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A Inteligência Artificial: Gates, Huang e a Amália

Como esta revolução surge em tempos de guerra que já estão a relançar os setores industriais, tudo indica que os tempos da dominância hegemónica dos Serviços está a findar

Luís Valadares Tavares
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1 Porque é a IA diferente das anteriores inovações?

O progresso baseia-se sempre em inovações tecnológicas as quais sempre suscitam uma amálgama de sentimentos contraditórios, desde o entusiasmo e admiração ao receio e à condenação não sendo a IA exceção. Na verdade, basta lembrar as dúvidas suscitadas ao surgir o caminho de ferro pois receava-se que o ser humano não aguentasse as velocidades então atingidas de mais de 50Km/h e que também seria causa de distúrbios sociais o que justificou a sua condenação pelo Papa Gregório XVI ,autor da famosa frase  “chemin de fer, chemin de l´enfer”. Todavia, com o tempo, as suas potencialidades vão sendo descobertas e as objeções vão desaparecendo, tal como aconteceu com o sucessor do Papa referido, Pio IX que até lançou os caminhos de ferro no Vaticano!

E é aqui que surge a primeira diferença fundamental no caso da IA:o tempo da sua disseminação. Com efeito, as inovações anteriores exigiam tempo para serem aplicadas tal como aconteceu com a ferrovia que exigiu um século para que se construíssem as infra-estruturas necessárias ou o telefone de Bell que só após mais de cinco décadas começou a ser divulgado.

Bill Gates recorda na sua oportuna e controversa carta recentemente divulgada que os PCs que lançou na Microsoft só se divulgaram após mais de 20 anos mas os smartphones já tinham mudado o Mundo após 5 ou 6 anos desde o primeiro I-Phone o que confirma que o “time to market” está a reduzir-se velozmente. Ora no caso da IA, exste tempo foi inferior a 1 ano o que siginfica que a adaptação exigida a cada um de nós, das empresas, das escolas, dos laboratórios, dos serviços públicos e dos Governos tem de ser também muito rápida.

Também importa referir que outra faceta inédita da IA é a sua imprevisibilidade pois continua a fornecer resultados surpreendentes o que é confirmado por inquéritos realizados em 2011 a especialistas muito qualificados sobre o ano em que poderíamos ter sistemas do tipo OpenAI obttendo-se resposta em torno de 2050 (!) (Baum, et al, 2011,in  Technological Forescasting and Social Change).

2 A IA destruidora ou geradora de empregos?

Na referida carta, Bill Gates alerta para a perda de empregos causada pela IA e pela necessidade de também alterar as políticas fiscais tributando robots para não terem vantagens adicionais face aos humanos mas o CEO da NVIDIA, Jernsen Huang, participa neste interessante debate e discorda acentuando que todas as revoluções tecnológicas acabam por gerar mais empregos, mas distintos dos anteriores não sendo a IA exceção pois irá destruir empregos nos Serviços mas promoverá nova vaga de industrialização para desenvolver os Data Centers e todas as infraestruturas conexas.

Em suma, segundo Huang, a IA irá  infletir as Economias para maior industrialização o que também já vem sendo acentuado pela Economia da Guerra a qual, infelizmente, é cada vez mais prevalecente.

3A IA generalizadora do conhecimento?

A revolução digital, primeiro com os meios informáticos de acesso pessoal e depois com a internet e os motores de pesquisa já tinham promovido a maior divulgação de conhecimento desde o tempo em que Gutemberg inventou  a imprensa produzindo a famosa Bíblia de 42 linhas em 1455. Todavia, agora, a IA atinge níveis anteriormente inimagináveis não só pelas bases de conheceimento de que dispóe mas também pela capacidade de diálodo, de resposta e de construção de pensamento orientado para esclarecer quem interroga.Todavia, para potenciar esse mundo infindável de conhecimento é essencial ter curiosidade e saber interrogar!

Ou seja, a desejada generalização já não depende do acesso a bibliotecas mas sim, cada vez mais,, do sentido crítico, da curiosidade e de saber interrogar.

4 Como controlar as novas construções racionais geradas pela IA?

Ao contrário da srevoluções anteriores, as quais eram apenas consequência do engenho humano, agora a IA também pode inovar e gerar novas construções racionais utilizando as lógicas humanas, em especial predicativa, associativa e relacional de modo a elaborar novas soluções  e lançar outras inovações.

Ora esta capacidade- a qual concretiza a antevisão de  John von Neumann que nos anos 40 previu a nova geração de robots que seriam capazes de se auto- reproduzirem, os super-robots- contém, como é óbvio, perigos eminentes , tal como foi analisado oportunamente pela recente Encíclica de Leão XIV, “ Magnifica Humanitas” e tal como tem vindo a ser debatido por responsáveis das empresas de IA, designadamente , por Chris Olah dirigente da Anthropic.

Mesmo admitindo que com rigor fazemos o chamado “value loading” de modo a garantir que as respostas e inciativas de super-robots obedecem aos desejados princípio éticos, haverá sempre a possibilidade das suas alucinações serem graves e indesejáveis pelo que é essencial dispor de comandos que permitam abortar tais comportamentos.

5 Os governos: o que devem ou não devem fazer?

Perante todos estes desafios, os Governos  devem tomar inicativas judicosas, em especial:

5.1 Training e standards

Procurar potenciar os modelos já disponibilizados pelas empresas mais conhecidas apoiando o desenvolvimento dos “training sets” e das costumizações que permitirão gerar valor para os diversos setores de atividade, sem excluir os setores mais tradicionais como a Agricultura e a Pesca. Os novos modelos, incluindo outros standards que já devíamos ter disseminado como o do BIM-Buiding Information Model- essencial à construção em moldes modernos, podem melhorar muito funções como as de previsão, programação e scheduling, comunicação, projeto, construção, controle e avaliação pelo que um dos beneficiários proritários deverá ser a Administração Pública em áreas como a da contratação pública passando a validar e corrigir os procedimentos que atualmente que suscitam a abertura de tantos processos pelo Ministério Público.

5.2 Industrialização

Tal como referido por Huang, a IA vai desencadear novas formas de industrialização não só para permitir a produção de IA mas também para a potenciar nos diversos setores produtivos.

Ora como esta revolução surge em tempos de guerra os quais já estão a relançar vasta e diversificada matriz de setores industriais, tudo indica que os tempos da dominância hegemónica dos Serviços estarão a chegar ao fim pelo que os governos devem ajustar as suas prioridades e apoios para os novos desafios da industrialização.

5.3 Educação e formação

É urgente reformular os padrões tradicionais de Educação e de Formação Profissinal reinventando o conceito de escola e de training passando a priorizar as capacidades  essenciais aos novos tempos, em lugar de somar fatias setoriais de conhecimentos. Desenvolver a curiosidade e a criatividade, o gosto pela construtividade e o sentido crítico, garantir as bases de conhecimento essenciais à Era Digital e promover grande mestria na capacidade de comunicar com pessoas e máquinas deverão passar a ser objetivos fundamentais.

6 Governos: o que não devem fazer?

Infelizmente, o nosso Governo, em vez de tomar as iniciativas referidas, lança-se no desenvolvimento de produtos paralelos aos que já existem não se apercebendo de como  é ridículo procurar desenvolver sistemas que possam ombrear com aqueles que já existem e que resultaram de elevadíssimos investimentos de milhares de milhões de dólares envolvendo os melhores recursos humanos captados à escala mudial. Os exemplos mais recentes incluem um WhatsApp lusitano (!) o qual já foi abandonado e o novo sistema Amália que já custou algumas dezenas de milhões de euros!

Creio que estas opções, evidenciando procrastinação governamental  no domínio das Tecnologias, ilustram bem o problema mais grave e  profundo e que consiste na ausência de cultura sobre Políticas Tecnológicas sendo oportuno recordar que os últimos Planos Tecnológicos desenvolvidos foram em 2000 o ET 2000 do OPET que coordenei e que surgiu da inciativa do Ministro Pina Moura, infelizmente já falecido, e o Plano Tecnológico de 2005 coordenado pelo Prof Zorrinho.

Aliás, é oportuno referir que o grande Plano PRR nacional, anunciado pomposamente após as tempestades deste ano também já se esfumou na poeira do tempo.