Foi protagonista da consulta pública mais participada numa avaliação de impacte ambiental, com 12 mil participações, e tornou-se num símbolo da contestação das populações locais contra os grandes parques fotovoltaicos que estão a nascer um pouco por todo o país. A central Sophia prevista para três concelhos da Beira Baixa seria chumbada na configuração inicial que foi proposta em fase de estudo prévio, o que levou o promotor a recorrer ao direito legal de suspender o processo de avaliação de forma a reajustar o projeto.
A Lightsource BP promete agora uma reformulação significativa que resultou num “projeto muito diferente” do inicial e que é a consequência de “termos ouvido mais as pessoas e termos redobrado os esforços nesse processo de escuta. Estivemos todos os dias no terreno”, referiu o diretor-geral da empresa em Portugal. Miguel Lobo revelou as alterações introduzidas numa apresentação aos jornalistas.
A mais significativa é um corte na dimensão da Sophia, que era uma das centrais solares de maior dimensão propostas para Portugal. A potência é reduzida em 34% para 573 megawatts, a área de instalação dos painéis encolhe 35% para 258 hectares, a que corresponde uma redução da área vedada de 32% para 1.178 hectares, e é eliminada uma das linhas de muito alta tensão para ligação à rede de transporte, ficando apenas uma com extensão de 22 quilómetros.
Mais do que tirar dimensão ao projeto, os responsáveis pela central reorganizaram a sua distribuição no território para poupar áreas mais sensíveis do ponto de vista ambiental, social e paisagístico, tentando ir ao encontro das principais reclamações feitas durante a consulta pública. Colocam em cima da mesa um pacote de benefícios e compensações locais e deixam cair outro projeto fotovoltaico que tinham para a mesma região — a central Beira — cuja reformulação necessária para superar os entraves ambientais não foi considerada viável.
https://observador.pt/2026/05/18/apa-divulga-pareceres-negativos-as-mega-centrais-solares-sophia-e-beira-promotores-mudam-projetos-para-evitar-chumbo/
Os painéis solares passam a ficar concentrados nos concelhos de Penamacor e Idanha-a-Nova, mas com menos área ocupada do que o inicialmente planeado, e o Fundão será atravessado pela linha de muito alta tensão que ligará o parque à subestação da REN. A área a ocupar é reduzida nos três concelhos.
O antes e o depois da implantação do projeto no território
A redução da potência permitiu diminuir outros impactes pela forma como os painéis serão distribuídos no território, com uma diminuição da área de cada núcleo — o maior será de 50 hectares, o que equivale a 25 megawatts. Foi ampliada a distância face a áreas sensíveis, como o dormitório do abutre negro e povoações, e reduzido o impacte em terrenos ocupados por azinheiros, com a consequente redução do abate de árvores de grande dimensão. Segundo explicou Pedro Fernandes, diretor de planeamento ambiental da Lightsource BP, o eucalipto será a espécie mais afetada pelo projeto, mas trata-se de um povoamento em fim do ciclo de exploração.
Está prevista a manutenção de corredores ecológicos entre os painéis e programas de incentivo ao pastoreio e a instalação de cortinas arbóreas para reduzir o impacto visual. O número de árvores a plantar como medida de compensação foi revisto em alta para 39 mil, o que está muito acima do previsto na lei. E houve a preocupação de evitar áreas da rede natura, reserva agrícola nacional e habitats sensíveis, com a eliminação de uma zona de carvalho negral, bem como núcleos populacionais — Mata da Rainha no concelho do Fundão.
“O que vamos ganhar com isso?” Promotor propõe luz mais barata para locais e banco de ovelhas merinas
Este conjunto de alterações é “quase uma cocriação do projeto” nas palavras de Paulo Pinto, responsável pelas comunidades locais do promotor, e visa responder às principais preocupações manifestadas. Não só na consulta pública, mas também nos contactos no terreno com organizações locais, juntas de freguesia e população. Entre as queixas e receios estão os impactos no ambiente e na ocupação de solo agrícola e no aumento da temperatura — os responsáveis da Lightsource BP dizem que os estudos feitos não demonstram a existência de uma relação direta entre a presença de painéis fotovoltaicos e a subida da temperatura nesses locais. Mas uma das dúvidas mais recorrentes era — “o que vamos ganhar com isso?”
Esse é outro dos fios condutores da nova Sophia, que vem acompanhada de um pacote de 10 iniciativas de impacto local avaliadas em 20 milhões de euros (verba para os 40 anos de exploração do parque), além das compensações financeiras legalmente previstas para os municípios — 5,6 milhões de euros do Fundo Ambiental e 630 mil euros do promotor.
Entre os mais relevantes está um programa de luz partilhada que oferece aos habitantes e entidades das freguesias diretamente impactadas eletricidade mais barata proporcionada pela instalação de pequenos parques solares locais com baterias (para assegurar o fornecimento no período noturno). O programa orçado em um milhão de euros promete poupanças na fatura que começam em mais de 30% e podem chegar aos 45%.
A iniciativa mais avultada em valor — oito milhões de euros — é o fundo de investimento social local para financiar organizações e iniciativas locais. Há medidas mais ambiciosas, como um programa para incentivar o pastoreio e a produção de mel no espaço do parque solar, com especial atenção para uma espécie ovina da região que tem vindo a perder relevância — a ovelha de raça merina da Beira Baixa que produz um queijo premiado. Este plano, de 1,8 milhões de euros, está a ser trabalhado em parceria com um parceiro que já promove o pastoreio rotativo em parques no Alentejo, e passa pela criação de um banco de cabeças de merino com centros de maneio para mais de 500 animais e pastoreio no parque para 2.000 animais. E inclui incentivos para jovens agricultores.
A criação de um banco de energia para combater a pobreza energética, apoios aos bombeiros, promoção de empregos qualificados ligados à sustentabilidade e de programas turísticos fazem parte do pacote que inclui ainda um projeto para promover pontos de atração através do envolvimento de 25 jovens influencers.
O diretor-geral da Lightsource BP rejeita a ideia de que a empresa só está a pôr agora em cima da mesa estes benefícios para tentar ultrapassar a forte rejeição local. Miguel Lobo defende que a sua existência sempre esteve prevista, mas foi decidido antecipar o calendário da sua apresentação. Sublinha também que estes projetos “não fazem sentido para o território se não partilharmos os benefícios para quem lá vive”.
Construção não arranca antes de 2029
O promotor explica ainda que o redesenho da central que tanta oposição suscitou é mais um passo de um caminho que demora alguns anos até ao início da construção. Mesmo que agora o processo corra sem obstáculos, a central solar Sophia terá de passar por outras etapas antes de se iniciar a construção, que nesse pressuposto arrancaria em 2029 para iniciar a produção em 2031. E diz que vai manter o diálogo com as comunidades locais.
Falta a declaração de impacte ambiental que, se for favorável, terá certamente condicionantes e medidas de mitigação, e o RECAPE (relatório de conformidade ambiental do projeto de execução). O projeto irá mobilizar 500 empregos durante a construção e 15 postos de trabalho na fase de exploração.
O diretor-geral confia que a reconfiguração agora introduzida é compatível com a viabilidade económica da central. Até porque o investimento será inferior aos 590 milhões de euros associados ao projeto inicial, dado o redimensionamento. “O projeto tem muita qualidade, está fora de povoamentos, de áreas de REN (reserva ecológica) e de RAN (reserva agrícola). Vamos usar solo pobre no qual 70% da ocupação é eucalipto. Fizemos um esforço para reduzir uma linha elétrica e alinhamos a que vamos fazer com uma já existente. Acho que nos adaptámos às preocupações das pessoas e criámos um projeto de benefícios partilhados que é muito robusto”.
A Sophia ainda não tem uma decisão final de investimento tomada dentro do grupo de energias renováveis do qual a BP é acionista. Para avançar com o investimento, terão de ser garantidos contratos para venda de energia de longo prazo a preços que atraiam o financiamento.
O prazo para entrega do projeto reformulado termina a 2 de outubro.

