Os hospitais continuam a marcar passo na produção cirúrgica. Nos primeiros seis meses de 2026, o SNS realizou menos cerca de 20 mil cirurgias programadas, o que corresponde a uma diminuição de 4,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Com a procura por cirurgias a aumentar, a quebra na produção teve o efeito esperado: o aumento das listas de espera. Em junho, mais de 278 mil pessoas aguardavam por uma cirurgia (mais 4,2% do que em junho do ano passado), segundo os dados mais recentes do Portal da Transparência do SNS. No entanto, o indicador que mais se deteriorou foi outro: o dos doentes que esperam por uma cirurgia fora dos Tempos Máximos de Resposta Garantida (TMRG) e que, em junho, eram cerca de 88 mil, mais 17,9% que no mesmo mês do ano passado.
Ao Observador, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) alerta que o SNS “não está a dar resposta” e considera “preocupante” o aumento expressivo do número de pessoas a aguardar para lá do tempo clinicamente definido. Xavier Barreto pede ao Ministério da Saúde que dê indicações claras aos hospitais para não condicionarem a atividade cirúrgica adicional. Já a Direção Executiva do SNS justifica a quebra na produção cirúrgica precisamente com a diminuição nas cirurgias extra.
A tendência de diminuição do número de cirurgias vem já desde o último semestre de 2025, e agravou-se em 2026. Entre julho e dezembro do ano passado, os hospitais do SNS fizeram menos 0,7% de cirurgias do que no mesmo período anterior. Mas o novo ano começou mal e o avançar dos meses tem vindo a confirmar a quebra nesta área.

No primeiro semestre de 2026, foram realizadas 394.743 cirurgias programadas (convencionais e de ambulatório), menos 4,7% do que as 414.139 feitas no primeiro semestre de 2025.
Número de cirurgias diminuiu em dois terços das Unidades Locais de Saúde
A diminuição da atividade cirúrgica do SNS entre janeiro e junho de 2026 registou-se em três das cinco regiões de saúde do país: Norte, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo (LVT). A região de LVT foi a que teve a maior quebra da produção cirúrgica no primeiro semestre de 2026, com uma diminuição de 9,2% (menos cerca de 13 mil cirurgias). Segue-se o Alentejo, com uma quebra de 6% no número de cirurgias e a região Norte, com menos 4,2% (menos cerca de 7 mil cirurgias). A tendência de agravamento foi apenas contrariada pela região do Algarve, cujos hospitais realizaram mais 10,8% de cirurgias, e pela região Centro (mais 1,1%).
Numa análise mais fina, que inclui as Unidades Locais de Saúde (ULS) e os Institutos Portugueses de Oncologia (IPO), é possível perceber que a quebra na produção cirúrgica se verificou em cerca de dois terços das ULS e IPO — 28 em 42.
As ULS de Braga e de Santa Maria foram as que registaram uma maior quebra nas cirurgias. O hospital de Braga fez menos 28,9% de cirurgias (menos cerca de sete mil) no primeiro semestre de 2026 em relação ao período homólogo, enquanto a quebra na ULS de Santa Maria foi de 26,9% (menos cerca de oito mil). Também a ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, com sede em Vila Real, registou um decréscimo significativo na atividade cirúrgica, de 21,2%. Quase a par está a ULS do Alto Ave, com sede em Vila Nova de Famalicão, com menos 21,1% de cirurgias entre janeiro e junho, em relação ao primeiro semestre de 2025. O IPO de Lisboa fez menos 15,6% de cirurgias no primeiro semestre.
Por outro lado, a ULS de Barcelos/Esposende (com mais 19,4%), a ULS do Baixo Mondego (mais 14,8%) e a ULS de Matosinhos (mais 11,1%) destacaram-se pela positiva, em contraciclo com a tendência de quebra global do SNS.
No final de abril, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu que se registou uma quebra na atividade do SNS nos dois primeiros meses deste ano, justificando o fenómeno com o pico da gripe, com a suspensão da atividade programada em muitas ULS e com o facto de o calendário ter tido menos um dia útil em janeiro e fevereiro de 2026. No entanto, e depois de ultrapassada a época mais crítica das infeções respiratórias no inverno (que obrigou ao cancelamento de muitas cirurgias), a atividade cirúrgica continuou em quebra nos hospitais nos meses seguintes, o que parece indicar que as causas são mais estruturais que conjunturais.
Já em março, o diretor executivo do SNS deu instruções aos hospitais para não aumentarem a produção assistencial (consultas e cirurgias) em 2026 e avisou que não haveria reforço de recursos financeiros e humanos este ano para além do que está previsto, como noticiou o Observador. A mensagem transmitida era a de que seria necessário conter a atividade assistencial, de forma a controlar a despesa do SNS, o que causou desagrado nos administradores hospitalares.
https://observador.pt/2026/03/06/direcao-executiva-trava-aumento-de-consultas-e-cirurgias-nos-hospitais-em-2026-gestores-avisam-listas-de-espera-vao-agravar-se/
O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, considera que a diminuição na produção cirúrgica no SNS é resultado de uma má gestão do tema da produção adicional, na sequência dos casos de abuso noticiados em vários hospitais, nomeadamente o que envolveu o médico dermatologista Miguel Alpalhão.
“O Ministério da Saúde não deu uma palavra de confiança aos hospitais quando a devia ter dado. Deveria ter liderado, deveria ter dito aos hospitais que a atividade adicional não devia parar”, critica Xavier Barreto, lembrando que alguns Conselhos de Administração, nomeadamente os mais afetados pelos casos noticiados na imprensa (como Braga e Santa Maria) decidiram limitar a atividade adicional, o que resultou em quebras significativas no número de cirurgias.
“Alguns hospitais ainda não retomaram a atividade adicional”, sublinha o presidente da APAH.
A Direção Executiva do SNS admite a quebra de 4,7% no número de cirurgias no primeiro semestre, mas realça que essa diminuição ocorreu apenas na produção adicional. “Resulta da diminuição da atividade cirúrgica adicional, que registou uma quebra de 11,4%. Em contrapartida, a produção base aumentou 0,4%“, realça a DE-SNS, explicando que se encontram “em curso diversas medidas destinadas a reforçar o acesso a consultas e cirurgias e a promover uma recuperação mais célere da atividade adicional”.
Entre elas está, sublinha a entidade liderada por Álvaro Almeida, a portaria que regula as regras de pagamento da produção adicional, “no sentido do reforço dos incentivos à atividade adicional”, e a introdução do SINACC, “cuja implementação progressiva nas ULS permitirá aumentar a eficiência na gestão dos utentes em espera, agilizar o encaminhamento para resposta disponível e contribuir para a redução dos tempos de espera e da Lista de Inscritos para Cirurgia (LIC)”.
Utentes a aguardar cirurgia para lá do tempo máximo aumentam 18%
A verdade é que, com a procura por cuidados de saúde a aumentar e com a atividade cirúrgica do SNS em quebra, a Lista de Inscritos para Cirurgia tem agora mais doentes a aguardar do que há um ano. No final de junho, estavam à espera de uma cirurgia 278.304 pessoas, mais 4,2% do que as 267.023 pessoas que estavam na mesma situação no final do primeiro semestre de 2025.
No entanto, foi um outro indicador a ter um crescimento mais significativo: os doentes que esperam para lá dos TMRG, ou seja, do tempo clinicamente recomendado. Eram 88.077 doentes em junho de 2026, mais 17,9% do que um ano antes. Com esta deterioração, a percentagem de doentes que aguarda fora do TMRG passou de 28% do total de inscritos no primeiro semestre de 2025 para 31,6% do total no mesmo período de 2026.

No entanto, há ULS onde mais de metade dos doentes aguardam para lá do tempo clinicamente recomendado. É o caso, por exemplo, da ULS Loures-Odivelas (63%), a ULS do Estuário do Tejo (55%) e da ULS do Algarve (51%).
Protesto dos médicos e cancelamento de cirurgias pode vir “a piorar” a situação, admitem administradores hospitalares
O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares avisa que o “SNS está a receber mais doentes e não está a dar resposta”, o que, diz, “tem consequências ao nível dos doentes que esperam para lá do tempo máximo de resposta, e que é o mais preocupante”, sublinha. Xavier Barreto lembra que “se o TMRG foi definido é porque existe uma janela terapêutica para intervir”. Não sendo respeitada, “presume-se que o quadro clínico se possa vir a agravar”, vinca.
https://observador.pt/especiais/governo-quer-descontar-preco-das-proteses-ao-valor-a-pagar-as-equipas-de-cirurgia-medicos-recusam-e-ja-ha-operacoes-canceladas/
O presidente da APAH estima que a redução do número de cirurgias que se registou até junho “dificilmente será recuperada até final do ano, com consequências ao nível dos tempos de espera”, e admite que o cenário ainda poderá vir a agravar-se no segundo semestre de 2026, uma vez que os dados mais recentes — referentes ao primeiro semestre — ainda não refletem a paragem das equipas cirúrgicas que se registou a partir de julho, quando os médicos recusaram o conteúdo de uma portaria que define as novas regras de pagamento da produção adicional e que foi publicada no final de junho.
“Este cenário ainda pode piorar. Em julho, muitas equipas pararam, porque não sabiam como iam ser pagas. E ainda hoje subsistem dúvidas”, garante Xavier Barreto. Recorde-se que muitos hospitais foram obrigados a suspender as cirurgias programadas em julho devido à contestação dos médicos (sobretudo ortopedistas, oftalmologistas e neurocirurgiões) ao conteúdo da portaria n.º 281/2026, nomeadamente devido à alteração que prevê que o valor das próteses e dispositivos médicos implantáveis seja descontado no valor a pagar às equipas cirúrgicas.