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Regressámos a 2006

Portugal perdeu um ano e meio de escola na década em que o valor do trabalho mediano caiu para zero. Não foi a maré: houve países que não caíram e países que subiram

Pedro Santa Clara
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Nos resultados do PISA divulgados a 8 de setembro, Portugal está de volta ao início do século. Em Matemática, 460 pontos: abaixo de 2003 (466) e o pior resultado desde que há série comparável. Em Leitura, 462: abaixo de 2000 (470), o pior de sempre. Em Ciências, 482: a órbita de 2006 (474), dezanove pontos abaixo do pico de 2015 (501). A OCDE escreve sem eufemismos que os ganhos anteriores foram completamente revertidos nas três matérias.

Vale a pena lembrar de onde caímos. Em 2015, Portugal ficou pela primeira vez acima da média da OCDE nas três áreas, e Andreas Schleicher, o diretor de Educação da OCDE, deixou de nos tratar como país de maus alunos e passou a citar-nos como uma das grandes histórias de sucesso da Europa. Dez anos depois, apagámos essa história.

A erosão é dos dois lados da distribuição. A percentagem de alunos abaixo do nível mínimo de proficiência subiu onze pontos em Matemática e em Leitura desde 2015. No topo, a escassez é ainda mais reveladora: 6% de alunos de excelência em Ciências (OCDE: 7%), 6% em Matemática (8%) e 3% em Leitura, metade da média da OCDE. O sistema ainda garante um patamar mínimo a muitos. Já não oferece excelência a quase ninguém.

Figura: evolução de Portugal no PISA. Ciências, Matemática e Leitura, 2000-2025, com a média da OCDE de 2025 a tracejado (fonte: OCDE, PISA 2025 Results, Volume I, Country Note Portugal).

Em anos de escola, a conta é simples. A OCDE trata cerca de vinte pontos na escala PISA como um ano de aprendizagem. Portugal caiu, desde 2018, 32 pontos em Matemática e 30 em Leitura: ano e meio de escola perdido em sete anos de calendário. Desde o pico de 2015, a Leitura caiu 36 pontos, quase dois anos. Os alunos que fizeram o teste em 2025 tinham nove anos quando as escolas fecharam na pandemia. A pandemia explica uma parte. A queda começou antes dela e continuou depois de ela acabar.

O que um aluno de quinze anos já não sabe fazer

Os pontos do PISA são abstratos. Vale a pena traduzi-los. A OCDE divide a escala em seis níveis e trata o nível 2 como o mínimo para funcionar numa sociedade moderna. Em Leitura, um aluno no nível 2 consegue identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, encontrar uma informação quando lhe dizem o que procurar e refletir sobre o que leu se lhe pedirem explicitamente. Um aluno abaixo desse nível consegue, quanto muito, localizar uma informação explícita numa passagem curta e simples sobre um assunto que já conhece. Não retira o sentido de um texto seguido. Em Portugal, 28% dos alunos de quinze anos estão abaixo do nível 2 em Leitura. Mais de um em cada quatro. Em 2015 eram 17%.

Em Matemática, o nível 2 é conseguir, sem que ninguém lhe diga como, traduzir uma situação simples em números: comparar a distância total de dois percursos alternativos, converter um preço para outra moeda, perceber uma fatura. Em Portugal, 35% dos alunos de quinze anos não chegam lá. Um em cada três; em 2015 era um em cada quatro. Em Ciências, o nível 2 é reconhecer a explicação correta de um fenómeno familiar e dizer, num caso simples, se uma conclusão é válida à luz dos dados. Não chegam 24%. E 18,6% dos alunos portugueses estão abaixo do mínimo nas três áreas ao mesmo tempo: um em cada cinco adolescentes que vão votar daqui a três anos não lê um texto seguido, não converte um preço e não distingue uma conclusão válida de uma inválida. Andreas Schleicher avisa que o número real é maior, porque o PISA não testa quem já abandonou a escola nem quem não domina a língua da prova.

O que a OCDE observou dentro do próprio teste é mais preciso do que qualquer percentagem. Nas questões cujos textos passam de 400 palavras, uma página de livro, os alunos de 2025 saíram-se muito pior do que os de 2018. O mesmo nas questões que pedem para refletir, avaliar ou cruzar várias fontes. Os alunos não desaprenderam a decifrar; desaprenderam a aguentar. A OCDE chama-lhes leitores apressados: passam a correr pelo texto e dão respostas rápidas e erradas. Quase duplicaram desde 2018. E o dano tem sexo: em Leitura, os rapazes portugueses caíram 21 pontos desde 2022, as raparigas 8. O fosso entre eles é agora de 33 pontos, mais de ano e meio de escola, acima da média da OCDE.

No outro extremo estão os níveis 5 e 6: os alunos que compreendem textos longos, lidam com ideias abstratas ou contraintuitivas e distinguem factos de opiniões por pistas implícitas; em Matemática, os que modelam situações complexas e escolhem entre estratégias para as resolver. É deles que sai a investigação, a engenharia, a medicina que conta. Em Matemática, são 54% dos alunos nas quatro jurisdições chinesas, 37% em Singapura, 23% na Coreia, 22% no Japão, 13% no Reino Unido. Em Portugal, 6%. Em Leitura, 3%: numa turma de trinta, um aluno. Um país que produz um leitor de excelência por turma não vai produzir a ciência que decidirá a sua prosperidade. Vai importá-la, e pagá-la.

É isto que “ano e meio de escola” quer dizer. Não é um índice que baixou. É um terço de uma geração que não converte um preço e um quarto que não lê uma página.

Antes de procurar culpados, quatro perguntas. É falta de dinheiro? É uma maré que arrasta toda a gente? É a imigração? E porque é que esta queda, ao contrário das anteriores, vai sair muito mais cara do que as contas acima sugerem? Respondo por ordem: não, não, um quarto, e por causa da máquina que os nossos filhos já trazem no bolso.

Não é o dinheiro

Em dólares, gastamos por aluno menos do que a média da OCDE: 12.956 contra 15.023 por ano, do básico ao superior. Medida contra a riqueza do país, porém, a despesa por aluno é das mais altas da OCDE, 29% do PIB per capita contra 25% na média, e no secundário passa dos 30%. Fazemos um esforço acima da média para um resultado abaixo dela. Se o problema fosse o orçamento, já estaria resolvido.

Também não é um sistema uniforme a produzir resultados uniformes. Em Ciências, o quartil socioeconómico mais favorecido está 92 pontos acima do mais desfavorecido: quatro anos e meio de escola entre dois miúdos da mesma idade e do mesmo país. Entre os 25% mais pobres, 39% não atingem o nível mínimo em Ciências; entre os 25% mais ricos, 6%. E os nossos alunos favorecidos ficam abaixo dos alunos igualmente favorecidos de Singapura e da China. A escola falha os pobres e não compensa os ricos.

Quem pode paga a dobrar e foge para o privado ou para o explicador das sete da tarde. Já votou com a propina. Está na altura de o resto da sociedade votar também.

Não é o destino

A desculpa seguinte é a maré. Portugal fica perto da média da OCDE: 30.º em Matemática, 26.º em Leitura, 29.º em Ciências, entre 90 países e economias. E a média também caiu. Nos países da OCDE, um em cada cinco alunos de quinze anos é agora fraco nas três matérias ao mesmo tempo, contra 16% em 2022. Estar no mesmo barco a afundar não é estratégia, é companhia.

Mas nem toda a gente desceu. Dentro da OCDE, as Ciências subiram na Costa Rica, na República Eslovaca, na Turquia e no Reino Unido. Fora dela, subiram no Camboja, em El Salvador, na Geórgia, na Jordânia, na Mongólia, no Montenegro, nas Filipinas, na Arábia Saudita e na Tailândia. A Turquia, a República Eslovaca, o Montenegro, o Catar e os Emirados fizeram as duas coisas ao mesmo tempo: aumentaram a fatia de alunos de excelência e reduziram a de alunos fracos. E no topo, nas três áreas, mantiveram-se a maioria das jurisdições chinesas, Singapura, o Japão, a Coreia, Taiwan, a Estónia e o Reino Unido. Se levanta uns e afunda outros não é maré.

Basta atravessar a Europa para ver a maré a partir-se. O Reino Unido é o contrafactual mais próximo: 488 em Matemática, 494 em Leitura, 511 em Ciências, estável ou a subir. Inglaterra, que pesa a maior parte do conjunto, subiu em Ciências de 503 para 516 e ficou entre os dez melhores do mundo nas três áreas, com rigor no básico, currículo focado e uma recuperação pós-pandemia levada a sério. A Estónia, com um quinto da nossa população, voltou ao top 10 mundial nas três áreas. Políticas diferentes produzem resultados diferentes.

E depois há dois sítios que a conversa portuguesa trata mal por razões políticas. Singapura: 563 em Matemática, 535 em Leitura, 560 em Ciências. No topo em Leitura e a um passo do topo nas outras duas. Não é milagre geográfico. É currículo estreito e profundo, professores recrutados no topo da distribuição académica, exigência sem vergonha, e uma cultura que trata a escola como alavanca nacional e não como emprego garantido. Quando o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, escreve que os sistemas de sucesso “se concentram em menos áreas com maior profundidade”, está a descrever Singapura e a acusar, por omissão, os currículos ocidentais com um quilómetro de largura e um centímetro de profundidade.

China (B-S-J-Z: Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang): 612 em Matemática, 527 em Leitura, 597 em Ciências. Mais de cem pontos acima da média da OCDE em Ciências e quase 150 em Matemática. A objeção automática, “não é a China toda, é a elite costeira”, é verdadeira e insuficiente. Ninguém obriga Portugal a comparar-se com Gansu. Obriga a explicar porque é que as melhores jurisdições chinesas produzem adolescentes que resolvem o que os nossos 10% melhores mal tocam, e porque é que essa excelência se reproduz ciclo após ciclo. Seleção, esforço, tempo de estudo, estatuto do professor, zero romantismo sobre a “criança como centro” quando a criança não sabe ler.

Pode-se detestar o regime e ainda assim ler o resultado escolar. Recusar a lição porque o Partido é autoritário é preguiça moral disfarçada de virtude.

A lição conjunta é rude: cultura de exigência e desenho institucional vencem discursos. Onde se seleciona professores, se exige cedo, se mede sem pudor e se tolera a desigualdade de resultados que nasce do esforço, sobe-se. Onde se equaliza por baixo, se protege o emprego docente acima da aprendizagem e se trata o telemóvel como direito humano, desce-se. Não é maré. É escolha, e nós fizemos a nossa.

A imigração explica um quarto

Há uma terceira desculpa, e é a mais séria, porque em parte é verdadeira. Portugal viveu entre 2019 e 2025 a maior vaga de imigração da sua história: a população estrangeira residente mais do que triplicou e o número de alunos estrangeiros nas escolas cresceu 160% em cinco anos. Ora, uma média nacional pode cair por duas razões diferentes. Ou cada aluno aprende menos do que aprendia, ou mudou quem faz o teste. Se numa turma de cem alunos entram vinte que chegaram há pouco de um sistema mais fraco, a média baixa mesmo que os outros oitenta saibam exatamente o mesmo que antes. A pergunta certa é o que aconteceu aos oitenta.

O PISA chama aluno imigrante ao aluno cujos pais nasceram ambos fora do país. Em 2018 eram 7% dos alunos portugueses de quinze anos; em 2022, 11%, o maior aumento de toda a OCDE; e a aritmética do relatório de 2025 implica que são hoje entre um quinto e um quarto. Não são mais pobres do que os outros (27% de desfavorecidos, contra 25% no total) e três em cada quatro falam Português em casa, porque vêm sobretudo do Brasil e dos PALOP. O que os separa dos colegas é a escola de onde vieram: 56% dos imigrantes de primeira geração chegaram depois dos doze anos, com o básico feito noutro sistema, quase sempre o brasileiro. O Brasil teve 379 pontos a Matemática no PISA 2022, quase cem abaixo de Portugal. Um miúdo que chega aos treze anos traz consigo o sistema de onde vem.

O relatório de 2025 separa os resultados de Ciências por origem: 493 pontos para os alunos nativos, 454 para os imigrantes. Isto permite fazer a conta que a OCDE não fez no comunicado. Em 2015 a média nacional era 501 e os imigrantes, 7% dos alunos, estavam 16 pontos atrás, o que põe os nativos em cerca de 502. Em 2025 os nativos estão em 493. Os nativos perderam nove pontos; o país perdeu dezanove. Os outros dez são a mudança de quem faz o teste. Em Ciências, portanto, a imigração explica perto de metade da queda da década. Em Leitura e Matemática, onde as quedas foram de 36 e 32 pontos e a OCDE ainda não publicou o desdobramento para Portugal, a mesma conta dá oito a dez pontos: um quarto. Os nativos perderam, mesmo assim, entre 22 e 28 pontos em dez anos. Mais de um ano de escola. A imigração corta a fatura em um quarto; não a anula.

E não bate certo com o calendário nem com o topo. Entre 2015 e 2018 a fatia de imigrantes estava parada nos 7% e Portugal já estagnava. Entre 2018 e 2022 subiu quatro pontos percentuais, o que vale pouco mais de um ponto numa queda de vinte a Matemática. A grande vaga é de 2022 a 2025, o último terço da descida: a imigração chegou a um sistema que já estava a cair. Quanto ao topo, os 3% de alunos de excelência a Leitura não são efeito da imigração. Os recém-chegados não ocuparam os lugares dos filhos de médicos e engenheiros.

Há uma parte desta história de que os defensores da explicação demográfica não vão gostar. Em 2006, os alunos imigrantes em Portugal estavam 55 pontos atrás dos nativos em Ciências. Em 2015 estavam 16 atrás, um terço da distância média da OCDE; nenhum país fechou tanto esse fosso nesses nove anos. Em 2025 estão 39 atrás. Um sistema que em 2015 integrava melhor do que qualquer outro da OCDE deixou de o fazer no exato momento em que passou a ser preciso: chegaram setenta mil alunos em dois anos e a escola tratou-os como se tivessem feito o 2.º ciclo em Braga, sem diagnóstico à entrada, sem recuperação intensiva, sem um único programa à escala do choque. Singapura, com a mesma proporção de imigrantes, tem-nos à frente dos nativos, 583 contra 554. E a investigação portuguesa já tinha avisado: a equipa de Luís Catela Nunes, na Nova SBE, mostrou que a diferença entre os alunos nascidos no Brasil e nos PALOP e os nascidos cá se explica pela escola e pela turma onde são postos, não pelo concelho onde vivem. Concentrar imigrantes nas mesmas turmas é uma decisão administrativa, não um destino.

Tudo isto é verificável em duas semanas com dados que o Ministério tem: seguir só os alunos nativos ao longo das quatro últimas edições, comparar o Norte e o Centro, onde há poucos imigrantes, com Lisboa e o Algarve, e ver se os nativos caíram tanto em escolas com 5% de imigrantes como em escolas com 20%. Se o Ministério preferir não saber, também é uma resposta. A imigração não é uma desculpa para o sistema. É mais uma acusação: um choque que chegou a todos, e ao qual uns responderam e outros não.

O pior momento da história para se ser mediano

Falta a última pergunta. Perder ano e meio de escola seria grave em qualquer década. Nesta, é outra coisa, porque perdemos precisamente aquilo que acabou de ficar escasso e mantivemos aquilo que acabou de ficar grátis.

Schleicher chama à leitura a “mãe de todas as competências”. Nos países da OCDE, a leitura caiu 28 pontos entre 2015 e 2025, cerca de ano e meio de escola. A OCDE nota que a percentagem de leitores apressados, os que passam a correr pelo texto e dão respostas rápidas e erradas, quase duplicou desde 2018. E foram os alunos mais favorecidos quem mais caiu: menos 20 pontos entre 2022 e 2025, contra menos 4 nos mais desfavorecidos. A decadência cognitiva deixou de ser um problema dos pobres.

Em Portugal, 31% dos alunos dizem que os colegas se distraem com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de Ciências (OCDE: 28%). Só 25% frequentam escolas onde o telemóvel está proibido (OCDE: 49%). E 48% já usam chatbots pelo menos uma vez por semana para estudar; 34% para escrever o primeiro rascunho dos trabalhos, acima dos 29% da OCDE. E a percentagem de alunos que acha que aprender coisas novas é aborrecido triplicou em três anos, de 5% para 15%.

É aqui que aparece a segunda desculpa: a culpa é dos telemóveis. Mas os telemóveis chegaram a todo o lado ao mesmo tempo. Chegaram à Estónia, ao Japão, à Coreia, a Inglaterra e a Singapura, onde os resultados se aguentaram ou subiram. O adolescente português não tem um telemóvel diferente do adolescente estónio; tem uma escola diferente. E o dado que nos separa não é a tecnologia, é a regra: metade dos alunos da OCDE estuda em escolas onde o telemóvel está proibido, em Portugal um quarto. Portugal alargou a proibição até ao 9.º ano este ano letivo, um ano depois de estas provas terem sido feitas. Chegou tarde, e sozinha não chega. O telemóvel não explica o nosso resultado; mostra quem decidiu governar a sala de aula e quem preferiu não decidir.

A OCDE compara a difusão da IA nas escolas sem evidência de impacto com administrar uma vacina não testada a milhões de crianças. Os dados que ela própria publica dão razão ao alarme: os alunos que usam a IA para redigir, resumir e pesquisar têm em média cerca de vinte pontos menos em Ciências, um ano de escola. É o cognitive offloading: a máquina faz e o músculo atrofia.

Há uma ironia portuguesa escondida nos dados. Na nova prova de resolução de problemas com ferramentas computacionais, Portugal obteve 501 pontos, acima da média da OCDE (500). Os nossos alunos sabem usar a máquina. O que não sabem é ler o texto de meia dúzia de páginas que a máquina resume por eles. Ficámos bons na parte que a máquina já faz e maus na única que ela não faz por nós.

A inteligência artificial e a robótica já não são ficção científica. Os nossos filhos e netos vão viver toda a vida nesse mundo. Como devemos prepará-los? Serem todos iguais deixou de ter interesse, porque “mediano” é o que a IA faz naturalmente, mais barato e melhor. O preço do habitual cai para zero. O valor migra para o juízo, a voz própria, a obra própria. Uma escola que produz mediania em série está a formar a geração mais substituível da história.

A mesma máquina, do outro lado

A tecnologia que atrofia o músculo é a mesma que o pode treinar, e essa é a melhor notícia que a educação recebeu em quarenta anos. Em 1984, Benjamin Bloom mostrou que um aluno com um explicador individual aprende, em média, dois desvios-padrão acima do aluno numa turma normal: o aluno mediano passa a fazer melhor do que 98% da turma. Chamou-lhe o problema dos dois sigmas, porque o explicador individual nunca foi escalável.

Portugal conhece bem o problema. A indústria das explicações, que movimenta fortunas à sombra do sistema, é a confissão nacional de que a escola oficial não chega, e o bilhete de entrada tem o preço exato da desigualdade que o sistema jura combater. Pela primeira vez na história, o explicador individual custa cêntimos.

A evidência favorável já existe e é mais forte do que se pensa. Na Nigéria, o Banco Mundial correu um ensaio aleatorizado com alunos do secundário do estado de Edo: seis semanas de sessões depois das aulas com um tutor de IA baseado no GPT-4, sempre com um professor na sala, produziram ganhos de 0,31 desvios-padrão, o que os autores estimam equivaler a entre ano e meio e dois anos de escola normal, e as raparigas, que partiam atrás, ganharam mais. No Gana, o Rori, um tutor de matemática que corre no WhatsApp, deu 0,36 desvios-padrão em oito meses com duas sessões de meia hora por semana, a cerca de cinco dólares por aluno por ano. Em Harvard, um ensaio aleatorizado em Física, publicado na Scientific Reports em 2025, concluiu que os alunos com um tutor de IA construído com boas práticas pedagógicas aprenderam mais do dobro, em menos tempo, do que os colegas numa das melhores aulas de aprendizagem ativa da universidade.

E depois há El Salvador, o caso de que mais se falou. O país entrou no PISA em 2022 no fundo da tabela e continua lá: 346 em Matemática, 366 em Leitura, 385 em Ciências em 2025, com apenas 12% dos alunos a atingir o nível mínimo em Matemática. Mas foi um dos poucos países do mundo a melhorar em Ciências (+12 pontos), e há pouco mais de um ano lançou, com financiamento do Banco Mundial, um programa de modernização em 171 escolas públicas que combina ensino estruturado, formação de professores e tutores de IA.

Em junho de 2026, 1.198 alunos dessas escolas fizeram o PISA for Schools, a prova da OCDE para escolas individuais. Os resultados ficaram acima da média nacional e ao nível das médias da Alemanha e da Suécia em 2022. O Banco Mundial chamou-lhes surpreendentes e muito encorajadores. Nayib Bukele alargou o programa a mais de mil escolas, promete todas as escolas públicas em dezoito meses e assinou com a xAI aquilo que ambos descrevem como o primeiro programa nacional de tutoria por IA do mundo: o Grok em mais de cinco mil escolas e um milhão de alunos, em dois anos.

Convém ler estes números com cuidado, e não é preciso ser cínico para o fazer. Os alunos salvadorenhos eram voluntários em escolas que já tinham entrado no programa; ninguém os comparou com um grupo de controlo; o pacote junta várias coisas ao mesmo tempo, e não se sabe quanto do salto é da IA e quanto do professor formado e do currículo estruturado; e quem anuncia o sucesso é quem financia o programa. Se a diferença de mais de cem pontos entre as escolas do piloto e a média nacional fosse causal, seria o maior salto educativo alguma vez medido, e saltos assim costumam ter uma explicação estatística antes de terem uma explicação pedagógica.

O que El Salvador prova é mais modesto e ainda assim humilhante para nós: um país com um quarto do nosso rendimento está a experimentar a sério, a medir e a escalar, enquanto nós nos encostamos à média.

A evidência contrária também existe, e ensina mais do que a favorável. Um ensaio de Hamsa Bastani e colegas numa escola secundária na Turquia, publicado na PNAS em 2025, deu a cerca de mil alunos acesso ao GPT-4 durante as sessões de prática de Matemática. As notas na prática subiram 48%. No exame, sem acesso, desceram 17% face a quem nunca tinha tido a ferramenta. Os alunos usaram-na como muleta. Uma versão com barreiras, que dá pistas em vez de soluções, eliminou o dano, mas não produziu ganho.

E em agosto deste ano Philip Oreopoulos e Nina Low publicaram o maior ensaio até à data: dois anos, dezoito escolas do Tennessee, quase sete mil alunos, com o Khanmigo, o tutor da Khan Academy, configurado para orientar em vez de responder. O ganho foi de 0,06 a 0,08 desvios-padrão por ano, o mesmo que a Khan Academy já dava sem IA. A razão está nos registos: o aluno mediano só falou com o tutor num terço dos dias em que praticou, e em apenas 17% das sessões em que errou. As mensagens eram quase todas respostas secas ou cliques em sugestões. A restrição não é a tecnologia; é conseguir que o adolescente a use.

Junte-se tudo e a regra é simples. A IA que faz o trabalho pelo aluno destrói a aprendizagem; a IA que obriga o aluno a fazer o trabalho constrói-a. A diferença está no desenho da ferramenta, na presença de um adulto e na exigência de uso. Os casos que funcionaram tinham as três coisas: sessões marcadas, professor na sala, tutor que não dá a resposta. Os que falharam deixaram o aluno sozinho com um chatbot genérico.

Ora reparem onde isso deixa Portugal: 48% dos alunos usam chatbots todas as semanas, sem desenho, sem professor formado e sem medição. A vacina não testada já está a ser administrada. Só que ninguém a receitou.

A Estónia, aquela que voltou ao top 10 mundial, mostra como se faz isto na Europa. Em setembro de 2025 lançou o AI Leap, sequela do Tiger Leap que nos anos noventa pôs computadores em todas as escolas: 154 das 156 escolas secundárias, vinte mil alunos do 10.º e 11.º anos, cinco mil professores. Primeiro formou os professores, que receberam acesso pago ao ChatGPT e ao Gemini e comunidades de prática dentro das escolas. Só depois, em janeiro de 2026, abriu aos alunos uma aplicação própria, desenvolvida com investigadores estónios e a OpenAI, que orienta o raciocínio e não dá respostas prontas. E encomendou uma avaliação aleatorizada a investigadores universitários, em cerca de cem escolas e nove mil alunos, para saber se funciona antes de o declarar. O melhor sistema educativo da Europa não banca a tecnologia nem a proíbe: testa-a.

O que Portugal devia fazer cabe num parágrafo. Um ensaio aleatorizado em duzentas escolas já neste ano letivo, em Matemática, onde a evidência é mais forte, com tutores desenhados para não dar respostas, sessões marcadas no horário e um professor na sala; avaliação por uma entidade independente; resultados públicos, escola a escola. E começar onde a alternativa é a cadeira vazia: 44% dos alunos portugueses estão em escolas cujos diretores dizem que a falta de professores prejudica o ensino (OCDE: 39%), concentrados em Lisboa, na Península de Setúbal e no Algarve. Um tutor de IA supervisionado não substitui um bom professor de Física. Substitui, com vantagem, o professor de Física que não existe. E, já agora, o professor de Física que fez greve.

Nada disto cabe neste organigrama

Portugal coloca professores nas escolas por concurso nacional gerido a partir de Lisboa. O diretor não escolhe, não promove, não despede. A tabela salarial é uma e cega às disciplinas: a escola não pode pagar mais ao professor de Física que o mercado lhe disputa, e por isso não há professores de Física. A progressão é por antiguidade, nunca por mérito: o professor extraordinário e o funcionário que despacha matéria estão no mesmo escalão, para sempre.

Os professores não são o problema; são as primeiras vítimas deste desenho. Dirigimos a educação no modelo soviético, e os resultados do PISA são o que esse modelo produz quando a tecnologia lhe retira as últimas desculpas. Uma escola que não pode escolher quem contrata também não vai conseguir escolher como usa uma ferramenta nova.

Se queremos resultados diferentes, a reforma tem de mudar a regulamentação, a governança e os incentivos. Autonomia às escolas para contratar, pagar, promover e despedir professores. Financiamento que segue o aluno, igual para todos à partida e majorado para quem custa mais a ensinar, para a escola que a família escolher, pública ou privada, com as mesmas exigências. Um Ministério que deixe de ser proprietário de mil escolas e passe a regulador com quatro funções: financiar, definir o mínimo, medir sem pudor, proteger quem o sistema deixa para trás. Já escrevi cada uma destas propostas em detalhe. Repito-as porque o PISA acabou de as tornar urgentes.

Basta

A resposta oficial, no próprio dia, mede a distância entre a urgência e a política. O secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo, chamou aos resultados “históricos, mas no sentido negativo”, e acrescentou que, do ponto de vista da política pública, não estão diretamente ligados ao período deste Governo. É verdade, e é irrelevante: os alunos que fazem o PISA em 2029 estão hoje no 7.º ano, e esses são responsabilidade deste Governo.

A meta anunciada, ficar acima da média da OCDE em 2029, é ficar acima de uma média em queda. As medidas anunciadas, bibliotecas no 1.º ciclo, um diagnóstico de fluência leitora e mais uma formação para professores, são boas e cabem numa reunião de direção de agrupamento. Nenhuma toca no desenho.

Ouvem-se três desculpas: que a média da OCDE também caiu, que a culpa é dos ecrãs, que a culpa é da imigração. Nenhuma sobrevive aos dados. Países com os mesmos ecrãs subiram. Países debaixo da mesma maré não desceram. Descontada a imigração, os alunos nativos perderam mais de um ano de escola. O que muda de país para país não é a tecnologia nem a demografia: é o que cada sistema exige, mede e permite. Aceitar um retrocesso de duas décadas porque outros também recuaram é a definição prática de complacência.

A complacência tem aliados em todo o espectro. A esquerda pedagógica que recusa medir para não hierarquizar. Os sindicatos que defendem a tabela única como se fosse a Constituição. A direita que governa a educação como quem gere uma folha de salários e chama coragem a cortar caixas no organigrama. E as famílias que já fugiram para o privado e deixaram de reclamar. Enquanto todos se acomodam, uma geração inteira perdeu ano e meio de escola e vai entrar num mercado de trabalho em que a IA faz de graça tudo o que é mediano.

O gráfico não mente: subimos até 2015 e apagámos o caminho de volta. Singapura e a China costeira mostram o teto da exigência. Inglaterra e a Estónia mostram que na Europa também se sobe. El Salvador, do fundo da tabela, mostra que até quem parte de 346 pontos consegue experimentar mais depressa do que nós. Nós, com dinheiro europeu e retórica de inclusão, escolhemos descer.

Os números de 2025 não pedem resignação. Pedem que a sociedade deixe de aceitar o inaceitável e que a política mude os incentivos, não só as caixas do Ministério. Os miúdos que vão fazer o próximo PISA já estão sentados nas salas. A próxima janela fecha em 2029.

Quem visita a torre de Pisa vê sempre a mesma coreografia: dezenas de turistas de braço esticado, a fingir que a seguram. A torre começou a inclinar-se durante a própria construção, porque o solo era mole, e assim ficou durante oitocentos anos. O que a salvou, nos anos noventa, foi uma comissão internacional que fez a coisa contraintuitiva: em vez de escorar o lado que caía, retirou terra do lado alto, e a inclinação recuou meio grau. A correção não foi na torre; foi no solo. Continua torta, deixou de estar a cair e vive muito bem de ser fotografada.