novas projeções macroeconómicas. E ficou-se a saber que, num cenário mais grave do que o cenário central, a taxa de inflação poderá ultrapassar largamente os 5% – o que obrigaria, certamente, o BCE a agir de forma mais agressiva, tal como aconteceu em 2022/2023.

De acordo com as novas previsões do BCE, a inflação mantém-se inalterada em 3% este ano, tal como já se previa. Porém, para 2027 e 2028, a previsão da inflação foi revista em alta, para 2,5% e 2,1%, respetivamente. Essa foi uma das principais razões que terão levado os mercados financeiros a prever mais subidas de juros – e há outro fator: mesmo no chamado “cenário adverso” (que não é o mais grave de todos) só em 2028 é que a inflação voltaria a aproximar-se do objetivo de 2%.
É por isso que Carsten Brzeski, economista-chefe do banco holandês ING, confessa que ficou com um “sabor amargo” na boca após a conferência de imprensa desta quinta-feira, no sentido em que ficou no ar a ideia de que é mesmo provável que as taxas de juro subam mais. Num contexto de problemas nas finanças públicas de vários países e da “subida vertiginosa” das taxas de juro das obrigações, “custa a crer que o BCE está realmente disposto a deitar mais achas para a fogueira“.
Por outras palavras, “é difícil imaginar que o BCE esteja disposto a arriscar uma recessão para lidar com o que é ainda um choque de oferta clássico” com origem nos preços da energia. Porém, diz Carsten Brzeski, “é verdade que o BCE já cometeu erros de política monetária no passado“.
Lagarde pode sair antes do fim do mandato? "Não há nada a reportar a esse respeito"
Questionada na conferência de imprensa acerca das notícias frequentes sobre a possibilidade de a francesa sair do BCE, antes do final do mandato, para o Fórum Económico Mundial, Lagarde manteve-se lacónica.
“Quando houver algo a reportar sobre o meu futuro pessoal, quando houver, vocês serão os primeiros a saber – só, talvez, depois dos meus netos“, afirmou Lagarde, dirigindo-se aos jornalistas. Porém, sublinhou que “não há nada a reportar” a esse respeito.