Dentro de um mês, há eleições cruciais no Brasil: para Presidente, o Congresso Nacional, os Governadores e as Assembleias Legislativas. Mas talvez os eleitores nem precisem de se ralar com o bico de obra que será esquadrinhar com uma lupa um mísero candidato decente. Pois é duvidoso que o país chegue vivo às urnas. Nesta altura do campeonato, a questão é se os brasileiros são sonâmbulos de olhos vítreos ou zombies a cair de podres. Pela alarmante escassez de cérebros no mercado (o petisco predileto dos mortos-vivos), a segunda opção é muito mais provável.
O lamaçal que assola a sociedade brasileira faz a calamidade no Nepal parecer uma tempestade num copo de água. Cartas na mesa: o Brasil é tacitamente uma cleptocracia. Não o povo (que também tem muito que se lhe diga), mas o regime. Sublimamos a corrupção numa das Belas Artes, uma espécie de Capela Sistina da contravenção. Achado não é roubado – e o achado é o país todo. Claro que a população já viu esse filme de cor e salteado: o presente dos brasileiros é um déjà vu em piloto automático.
No estado mais icónico (o Rio de Janeiro), só nos últimos quatro anos seis Governadores foram presos ou afastados por trafulhices. Na Presidência da República, Fernando Collor e Dilma Roussef sofreram impeachment, e Michel Temer, Lula da Silva e Jair Bolsonaro viram o sol nascer aos quadradinhos. Este último está em prisão domiciliária, com uma crise crónica de soluços (juro!) e guarnecido com uma pulseira eletrónica (que tentou arrancar com uma solda).
Os brasileiros já gramaram com o Mensalão (a compra de apoio parlamentar no primeiro mandato de Lula da Silva, com mesadas desviadas de dinheiro público) e o Petrolão (negociatas entre empresários amigalhaços de Lula e diretores da Petrobrás por ele indicados, com contratos estatais principescos em troca de subornos).
Entrou em ação a Operação Lava-Jato, com uma mangueira que parecia capaz de apagar o incêndio da Roma por Nero com harpa e tudo: alcançou governos e autoridades em 12 países nas Américas e em África. Tais escândalos elegeram o futuro presidiário Jair Bolsonaro, que, quatro anos depois, derrotado nas eleições por um antigo presidiário, contribuiu para a avacalhação nacional ao incentivar um bisonho vandalismo em Brasília, em 8 de janeiro de 2022. O facto de que a arruaça foi protagonizada por um bando não de Maquiavéis, mas de boçais trapalhões num pastiche do já foleiro assalto ao Capitólio por totós trumpistas no dia 6 de janeiro de 222, não os inocenta lá muito.
Lula foi condenado por gamanço a 9 anos de prisão, dos quais cumpriu 580 dias. Nunca foi absolvido de coisa nenhuma: o processo acabou anulado por um arcano bizantinismo técnico. Lula saiu da cela para mais um mandato de Presidente em Brasília (o terceiro, e agora é candidato ao quarto). E pavoneou-se: “Sou a alma mais honesta do Brasil”. O pior é se ele tem toda a razão.
Na verdade, houve um arranjinho entre quase todo o sistema político brasileiro (incluindo o Centrão, bloco suprapartidário e amorfo, insaciável na sua glutonaria por cargos e verbas), em que toda a gente tem mais calcanhares de Aquiles do que uma centopeia e mais telhados de vidro que a pirâmide do Louvre. Resultado: anulação das condenações da Lava-Jato por… bizantinismos técnicos. Mesmo daqueles réus que já tinham confessado tintim por tintim e até devolvido parte do saque.
A impunidade uniu lulistas, centrões e os Bolsonaros, que também se debatiam com suas maroscas. Como as “rachadinhas”, em que políticos embolsam parcelas dos ordenados dos seus próprios funcionários públicos dos respectivos gabinetes. Esse processo foi anulado por… bizantinismos técnicos.
Ou Lula ou Flavio Bolsonaro (em nome do pai) será o próximo Presidente brasileiro – a menos que aconteça um milagre misericordioso e cósmico (como, sei lá, o Brasil ser invadido e escravizado por naves de alienígenas reptilianos – mas não teremos essa sorte). Com mais um escândalo novinho em folha, chegamos ao fundo do poço (a menos que roubem o poço, o que é provável).
Restava o Judiciário. Criado logo após a Proclamação da República, o Supremo Tribunal Federal é agora convulcionado pelo mais patético vexame dos seus 135 anos de história. Trata-se da suprema instância judicial brasileira. Os 11 juízes e ministros de Estado reformam-se aos 75 anos, e os sucessores são nomeados pelo Presidente da República. E aí começa o enrosco: cada Presidente puxa a brasa para a sua sardinha, indicando um dócil correligionário e politizando a Justiça, que deixa de ser cega para fazer vistas grossas. O STF degenera num ninho de víboras e intrigas palacianas, com birras, sabotagens e retaliações mútuas. No atual mandato, Lula da Silva nomeou Cristiano Zanin, o advogado que o safou da cadeia da Lava-Jato, pois amor com amor se paga (e aquela era quase uma missão impossível).
O superstar do STF é Alexandre de Moraes (com direito a um manteigueiro perfil de 12 páginas na “New Yorker”). Ele foi o pilar da prisão de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos. E das punições às manadas de otários que em 2022 desembestaram bovinamente pelas sedes dos Três Poderes em Brasília – sentenças, aliás, dignas dos nazis julgados em Nuremberga em 1946 (uma cabeleireira que rabiscou uma estátua com um batom foi condenada a 14 anos num presídio de segurança máxima).
Na crista do novo apocalipse está o Master, um banco privado que brotou em 2021 e cresceu mais depressa que mau-humor de adolescente. Em 2025, foi comprovada a maior fraude financeira da história do Brasil, que lesou 800 mil clientes, e decretada a liquidação do Master e a prisão do seu dono, Daniel Varcaro.
O relator do caso no STF era o ministro Dias Toffoli, afastado por suspeita de receber 3 milhões de euros de Vorcaro – e com dez pedidos de impeachment no Senado. Era só a pontinha de um iceberg capaz de afundar uma frota de Titanics. O novo juiz, André Mendonça, retirou o sigilo do relatório da Polícia Federal sobre as relações entre Vorcaro e Alexandre Moraes. Foi como puxar a rolha de um vulcão ativo – para todos os efeitos, o mundo como o conhecíamos acabou.
Vorcaro é um gangster mafioso, que tentou – em geral conseguiu – comprar qualquer autoridade útil que respirasse, incluindo dois diretores do Banco Central e parlamentares a dar com um pau. Se Vorcaro era um “capo”, Moraes operou como o seu conseglieri – incluindo a omertà” (a lei do silêncio da Cosa Nostra). As 54 mensagens (e 6 encontros presenciais) entre o juiz e o facínora eram escritas numa app, em seguida feitos prints e só depois enviadas pelo Whatsapp, no modelo que permite uma única leitura e é automaticamente apagada no tlm do destinatário. Quem não deve, não teme? As mensagens enviadas por Vorcaro foram recuperadas pela Polícia, mas as de Moraes podem apenas ser deduzidas.
Como o mundo é pequeno, o Master contratou o escritório de advocacia da mulher de Moraes, Viviane Barci, por suntuosos 20 milhões de euros, muito acima do padrão do mercado. O próprio ministro editou o contrato no seu computador. Até hoje ninguém faz a mais pequena ideia de quais eram os tais “serviços prestados”, mas trememos só de pensar. No Brasil, a mulher de César não precisa nem de ser nem de parecer honesta – apenas dar a César o que não é de César.
Os filhos de Moraes receberam cartões de crédito do Master com um limite mensal faraónico: 50 mil euros. Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso no aeroporto ao pisgar-se para o Dubai, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda-feira tenho de estar fora do país?” Isso no âmbito de uma investigação policial que implicava sigilo absoluto.
Uma das mensagens de Vorcaro para o juiz era de uma passionalidade operática: “Eu e a minha família temos uma dívida de vida consigo”. Os três principais jornais brasileiros – Estadão, Folha SP e Globo – publicaram ultrajados editorais na primeira página, exigindo a saída imediata de Moraes. O magistrado assobiou para o lado como um rouxinol na Primavera, e nunca deu um pio sobre nenhum daqueles factos, digamos, pornográficos. Num país em que o ordenado mínimo é de 250 euros, um juiz do STF aufere 10 mil euros, e tem férias de 60 dias por ano (fora outras regalias principescas).
A Constituição determina que só um brasileiro pode denunciar criminalmente um ministro do STF – um único ser entre os 214 milhões e 200 mil cidadãos: o Procurador-Geral da República. Por isso, presumia-se que Paulo Gonet arregaçara as mangas até as clavículas e ia partir a loiça toda. Qual nada: com uma lata inoxidável, o Procurador defendeu a nulidade do relatório policial sobre Moraes e Vorcaro, sem abordar uma única questão das 218 páginas. Hum, será que o banqueiro também o estragou com mimos? Em Abril de 2024, Gonet, a convite de Vorcaro, participou com Moraes de uma degustação de whisky num seleto clube de Londres (o scotch preferido dele é Macallan 18 anos – mil euros a garrafa). Foi uma experiência tão inebriante que dois anos depois Gonet sondou o banqueiro se era possível repeti-la – e, se não fosse pedir muito, será que também podia levar o seu filho? Resposta fofinha do banqueiro: “Óbvio, não é?”
Mesmo calejado nas venalidades públicas, o Brasil assistiu tais episódios embasbacado – a vontade uníssona dos 220 milhões de deprimidos brasucas foi encomendar uma extrema-unção coletiva tipo fast-food. No dia seguinte, continuamos de olhos esbugalhados. Quando se esperava, se não um austero decoro, pelo menos uma compassiva hipocrisia, os media espetam-nos com uma foto de Moraes, Zanin, Gilmar Mendes (decano da instituição e nêmesis da Lava-Jato) e o atual presidente do STF, Edson Fachin, no cenário que talvez já se pode chamar o local do crime: o próprio STF. Estavam todos quase a urinar-se de tantas gargalhadas espasmódicas, em plena lua-de-mel com a vida.
E Flavio Bolsonaro? Depois de jurar sobre a Bíblia que nunca tinha visto Vorcaro mais gordo, soube-se que embolsara do banqueiro 10 milhões de euros, para a produção de uma hagiografia cinematográfica de Jair Bolsonaro. Com Jim Caviezel no papel do presidiário com pulseira eletrónica – o mesmo ator que fez de Jesus no filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Enfim, um Deus nos acuda.
Era a enésima repetição de uma clássica expressão brasileira sobre as escandaleiras políticas e suas pífias consequências: “Aqui tudo acaba em pizza”. Ou seja: em águas de bacalhau. Ah, se ao menos só desta vez essa pizza fosse uma receita de Lucrécia Bórgia… É que os brasileiros estão entalados de um lado pelas facções profissionais do crime organizado (PCC, Comando Vermelho, etc.), e do outro pelas facções diletantes – as disfuncionais instituições da República -, mas não menos organizadas e proficientes.
A chatice das democracias representativas é quando os nossos representantes não nos representam, pois representam exclusivamente as suas contas bancárias nos paraísos fiscais. E hoje a polarização engolfa até a corrupção, com o seu duelo de narrativas ativistas. Que se lixe a lei: somos nós contra eles. Apesar de opostas, ambas as barricadas professam estar do lado infalível da história. Aos amigos, tudo; aos inimigos, justiça sumária. Os nosso patifes são querubins recém-nascidos; os nossos adversários, infanticidas. Os nossos ladrões são Robins dos Bosques; os deles, Al Capones. Um dos efeitos perversos é o branqueamento recíproco das malfeitorias: nós perdoamos os nossos, eles perdoam os deles. Como a culpa é polígama, vai morrer solteirinha da silva.
Joseph de Maistre notou que “cada povo tem o governo que merece”. E Edmund Burke realçou que, para que o mal triunfasse, seria necessário apenas que os homens bons se omitissem. É o nadir da cidadania: um torpor niilista embota a população. Daí uma confissão cada vez mais comum no Brasil: “Não quero um trabalho – quero um emprego”. Um tachinho para se empurrar com a barriga. Segundo a Organização Mundial do Trabalho, o Brasil ocupa a 104ª posição no ranking mundial de produtividade, entre 184 países. O trabalhador brasileiro gera US$ 21,20 por hora, 1/4 da produtividade do um norte-americano. A desculpa é: suar as estopinhas e pagar impostos para sustentar homens públicos impublicáveis e juízes que já tinham idade para ter juízo? E assim, com sofismas acrobáticos, tornamo-nos cínicos segundo Oscar Wilde: pessoas que sabem o preço de tudo, e o valor de nada.
Hoje o Brasil dá razão a Margaret Thatcher e a de Maistre. A Dama de Ferro disse que não sabia o que era uma sociedade, pois só conhecia indivíduos. O segundo, que nunca tinha “encontrado a humanidade – apenas franceses, italianos, russos…” Em “The Unsettling of America”, Wendell Berry, que morreu há uma semana, propôs que habitamos três categorias de pluralidades: multidões, sociedades e comunidades. As primeiras parecem reais, mas sua existência é uma fantasmagoria; nela, o indivíduo se reduz a uma estatística. Já as sociedades são um sistema que ama apenas a si próprio, onde uma pessoa existe só em relação à outra. Mas as comunidades transcendem os seus membros, unindo-os para além da mera funcionalidade: o indivíduo é insubstituível – mas livre para existir sobre um alicerce de diálogo e respeito. Já no Brasil democracia é só o nome que os governantes dão ao povo quando (raramente) precisam dele.
Com Lula e Bolsonaro (pai ou filho), o looping fatídico continua. E os brasileiros de hoje lembram-me a França de Vichy, descrita por Simone Weill em “L’enracinement”: “O povo francês, em junho de 1940, não foi um povo a quem escroques, escondidos na sombra, repentinamente roubaram a pátria de surpresa. Foi um povo que abriu a mão e deixou a pátria cair ao chão. Mais tarde ele se consumiu em esforços cada vez mais desesperados para a apanhar de novo, mas alguém já lhe tinha posto o pé em cima.”
No Brasil atual não há cidadania nem cidadãos, apenas farinhas do mesmo saco roto: a chamada anomia. A justiça deixa de ser cega para ser estrábica, degradando a legitimidade: se a suprema justiça é supremamente injusta, e se o juiz legisla em causa própria, não há qualquer autoridade moral do Estado de Direito, mas infinitos Estados paralelos, cada um por si. A única lei é: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Sobre a horripilante arquitetura modernosa de Brasília, com as sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário, a escritora Clarice Lispector disse que a capital brasileira era “uma prisão ao ar livre”. Dou a mão à palmatória: eu é que não tinha percebido a presciência do arquiteto Oscar Niemeyer. Mas, por vias das dúvidas, talvez agora fosse melhor fechar essa prisão à chave e deitar o porta-chaves fora.
Charles de Gaulle comentou um dia que “o Brasil não é um país sério”. Mas hoje, além de não ser sério, o Brasil não tem graça nenhuma. É que uma anedota, se repetida mil vezes, perde toda a piada – sobretudo se for de humor negro.