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Ricardo Reis afastado da corrida ao cargo de economista-chefe do FMI por críticas às tarifas de Trump

Economista português estaria na calha para se tornar líder do departamento de investigação económica do FMI, mas terá sido afastado da corrida, segundo o FT, por ter criticado as tarifas de Trump.

Edgar Caetano
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O Fundo Monetário Internacional (FMI) abandonou, à última hora, a escolha do economista português Ricardo Reis para liderar o departamento de investigação e assumir o cargo de principal conselheiro económico, depois de terem sido recuperadas declarações onde criticava as políticas económicas da administração Trump, noticia o Financial Times citando fontes próximas do processo.

Ricardo Reis, professor da London School of Economics (LSE), era apontado como o principal candidato ao cargo e o FMI estava a preparar o anúncio da sua nomeação no início deste verão. A decisão acabou, contudo, por ser revertida devido a comentários anteriores do economista sobre as tarifas comerciais impostas pelo Presidente norte-americano, de acordo com três fontes citadas pelo jornal britânico.

Em julho, o FMI acabou por nomear para a função a também economista da LSE Silvana Tenreyro, antiga responsável do Banco de Inglaterra. Tenreyro iniciou funções no mês passado.

Ricardo Reis é um dos economistas portugueses com maior carreira internacional e é frequentemente citado pela imprensa portuguesa e internacional sobre temas económicos. Depois de Trump anunciar, em abril do ano passado, as chamadas tarifas do “Dia da Libertação”, o economista alertou que as medidas poderiam encarecer os produtos para os consumidores norte-americanos e desencadear uma nova vaga de inflação.

Nas redes sociais, Ricardo Reis escreveu nessa altura que seriam os consumidores dos EUA a suportar grande parte do impacto das tarifas. Um mês mais tarde, num podcast da Fundação Francisco Manuel dos Santos, afirmou que os preços no país iriam subir devido às tarifas e que estas tornariam a produção doméstica “mais difícil, mais cara e mais ineficiente”.

A notícia surge num contexto de crescente preocupação sobre a pressão exercida nos EUA sobre economistas e académicos que criticam as políticas da administração norte-americana. No ano passado, recorda o FT, Trump chegou a pedir ao presidente da Goldman Sachs, David Solomon, que despedisse o economista-chefe do banco, Jan Hatzius, depois de este ter alertado para os efeitos negativos das tarifas na economia norte-americana.

Já este ano, o conselheiro económico da Casa Branca Kevin Hassett defendeu que os economistas da Reserva Federal de Nova Iorque que tinham elaborado um estudo sobre os custos das tarifas deveriam ser “disciplinados”. Hassett viria posteriormente a recuar parcialmente nessas declarações.

A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, é responsável pelas nomeações de topo da instituição, mas os EUA, enquanto maior acionista do Fundo, dispõem de uma influência informal significativa, salienta o Financial Times. Questionado pelo jornal, o FMI recusou comentar o seu processo de recrutamento: um porta-voz afirmou que a instituição segue uma política de “estrita não divulgação” sobre a identidade e os detalhes dos candidatos e classificou a seleção como “rigorosa e competitiva”.

O Fundo acrescentou estar “muito satisfeito” com a nomeação de Tenreyro, destacando a combinação entre excelência académica e experiência na definição de políticas monetárias e macroeconómicas. Ricardo Reis, contactado pelo Financial Times e também pelo Observador, recusou comentar o caso.

As taxas alfandegárias (tarifas) são uma peça central da estratégia económica de Trump para incentivar a produção industrial nos EUA. Apesar de o Supremo Tribunal norte-americano ter considerado ilegais algumas das medidas mais agressivas no início deste ano, a administração continua a utilizar a política comercial como instrumento de pressão sobre aliados e adversários, incluindo o Canadá e a União Europeia.