Passaram treze anos desde que o filme A Gaiola Dourada (2013) levou mais de 750 mil pessoas às salas de cinema em Portugal. Brincando com estereótipos, Ruben Alves, um então jovem realizador nascido em Paris e filho de emigrantes portugueses, prestou homenagem à comunidade radicada em França desde os anos 1960 e o êxito foi tal que o seu nome tornou-se capa de revista e figura incontornável da cultura pop nacional.
Nos anos que se seguiram, o cineasta foi sucessivamente cobiçado para assinar uma sequela do seu maior sucesso. Mas recusou sempre, revela agora. Continuou a filmar, sobretudo em França, onde ainda vive, e foi preciso esperar mais de uma década para o ver voltar a assinar um projeto de ficção em português.
Ei-lo: Santo António, o Casamenteiro de Lisboa, que se estreou esta quinta-feira, é filme de comédia que se propõe a colocar o dedo na ferida da gentrificação e da perda de identidade da capital portuguesa. A ação situa-se numa Lisboa contemporânea, uma cidade cada vez mais moldada pelo investimento internacional e pelo turismo de massas, onde a tentação de ceder a matriz cultural em troca da modernização gera um conflito entre a preservação do património e as exigências do mercado.
A premissa parte de uma crise numa tradição festiva da cidade: os Casamentos de Santo António. Estão em risco por falta de patrocínios e de interesse geral. Perante o impasse, a Câmara Municipal de Lisboa pondera entregar a organização do evento a uma grande multinacional francesa. Encostados à parede, Carmo (Rita Blanco) e Valentim (Joaquim Monchique) — dois dedicados funcionários municipais que lideram a cerimónia há mais de 25 anos — veem-se perante um dilema existencial: ou reinventam os casamentos de forma moderna, com um orçamento substancialmente reduzido, ou enfrentam o despedimento inevitável.
Coescrito por Alves e pelo espanhol Fer Pérez, o filme é a primeira longa-metragem de ficção produzida pela Blablabla Media em coprodução com a espanhola Comba Films e conta com o apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), Europa Criativa, Turismo de Lisboa e da autarquia da capital. É, também, o primeiro filme português a garantir distribuição no streaming através da plataforma Disney+, logo após o seu percurso de exibição nos cinemas.
Como se desenha um retrato ácido de uma capital convertida num cenário flutuante, uma Lisboa Disneylândia onde a autenticidade dos bairros tradicionais corre o risco de ser substituída por uma cenografia feita à medida do consumo externo? Em entrevista ao Observador, o realizador reflete sobre essas contradições de uma cidade em mutação e mostra-se devoto do cinema popular para fazer pensar sem perder o humor.

Em criança dizia sentir-se entre dois mundos, imigrante em França, emigrante em Portugal. Como é que se define hoje?
Sinto-me cidadão do mundo, cada vez mais. Mas estamos numa era da globalização, parece que toda a gente quer parecer igual, é uma coisa que me assusta bastante. O acesso às viagens, o acesso ao mundo hoje em dia torna isso muito mais fácil. Mas um tema que gosto de desenvolver sempre nos meus filmes e projetos é a identidade, neste caso a portugalidade. Também na Gaiola [Dourada] trabalhei a portugalidade, e acho fundamental hoje em dia, nesta época onde há uma uniformização do mundo, perceber, pelo menos, o que é que é a nossa essência.
A sua mudou com o tempo?
Cada vez mais percebo que não quero parecer-me com os outros. Ou seja, não me interessa este mundo, não me interessa a globalização, esta americanização que prevalece na imagem, no mundo dos media, no entertainment. O que vem da Ásia também está a mudar o paradigma, o que vem da China… Ao longo do tempo percebi a riqueza incrível de poder ter duas [essências], ou seja, poder ter esta coisa de ter crescido em Paris, e a minha educação, a minha maneira de pensar ser francesa, o meu raciocínio francês, e ter sempre esta coisa…
Cabeça francesa e coração português?
É verdade. O sangue que está lá é português.
Começou como ator aos 16 anos e só mais tarde passou para trás da câmara. Antes de A Gaiola Dourada, algures em 2006, começou a escrever uma história sobre expatriados franceses que vinham viver para Portugal. Como seria esse filme hoje, numa altura em que os franceses constituem a 8.ª maior comunidade estrangeira no país e a maioria vive na Área Metropolitana de Lisboa? Hoje faria esse filme?
Uff. Boa pergunta. Tive essa ideia, depois passou algum tempo e diziam: ah, isso já não é tema. Hoje em dia está cada vez mais, é um… Mega tema.
Na época, o seu amigo e produtor demoveu-o e sugeriu-lhe antes olhar para o inverso, para os portugueses em Paris, no que acabaria por ser A Gaiola Dourada.
Exatamente, convenceu-me a fazer o contrário, a falar sobre os portugueses em França, e não os franceses que vão para Portugal. Mas realmente dava um filme, dava uma série. É muito fácil dizer: esta invasão agora é insuportável, é muito difícil, porque há um lado de chegar e querer impor alguma coisa. É desconfortável, até com pessoas que conheço, amigos franceses que vêm para cá. E de repente estão aqui há seis anos e não falam português. Como é que é possível? Faz-me imensa confusão alguém ir para um país e não se tentar inserir.
Mas depois também me chateiam os portugueses, porque a culpa também é deles. O grande problema de Portugal é que os portugueses são muito bons nas línguas. Nunca houve essa coisa das dobragens, a nova geração é muito boa no inglês, a antiga geração tinha o francês que se estudava na escola, etc. Então as pessoas que vêm para cá não precisam de se integrar. Os meus amigos dizem-me: eles falam tão bem francês e inglês! E eu digo: mas podes fazer o esforço, estás aqui há anos. De repente vivem uma vida de apartamento com uma vista para o rio, em que podem ir ao mar, têm as crianças numa escola internacional. De repente não vivem a vida em Portugal com os portugueses.
É Lisboa, mas podia ser outra cidade qualquer.
É isso. Para mim não é muito bom. Viajo por Itália, Espanha e ninguém faz nenhum esforço. Mesmo muito longe, no Japão, ninguém fala inglês. É muito raro falar inglês. Há duas semanas aconteceu-me uma coisa inacreditável que resume bem o que estamos a dizer. Entrei num café, um franchise, mas português. Entrei e pedi um galão, mas disse que gostava do galão fresco, frio. Ele olhou para mim: ah, é um iced latte. Disse-lhe: bom, se quiser, é um galão, mas um galão com gelo. Só havia um iced latte. Ok, seja um iced latte, se quiser. Vou para pagar e, de repente, o galão era dois euros, mais ou menos, mas o iced latte é cinco e tal euros, paguei quase seis euros. Isso resume bem o que estamos a dizer. Temos uma coisa que é o galão, que é maravilhoso desde sempre. Quero só fresco, ponho gelo no galão, continua a ser um galão. Esta uniformização, para mim, esta americanização de Starbucks, que tenta criar ali uma coisa, uma intimidade porque põem o nome no copo… Tudo é bullshit, no final as pessoas pegam no iced latte do Starbucks e estão com os fones, no computador, estão sozinhas. Isso tudo é a tradução do que estamos a viver neste mundo cada vez mais individualista. Isso quando temos um galão fantástico.
O filme aborda essa questão da perda de identidade da cidade. Perto do final, a personagem de Rita Blanco diz: “Podem comprar as nossas terras, as ruas da nossa cidade, mas nunca vão poder comprar a nossa identidade”. Esta frase é o manifesto deste filme?
De uma certa forma sim. Estamos a falar sobre a essência das coisas. Se calhar, alguns vão pensar: ah, é muito conservador. Não sou contra a evolução. Estamos numa globalização e há muitas coisas maravilhosas que estão a acontecer neste mundo, mas é perigoso realmente não pensar, desistirmos, não pararmos para pensar. É no mundo inteiro, não estou a dizer que é só em Portugal. As capitais estão agora a sofrer disso tudo, é tudo muito rápido. Está too much. De repente, já é quase too late. E isso é um problema, porque aí começam os extremos.
Todos temos culpa. Lisboa está a mudar. É muito fácil dizer: é culpa da Câmara. Não é. Quer dizer, há algumas coisas, ok, não podem fazer tudo bem. Mas há coisas maravilhosas que estão a acontecer. Temos que ter cuidado com o que estamos a fazer. Estamos, de uma certa forma, a entrar num ciclo virtuoso do dinheiro, do profit. Com este aumento gigante do imobiliário, muitos estão a aproveitar e a dizer: vou vender a minha casa por um balúrdio. Uau, genial. E depois? Vais viver para onde? Tens de fugir. E, de repente, faz com que… Toda a gente vai fugir da cidade. E depois o que é que vai ser dela? Tenho imenso receio que Lisboa se torne uma cidade tipo museu em que as pessoas vêm ver os elétricos a passar. Cheia de Starbucks, brunchs e avocado toast. De repente estás em Lisboa e já não há jovens na cidade, os velhotes estão a desaparecer… É uma reflexão. Não é fácil.

O filme usa o artifício de uma multinacional francesa que quer privatizar e modernizar os Casamentos de Santo António sob ultimato. Não teme que esta fórmula de comédia acabe por “adocicar” esse drama social muito mais severo e doloroso? Ou acha que a leveza é, pelo contrário, a fórmula certa de abordar o tema?
Não sou político. Não faço filmes políticos. A minha essência é a de vincular emoções. Se as pessoas puderem sair do cinema a pensar, ainda melhor. Ponho ali uns toques, mas gosto que o filme seja acessível para todos. Há ali uma base de escrita, de guião, muito fácil. É um grande grupo que representa a modernização que vem para fazer um big show amazing. Numa coisa que é tradicional, muito genuína, com uma essência muito pura. De repente, ok: vão aceitar? Vemos o que se está a passar nas redes sociais, onde se mostra tudo o que é ótimo, tudo o que é dinheiro, tudo o que é mais… Acho que combater isso é muito bom.
Mas não se pode dizer que seja um filme exatamente crítico. Não deixa de mostrar uma Lisboa postal, com os elétricos a passar.
Porque é giro também, e Lisboa é isso também.
Como é que procurou o equilíbrio entre não ser um filme que podia ser do Turismo de Portugal, mas também fazer uma crítica…
Na escrita, com o guionista. Ser realmente sempre pela verdade. O que a gente vê, o que a gente… À nossa volta, sentir as coisas, ver as coisas, ouvir as pessoas a falar… A poesia de Lisboa é maravilhosa. Sempre amei a poesia de Lisboa. Acho que ela ainda está na cidade. Só que, obviamente, há muito movimento agora e é tudo muito rápido com esta modernização. Por exemplo, no filme há muitas coisas que também são brincar com o que é tradicional. Por exemplo, nas marchas, de repente vemos os jovens a fazer voguing. Há uma pulsação aqui. Acho que é o equilíbrio disso tudo… Sou só um realizador. Não estou aqui com uma bandeira estandarte a dizer isto ou aquilo. Não, é só uma reflexão. Uma reflexão das coisas, do que vejo. É a verdade, mas com uma certa leveza. Obviamente, sempre. Acho que através da leveza e do humor chega-se muito mais às pessoas. Sabermos rir de nós próprios é fundamental para um povo. Se um povo não consegue isso, é difícil.
O filme aborda a gentrificação, o turismo desenfreado e a descaracterização da cidade, mas conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Lisboa. Não há aqui um contrassenso? Como foi criar um filme apoiado pela autarquia a fazer sátira — ou a “gozar” — com ela?
Não houve limitações nenhumas. Agradeço essa abertura de espírito do Carlos Moedas de dizer: tu és um criador, um realizador, fazes filmes, gosto muito do teu trabalho e vou-te dar acesso à Câmara. Acho que demonstra uma inteligência muito grande. Porque realmente não podemos esconder e dizer que está tudo ótimo e que os lisboetas estão todos felizes. Mas lá está, com leveza e com humor está lá também uma crítica do pensamento.
A intenção do Carlos não é de descaracterizar Lisboa. Ele quer salvaguardar isso tudo. Estão a tentar… Fazem o que podem. Fazem coisas boas. Fazem coisas más. Não estou aqui para dizer: ah, tenho o apoio da Câmara então não vou dizer isso. Acho que é de inteligência dizer: sim, temos aqui trabalho para fazer. No caso do Moedas, pelo menos nas nossas trocas, ele assume. Admite e diz: sim, temos ainda muito trabalho para fazer, há muitas coisas que não estão bem. Eu… sou realizador. Tenho criatividade. E ele deu-me isso.
Vivemos num tempo em que palavras como “tradição”, “identidade” foram capturadas e extremadas por discursos nacionalistas. Assusta-o a possibilidade de este filme vir a ser instrumentalizado?
Nunca pensei nisso. No comment. Acharia um bocado triste reduzir… É bom ver o que é fixe em nós para acompanhar a evolução e a modernidade. Não é uma coisa ultraconservadora de querer ficar… Ou voltar ao passado. Porque isso acho perigosíssimo. Este filme foi feito com carinho sobre realmente pensar sobre esta época que estamos a viver. O filme fala, além de identidade, também de todas as identidades. É um filme queer friendly. É uma reflexão genuína sobre isso.


Um dos casais escolhidos para participar nos Casamentos de Santo António do filme é um casal homossexual. Na cena do casamento propriamente dito, na igreja, percebemos que é o único casal que não está no altar, mas apenas a assistir à cerimónia. Como vê o simbolismo desta cena?
Quem vê consegue subtilmente perceber. É o que está a acontecer hoje em dia. E é justamente uma reflexão sobre isso. Foi uma preocupação que falámos com o Carlos Moedas. Um casal gay [casar pela Igreja Católica] ainda é uma luta. É uma coisa que vem de lá de cima, patriarcal, que não quer. O facto, a realidade, que está a acontecer neste evento, nesta tradição, é que um casal gay pode vir casar no município, no papel, mas na igreja não pode.
Passaram mais de 10 anos desde A Gaiola Dourada (2013), um fenómeno que fez mais de 750 mil espectadores só em Portugal. O objetivo é repetir estes números, fazer uma espécie de Gaiola Dourada 2?
Há muitos anos que ouço falar sobre isso. Mas, desde o início, achei tão genuíno este primeiro filme, esta homenagem que fiz para os meus pais, que, de repente, acho que uma Gaiola 2 seria mais uma questão de business.
Foi abordado nesse sentido: para fazer literalmente uma continuação da história, uma Gaiola Dourada 2?
Sim, sim, um monte de vezes. Mas não se proporciona, acho que tem de ficar ali. O que aconteceu com a Gaiola foi um momento para reconectar o emigrante português com o português do continente. Havia um gap gigante entre as comunidades portuguesas, um preconceito gigante dos portugueses com os emigrantes. É uma verdade que eu sempre vi, senti, de que fui testemunha. As pessoas que depois comentaram o filme, intelectuais também, falaram sobre isso. Houve este consenso de dizer que houve uma preocupação de olhar para eles. Sempre tivemos esta coisa de gozar com o nosso emigrante, mas os valores portugueses estão lá. Houve ali um fenómeno… Foi isso que fez com que o filme andasse pelo mundo. Viajei com a Gaiola um ano, o filme foi visto em todo o lado. E não só por emigrantes portugueses, mas por muitos desenraizados pelo mundo que, de repente, se reviram ali. Realmente, este sentimento de estar sempre com a ideia de voltar, afinal…
É universal.
Completamente.
A Gaiola Dourada é apontado muitas vezes como um dos filmes portugueses mais vistos de sempre, mas, como o Ruben já fez questão de frisar em diversas ocasiões, não é um filme português.
Não. É um filme com muita portugalidade que eu impus a França. E tive que impor com muita luta. Porque, realmente, em França, com a indústria que é, ter um filme com atores portugueses no cartaz principal foi uma luta.
Voltando à pergunta, o filme em Portugal fez números impressionantes. Tem a expectativa de os repetir?
Não. Para já, acho que a Gaiola foi um fenómeno, algo fora do normal. Não penso nisso, nunca pensei em números. Isto não é uma Gaiola 2, de todo. É completamente diferente. É outra reflexão, outro momento que estamos a viver, em 2026. São outras preocupações. Espero, com o meu cunho, ter várias layers, vários patamares, várias camadas de noções, de pensamentos, e que cada um leve para casa o que quiser. Se calhar, há pessoas que vão rir, outras pensar, outras vão emocionar-se. Hoje em dia, o cinema está complicado. Graças a Deus, em França voltou. Tivemos um problema gigante com a Covid, e o cinema foi-se muito abaixo, mas há quatro, cinco anos começou a crescer. Este ano bateu os recordes todos, desde 2001 que não tínhamos tantos espectadores no cinema. Isso é maravilhoso. Gostava que em Portugal este filme fosse, de certa forma, uma hipótese de reencontro, de querer ir ao cinema.
Não é sobre os números que vai fazer, não me importo com isso. Gostava que as pessoas quisessem partilhar um momento. Vamos ao cinema? Desligar esta porcaria destes telemóveis e viver o momento. Não estar em casa à frente do streaming e com o telemóvel na mão. É tão bom estar numa sala escura a conviver com pessoas que não se conhecem. As pessoas têm cada vez mais medo do outro.
Vê o cinema como sala de cinema partilhada, mas o filme chega-nos como o primeiro filme Disney+. Foi pacífico que o filme fosse primeiro para as salas antes de aterrar no streaming?
Foi super pacífico. A ideia dos casamentos de Santo António já tem alguns anos, uns cinco anos.
De onde surgiu a ideia?
Não nasceu em mim, foi uma produtora espanhola que vive em Portugal há muito tempo. Disse que gostava que eu conhecesse um amigo dela, guionista, espanhol, que tinham falado e que esta tradição, única, um bocado vintage, dava um filme. Foram eles que vieram ter comigo. Mergulhámos neste mundo e através dos dois casamenteiros percebi: há aqui um filme. A luta destas duas pessoas.
Estes dois casamenteiros existem mesmo?
Existem mesmo. É uma homenagem, aliás, a Carmo [personagem interpretada por Rita Blanco] chama-se mesmo Carmo. O outro [casamenteiro, interpretado por Joaquim Monchique] é Luís, mas eu achei [o nome] Valentim mais engraçado. Mas eles são pessoas mesmo, e a emoção destas duas pessoas que tentavam fazer o melhor com um budget muito pequeno, fazer um sonho, com um glamour, este desafio… Olhei para eles e pensei: uau.
Será que com este filme conquistam mais budget no próximo ano?
Não sei. Isto tudo para dizer que a ideia surge da produtora e começámos a tentar ver como podíamos fazer um filme. A indústria portuguesa é fraca, difícil… Fui fazer uma série a França e de repente surge uma proposta da Disney Portugal para nos encontrarmos e fazer o primeiro projeto Disney+ português. E eu disse: why not? Falaram-me de uma série, mas eu disse: tenho uma ideia para um filme, será que vos interessava? E eles disseram: vamos. Foi aí que surgiram as conversas e eu disse que gostava que o filme não fosse só para streaming e fosse para o cinema. Porque acho que é importante. Foi um sim muito simples, confesso que não estava à espera.
Esteve em vista estrear o filme em junho, no mês do Santo António?
Não. Filmei em outubro [de 2025] e está a estrear-se agora. Foi muito rápido. Estrear no Santo António [13 de junho] não era possível. Tive um processo de pós-produção, não era possível mesmo. Só se fosse no próximo ano, no próximo junho. Depois arranjou-se esta coisa da rentrée. E eu disse: vamos testar. O verão ainda não acabou.
Este, ao contrário da Gaiola, é um filme português. Disse recentemente que recusa a ideia de que o cinema em Portugal tem de ser unicamente “Godard ou Nouvelle Vague”, criticando a desconfiança do meio intelectual face aos filmes que geram receita e encontram o grande público. A questão ainda se põe nestes termos?
Ainda. Porque a indústria, se há uma, é muito pequena. E ainda está fechada nisto. Falo de uma forma mais aberta, macro, da cultura. Há um problema em Portugal em como a cultura é vista. Há uma certa elite que pega na cultura e diz que tem de ser de uma certa maneira.
Sente-se à margem dela?
À margem não. Sei lidar com ela. Cresci em Paris, sei bem o que é a elite. Em França também há, no cinema e na indústria, estas castas… Se acreditam em mim e me dão budget, têm de ter retorno. Não posso fazer um filme estando-me nas tintas se as pessoas vão ver ou não. Quando há uma realidade de produção por trás, isso não pode acontecer. Aqueles que veem a criação e a cultura como puros porque não são pervertidos pelo dinheiro… Isso é bullshit. É bullshit. Há lugar para todos. Gosto muito de ver projetos que são super genuínos com nada, com budget mínimo e em que saem dali coisas inacreditáveis.
Quer dar um exemplo?
De cinema?
Porque não?
Vou dar um exemplo em Portugal, mas não sei os budgets. Acho que o [realizador] Basil da Cunha faz um trabalho extraordinário e não está com mega produções atrás. Duvido que esteja. Lá está, não é porque há dinheiro que se fazem coisas melhores. Isso mostra que com vontade, trabalho e visão pode-se ter coisas maravilhosas. Há várias propostas. Se não voltamos à uniformização do mundo. Portugal ainda está um bocadinho fechado nisso, mas está a mudar.
O cinema continua a ser uma arte cara porque não é feito por uma pessoa só.
É uma realidade, é preciso decors, luz…
Uma forma que se tem encontrado para viabilizar certos orçamentos, sobretudo de obras mais populares, tem sido o product placement. Neste filme vemos marcas como a Worten, a Glovo ou a Delta. Onde é que fica o limite para si, como realizador, entre colocar um produto numa cena, mas não transformar um filme num anúncio publicitário de 90 minutos?
Para mim essa foi uma forma no guião de fazer com que uma personagem vintage fosse moderna. E, de repente, a querer ser moderno há a primeira vez que tem uma aplicação de encomendar alguma coisa. As notificações, bling, bling, isto tudo enriquece a personagem. De repente surgiu [a marca]. Estava escrito. Não tenho problema com isso se não é fake, se não é impor para trazer dinheiro.
Não o vê como uma cedência?
Não, se está inserido no guião, se não é gratuito.
Certamente não escreveu originalmente no guião que a personagem tinha uma máquina de café em que o copo sobe.
Escrevi.
Escreveu?
Sim, estava no guião porque estávamos à procura de coisas modernas que ele [Valentim, personagem interpretada por Joaquim Monchique] podia ter. Nesse momento a Delta tinha-me convidado para o lançamento da loja em Paris e tinha esta máquina. Achei genial: pôr a cápsula e aquilo sair, as pessoas fascinadas. Estava no guião. Gosto de brincar com isto.

O que vem a seguir? Vamos ter de esperar outros dez anos para ver outro filme português?
Não sei [risos]. Estive a fazer montes de coisas neste tempo.
Os próximos projetos alinhados são em França?
Sim, estou lá e obviamente tenho uma atividade mais intensa lá do que aqui. Isto foi um desafio de fazer um filme em Lisboa com atores portugueses. Foi muito intenso, mas muito maravilhoso. Agora não sei o que vai surgir. Só quando acabo um projeto é que sei o que vou fazer a seguir. Preciso que este filme vá para o cinema primeiro, que faça a sua vida.
O que o move a filmar?
Contar uma história. Sou um criador. Mas, na verdade, estou muito interessado no teatro, em fazer uma encenação. O que está a acontecer com IA (inteligência artificial) assusta-me um bocado. Veremos o que vai acontecer… Mas o que nunca vai desaparecer é o espetáculo ao vivo.
Sobre o que seria a sua primeira peça?
Não sei. Ainda não tenho isso fechado. Tenho ideias de coisas, mas ainda não posso falar sobre isso. Mas quero criar: com carne, humanos. Isso para mim é o mais importante.