A consciência impõe que nos libertemos de décadas de autodestruição dos povos do mundo ocidental. Nos anos recentes, a resposta tem-se intensificado. Emerge na lucidez do senso comum ao identificar nos quotidianos das salas de aula a fonte do mal-estar social. Todavia, ministros, governos, parlamentos, universidades, sindicatos, fundações, movimentos orgânicos e demais decisores institucionais teimam na recusa da reforma do ensino, pois intuem que o abandono de perversões escolares e universitárias com décadas implicará a implosão da bolha mental que garante o seu poder político, social, cultural, económico.
A dissonância entre o universo mental do poder e o universo mental do senso comum explica as razões de nunca como hoje terem sido tão salientes predisposições sociais favoráveis à reforma do ensino. A evidência impõe-se aos que olhem com olhos de ver para a (silenciada) bola-de-neve de sofrimento físico e psicológico que já arrasta consigo cerca de metade dos (bem) mais de cem mil professores portugueses, um dos casos nacionais sintomáticos. O mesmo rolar acabou por arrastar consigo o descontrolo social da crise de saúde mental, a consequência inevitável da escolarização massificada, que deslocou o epicentro do milenar processo civilizacional para a intimidade de cada sala de aula.
No limite do caos, a rua tornou impossível ignorar transformações profundas que se espraiam pela Europa e demais mundo ocidental. É a realidade a impor à consciência de todos nós o dever de busca da racionalidade da reforma das reformas, a que antecede e condiciona as demais reformas, o que resta de socialmente consensual. Essa resposta cívica iniciar-se-á no momento em que cada sociedade, em particular as suas instituições, decidirem reaprender a respeitar os seus professores. Mais ainda, quando os próprios professores – pela autoterapia do conhece-te a ti mesmo, o legado de deus Apolo da Grécia da antiguidade – também decidirem reaprender a se respeitarem a si mesmos. Este segmento socioprofissional possui dimensões, capacidades, legitimidade e, não menos, a obrigação de se automobilizar em defesa da sua sanidade mental e dignidade humana, uma vez que o seu sentido de existência quotidiana modela os dos demais seres humanos em fases fundamentais: infância, adolescência e juventude.
Como não se vislumbra outra porta de saída capaz de inverter o atual ciclo depressivo do mundo ocidental, se as gerações portuguesas do presente souberem ser pioneiras devolverão Portugal à liderança da Europa e para além dela. Desde Afonso Henriques e com intervalos de séculos, regressa à história um tipo de dádiva do destino (em forma de grande desafio) que os portugueses sempre souberam transformar no seu bom fado. A reforma do ensino é uma das raríssimas oportunidades de revitalizar a sábia singularidade, dignidade e inteligência de um invejável povo antigo, quase milenar, o português.
Em forma de apêndice, as sete virtudes da autoridade moral suprema do professor valem como ponto de partida. São (apenas) o preâmbulo do livro que o autor deste artigo acaba de publicar.
«1. A virtude do professor é seguir a razão eterna de Platão como bússola existencial
Tal como no campo da fé a virtude do cristão é seguir as mensagens fundadoras de Cristo e da Bíblia, no campo da razão a virtude do professor é fazer dos princípios filosóficos fundadores de Platão (século iv a.C.) a sua bússola existencial, d’A Alegoria da Caverna atribuída pelo filósofo dos filósofos ao mestre dos mestres, Sócrates, o equivalente ao «Pai-nosso que estais no céu» da relação pedagógica entre professor e estudantes e da Paideia, livro de Werner Jaeger (1936), a âncora da formação de crianças, adolescentes e jovens pela lucidez da moral e razão humanas. Essa tradição ímpar, protetora da dignidade do professor há dois milénios e meio, anda a ser expulsa das salas de aula desde as décadas de 70 e 80 do século xx por Lawrence Kohlberg, psicólogo que fez da universidade o quartel-general da guerra contra Platão.
2. A virtude do professor é desinstalar o aluno e instalar o conhecimento no pináculo da instituição
O último meio século do dogma pedagógico do ensino centrado no aluno (ou escola inclusiva) desfez dúvidas de gerar consequências muitíssimo mais disfuncionais do que o anterior dogma pedagógico do ensino centrado no professor, dado ter exponenciado a intersubjetividade de atitudes e comportamentos. Por existirem muitos mais alunos do que professores, e cada pessoa ser irrepetível, o dogma é a fonte do atual caos comportamental, propício à reprodução social de personalidades narcísicas e, em sentido inverso, ao martírio social de personalidades empáticas, hoje a essência da condição de professor e dos alunos aos quais o ensino mais deve o que sobra da sua dignidade funcional. As instituições apenas garantem a sua missão com coesão, funcionalidade e qualidade quando todos os seus membros, antes de tudo o resto, se submetem ao valor universal mais elevado específico de cada instituição. Da escola à universidade, a submissão primordial de professores e estudantes é ao conhecimento, daí o dever de se desinstalar o aluno do pináculo para entregá-lo ao seu dono por direito próprio, o poder soberano da razão. Em tempos de desnorte do ensino, os sistemas sociais do mundo ocidental sobrevivem graças ao sentido de responsabilidade institucional preservado nas igrejas pela subjugação voluntária de todos os seus membros a Deus (não a vontades e vícios dos membros do clero ou dos fiéis), nos tribunais pela subjugação de todos os seus membros à justiça (antídoto contra o caos que seria se se orientassem por vontades e vícios de juízes, advogados ou réus) ou, mantendo o princípio, nos hospitais subjugados à saúde, forças policiais à segurança, forças armadas à defesa, clubes desportivos ao espírito de competição, entre outros exemplos. Apenas instituições de ensino que se assumam templos do conhecimento, com professores e alunos como fiéis, podem modelar as demais instituições na construção comum de sociedades inteligentes que se renovem a cada geração escolarizada.
3. A virtude do professor é garantir a paz perpétua entre a autoridade da instituição e a liberdade da sociedade
A autodefesa da autoridade dos professores nas salas de aula, pressuposto da sua dignidade e saúde mental, funciona como modelo de consciência cívica de autodefesa de uma multiplicidade de outras figuras institucionais, que também cumprem o dever fundamental de regular a vida quotidiana, não menos esvaziadas na sua autoridade, dignidade e saúde mental desde finais do século xx: pais, polícias, médicos, enfermeiros, funcionários de atendimento público, condutores de transportes públicos de passageiros, entre outras. A lucidez da moral e da razão humanas impõe que se libertem mentalmente os sujeitos do pavor irracional da autoridade, pelo que compete à formação escolar e universitária renovar a cultura cívica para que esta assegure a distinção cartesiana entre a instituição, o lugar primordial da autoridade, e a sociedade, o lugar primordial da liberdade. Instituição e sociedade existem para funcionar em tensão construtiva mútua, a forma de autoridade e liberdade não mais se destruírem uma à outra e passarem a buscar a paz perpétua. Professores conscientes dessa missão previnem e vencem crises civilizacionais, mesmo as mais profundas, como a atual resultante do cruzamento, no mundo ocidental, da falência simultânea de diversas instituições (família, ensino, justiça, saúde, segurança, entre outras) com o consequente descontrolo sem precedentes da crise de saúde mental.
4. A virtude do professor é formar seres humanos para a autorresponsabilidade
As sociedades escolarizadas delegam nos professores o poder supremo de determinar o sentido do destino coletivo, a formação moral dos indivíduos da infância à juventude. A missão apenas se cumpre quando cada professor resolve, no quotidiano da sala de aula, o dilema moral supremo e eterno da condição humana fixado na tensão entre a autorresponsabilidade (cada indivíduo aprender que é o primeiro e principal responsável pelo seu destino) e a externalização da responsabilidade (o indivíduo possuir legitimidade para remeter o fundamental da responsabilidade pelo seu destino para os outros). Entre preservar ou esvaziar a milenar consciência humana, a solução do dilema sempre foi a chave da transição do caos à razão do sentido existencial de indivíduos, instituições, povos, sociedades, civilizações.
5. A virtude do professor é entregar a sala de aula ao princípio da realidade de Freud
Formar seres humanos desde a infância impõe o dever de ensiná-los a não abandonarem, no resto das suas vidas, a autorresponsabilidade (cada indivíduo saber que é o primeiro e principal responsável pelo seu destino) e a solidariedade (cada indivíduo saber que é um ser social não menos responsável pelo destino coletivo). Porém, mantendo sempre essa ordem hierárquica da primazia da consciência individual sobre a consciência social, pois garante a censura moral do parasitismo social. Ceder a vícios de formação dos indivíduos que corrompem a solidariedade escancara a porta à fragilização de famílias e escolas e, a cada nova geração, as sociedades resistem cada vez menos à dissolução pela fragmentação progressiva das instituições e da coesão social. Cumprir o dever de defesa da solidariedade impõe que se formem seres humanos desde a infância para a autonomia, maturidade e responsabilidade pessoal e social. Daí a necessidade de entregar as salas de aula ao princípio da realidade de Sigmund Freud: aprender a suportar a dor e a adiar a recompensa. A dor resume-se ao princípio pedagógico com o espírito do milenar bom senso: ensine a pescar, não dê o peixe.
6. A virtude do professor é impor a valorização da sua palavra para não ceder à coação burocrática e envelhecer com dignidade
Ao transformar a burocracia em instrumento de coação moral dos cidadãos, a classe político-administrativa do mundo ocidental gerou, desde finais do século xx, o ciclo histórico mais insidioso de sempre de destruição moral dos mais velhos na relação com os mais novos. Os professores foram atingidos de modo incisivo ao ver anulada a autoridade hierárquica da sua palava na sala de aula, pois a burocracia foi, é e será destrutiva da sua autonomia, autoestima e saúde mental. Reformar o Estado começa pela reforma do ensino, sustentada na restrição severa da prática em dois campos pedagógicos nucleares: no direito de os professores avaliarem com autonomia o trabalho dos estudantes e de regularem pela palavra as suas atitudes e comportamentos. Ensinar desde a infância e adolescência a confiar no professor, em particular na sua palavra, é a garantia das sociedades escolarizadas se autorregularem pela confiança mútua entre pessoas. Proteger os professores da burocracia é, por isso, gerar a possibilidade de se instituir uma renovada cultura cívica de intolerância aos excessos de burocracia e de processos judiciais que sugam as sociedades de impostos e rendimentos, esterilizam o seu dinamismo, promovem a corrupção, destroem instituições e, não menos, aniquilam de forma dolorosa o direito dos mais velhos ascenderem a respeitados anciãos, a começar pela avó e avô, pela professora e professor em final da carreira.
7. A virtude do professor é salvaguardar crianças e adolescentes da exaustão da escola-eucalipto
Se para os adultos o dever de proteção da condição humana impôs o limite legal cartesiano de 35 a 40 horas de trabalho por semana, crianças e adolescentes são dignos da mesma salvaguarda contra a exaustão mental e física. Motivo para o mundo ocidental consensualizar o limite legal máximo de horas por dia e por semana de permanência em salas de aula e escolas. Tal direito humano garante, em simultâneo, a vitalidade dos sistemas sociais, uma vez que horários e currículos escolares sobrecarregados, além de financeiramente insustentáveis, criaram um modelo de escola-eucalipto que seca a vida social em redor ao usurpar o tempo disponível para que outras instituições invistam mais e melhor na sua parte da missão de formar e socializar crianças e adolescentes: família (nuclear e alargada); igreja; biblioteca municipal; bombeiros; escola de música, dança, teatro, artes, equitação; clube desportivo; associação cívica, cultural, ambiental ou recreativa; entre outras.»