(c) 2023 am|dev

(A) :: Mensagens imorais e outras encrencas menores

Mensagens imorais e outras encrencas menores

De como, do Brasil a Espanha, parece persistir a esperança de que o mundo, ao olhar os que seguram a tocha da Democracia contra “a ameaça da extrema-direita”, não veja para além da cortina de fumo

Jaime Nogueira Pinto
text

O todo-poderoso vice-presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil Alexandre de Moraes é anti-fascista, anti-bolsonarista, anti-trumpista, anti-populista e lulista. É, pois, um cavaleiro do Bem, do qual nada há a temer. Com ele a democracia não corre perigo.  Ao seu nome não soam quaisquer alarmes. É casado com a advogada Viviane Barci de Moraes, cujo escritório tinha um contrato de 129 milhões de Reais com o extinto Banco Master; mas Alexandre, sendo do Bem e, como tal, amante da diversidade, da inclusão e da equidade, de nada deveria saber.  Longe dele imiscuir-se na actividade profissional de Viviane, desrespeitando a sua privacidade.

De qualquer forma, não foi o contrato bilionário do escritório da mulher com o Banco fraudulento que pôs Moraes no centro de um furacão de que, por cá, quase não se ouvem ecos.  Foi a divulgação pelo juiz André Mendonça das mensagens trocadas entre o Vice-Presidente do Supremo e o patrão do Banco Master, o mega-burlão Daniel Vorcaro.

O escândalo rebentou na 3ª feira, 1 de Setembro, quando Mendonça, um evangélico convicto e determinado no combate à corrupção que serve com Moraes no Supremo Tribunal Federal, tornou públicas 58 mensagens em que Vorcano, então ainda em liberdade, se aconselhava com Moraes sobre os seus negócios ilícitos e o interrogava sobre a melhor forma de fugir a eventuais problemas com as autoridades ou, se fosse caso disso, fugir do Brasil para não ser preso, pedindo-lhe protecção.

Em Novembro de 2025, o Banco de Vorcaro viu-se envolvido no que é já considerado o maior escândalo financeiro do Brasil (e o Brasil já conheceu alguns grandes escândalos). O Master oferecia títulos de investimento, prometendo altos rendimentos, sem que tivesse recursos que os garantissem. Um esquema em pirâmide, uma gigantesca Dona Branca que rebentou, deixando 52 mil milhões de Reais (quase 9 000 milhões de Euros) a descoberto e levando cerca de 100.000 investidores à ruína.

A Polícia Federal investigou o caso, o Banco Central do Brasil decretou a falência do grupo Vorcaro e Daniel Vorcaro foi preso.

Agora, com a divulgação das mensagens entre Vorcano e Moraes e a consequente denúncia, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, pediu os pareceres do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, do Director-Geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e dos implicados Alexandre Moraes, o juiz prevaricador, e André Mendonça, o juiz denunciante. A disputa entre Moraes e Mendonça – envolvendo, primeiro uma denúncia de um membro do Supremo de um outro membro do Supremo e, depois, denúncias cruzadas – vai ser julgada pelos outros juízes do Tribunal Federal.

Relações promíscuas

Nas mensagens trocadas que Mendonça decidiu tornar públicas, há todo um eloquente diálogo entre o banqueiro fraudulento e o Vice-Presidente do Supremo Tribunal, com Vorcaro a perguntar ao seu poderoso amigo e parceiro, com quem fora tão generoso: “Não conseguimos reverter isto com Paulo ou André?” (Paulo e André são o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o Director da Polícia Federal, André Rodrigues).

O influente Estado de São Paulo, o “Estadão”, quebrou o silêncio na primeira página da edição de 4ª feira, 2 de Setembro, com um título a toda largura: “Mensagens escancaram relação promíscua entre Moraes e Vorcaro”.

Numa manobra desesperada, Moraes veio, entretanto, dizer-se vítima de uma cabala, acusando Mendonça de abuso de poder e de interferência na investigação das autoridades policiais no caso “Compliance Zero”.  Acusa-o também de encorajar a delação premiada; tenta, enfim, agarrar-se a formas processuais para desviar os olhares da gravidade das imputações de que é alvo e iludir a essência dos alegados delitos.

Na passada 2ª feira, 7 de Setembro, dia da Independência, o povo saiu à rua em São Paulo e em mais 14 cidades brasileiras para apoiar Mendonça, enquanto candidatos da oposição, como Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Renan Santos, prometiam uma “purga” no Supremo Tribunal Federal, e Ricardo Nunes, o prefeito de São Paulo, distribuía t-shirts de apoio ao juiz que ousou denunciar Moraes.

Mas, a crer nas palavras e nas omissões de alguma imprensa, tudo não passa de uma cabala sem importância de bolsonaristas ressabiados … Já não pode um homem de bem, na sua incansável luta contra o populismo e a extrema-direita, incorrer nalgumas ilegalidades, cometer uma ou outra infracção, meter-se em encrencas menores a fim de preservar a Democracia e o seu modus vivendi?

No Estado de São Paulo de 3ª feira, 8 de Setembro, rematava-se, sob o título “Encrenca”:

“Lula e Flávio permanecem empatados em simulações de segundo turno com 40%.  Monitoramentos de redes feitos pelo PT revelam que todas as encrencas de Moraes caem no colo de Lula.”

“O mundo olha-nos”

“A ameaça extremista ganha terreno, na Europa e no mundo, em grande parte graças à rendição da direita tradicional. Um governo de coligação progressista, como o que temos em Espanha, é hoje mais preciso do que nunca. O mundo olha-nos!”

Palavras de Pedro Sánchez, na 2ª feira, 7 de Setembro, o dia seguinte à vitória da Alternativa para a Alemanha na Saxónia-Anhalt.  E o dia em que uma sondagem publicada na primeira página do ABC dava 31% ao Partido Popular, 26% ao PSOE, 19% ao Vox, 7% ao Sumar e 3% ao Podemos, fazendo com que as direitas espanholas somassem 50% contra os 36% do PSOE e da extrema-esquerda.  Isto com Sanchez afogado em “encrencas menores” – histórias de corrupção familiar e política e escândalos vários –, mas certo de que o mundo não deixaria de o olhar com a admiração devida a um intrépido lutador contra o fascismo, o trumpismo, o populismo, a extrema-direita…

…Ou na esperança de que o mundo, ao olhá-lo segurando a tocha da Democracia, não veja para além da cortina de fumo.