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(A) :: Afinal, o que é que Trump fez e não fez no 11 de Setembro?

Afinal, o que é que Trump fez e não fez no 11 de Setembro?

Trump afirma ter sido retirado por bombeiros devido a um edifício em risco de colapso após o 11 de Setembro, mas sem provas. Em resposta às dúvidas, responde com ataques nas redes sociais.

João Paulo Godinho
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“O edifício da United States Steel rangia, rangia mesmo, e pensámos que ia desabar. A verdade é que rangia imenso. Rangia. Ainda range, mas nunca desabou. E nunca vou esquecer dois bombeiros. Pensámos que o edifício ia cair em cima de nós, e dois bombeiros, tipos grandes e fortes — e eu não sou propriamente o tipo mais pequeno do mundo —, agarraram-me debaixo do braço e disseram: ‘Temos de sair daqui.’ E levantaram-me, literalmente. Isto não é fácil de fazer. Sou grande. Levantaram-me e começaram a correr comigo. Eu disse: ‘Rapazes, eu consigo correr sozinho’, mas eles foram incríveis.”

As palavras são do Presidente dos EUA, Donald Trump, e foram proferidas esta terça-feira, num discurso nas imediações da Casa Branca, no qual introduziu uma nova camada sobre as suas recordações da sua experiência no 11 de Setembro de 2001.

A data eternizada pelo ataque terrorista ao World Trade Center cumpre na sexta-feira 25 anos e Trump já falou várias vezes ao longo dos anos sobre esse acontecimento marcante na história de Nova Iorque, com a CNN e o New York Times a darem conta de alegações não verificadas e que parecem aproximar cada vez mais o atual Presidente norte-americano do Ground Zero.

https://twitter.com/livenowfox/status/2097364578845749353

Na verdade, segundo a CNN, Donald Trump não se encontrava perto das Torres Gémeas no 11 de Setembro, nem foi retirado naquele dia das imediações de um edifício em risco de ruir na zona dos ataques. O presidente dos EUA não especificou na sua intervenção o momento em que terá sido levado pelos bombeiros, mas havia declarado antes que se deslocou ao Ground Zero pouco depois do ataque, deixando no ar a ideia de que tinha acontecido ali e naquele dia.

No entanto, Trump estaria então na Trump Tower, em Midtown Manhattan, a pelo menos sete quilómetros de distância, quando o ataque ocorreu. Aliás, um antigo executivo da Trump Organization referiu em 2016 ao Politico que Trump não fez nada de especial nesse dia. O que é possível verificar — e que o líder da Casa Branca já partilhou na rede Truth Social — é um vídeo no qual foi entrevistado dois dias depois pela NBC News nas imediações do epicentro dos ataques terroristas em Nova Iorque.

Donald Trump fez também nesta terça-feira uma descrição do cenário que diz ter encontrado no colapso das Torres Gémeas, assegurando nunca ter visto uma “quantidade tão inacreditável de aço e, infelizmente, de corpos e de tudo o que se possa imaginar”, uma vez mais passando a impressão de ter estado no local logo após o ataque. Contudo, já em 2019, após uma cerimónia de homenagem aos trabalhadores envolvidos na resposta de emergência à catástrofe, Richard Alles, um antigo responsável nos bombeiros de Nova Iorque, tinha garantido que nunca viu Trump no local: “Eu próprio passei muitos meses lá e nunca o vi“.

Já a referência ao edifício que estaria na iminência de ruir diz respeito ao One Liberty Plaza. Os dois meios de comunicação referem que existiram receios infundados de que o edifício pudesse também ruir nos dias seguintes. Contudo, o One Liberty Plaza acabaria por reabrir cerca de dois meses depois do ataque — no qual morreram 2.996 pessoas (incluindo as vítimas do ataque no Pentágono e no voo 93 da United Airlines, bem como dos terroristas que executaram os ataques) — e continua hoje de pé.

Adicionalmente, Trump revelou também ter levado uma equipa de operários de construção para o local. “Estava a construir um grande edifício em Nova Iorque e levei toda a equipa para lá logo a seguir a isto“, disse. Em resposta ao exame do NYTimes e da CNN às suas afirmações, Donald Trump publicou também na sua rede social um outro vídeo no qual é entrevistado por jornalistas depois do 11 de Setembro e no qual mencionava já os trabalhadores da sua empresa.

Porém, Richard Alles já tinha explicado também em 2019 que, se Donald Trump tivesse uma equipa de 100 trabalhadores a apoiar os trabalhos de recuperação no local, então “haveria registo disso” na resposta de emergência. “Todos trabalharam sob a supervisão direta da polícia, dos bombeiros e do comandante conjunto dos serviços de emergência”, referiu. Já a Associated Press noticiou em 2016 que “as reportagens dos dias imediatamente a seguir ao 11 de Setembro incluem referências a Trump a dar high-fives a agentes da polícia e voluntários a caminho do local do World Trade Center“.

O contra-ataque de Trump com vídeos na Truth Social

Foi através da Truth Social que Donald Trump centralizou a sua resposta às peças do New York Times e da CNN. Se, por um lado, sinalizou que não esteve no Ground Zero no “mesmo dia do colapso, mas pouco tempo depois”, por outro lado reiterou a sua presença com o grupo de trabalhadores e sustentou as suas palavras com vídeos de meios de comunicação social divulgados nos dias a seguir ao ataque.

Tudo o que disse foi absolutamente exato e, para provar o meu ponto de vista, estou a anexar vídeos de mim lá com vários dos meus colaboradores, incluindo o meu então chefe de segurança, Matthew Calamari, que confirmou essa viagem muito triste à parte baixa de Manhattan, muitas vezes, a muitos jornalistas diferentes, mas é uma história que simplesmente não desaparece. A Fake News não quer ouvir, mesmo sabendo que a sua história é falsa. É por isso que os seus índices de aprovação estão no MÍNIMO histórico, mas os meus estão MUITO ALTOS!”, afirmou.

Todavia, um estudo realizado para o jornal Financial Times indicou no domingo a queda dos níveis de aprovação de Donald Trump para um valor mínimo de 33% entre os americanos. A queda é também comum no apoio entre os eleitores republicanos, onde a sua taxa de aprovação caiu dois pontos percentuais, para um valor mínimo de 72%.

A terminar a sua reação, o Presidente norte-americano atacou novamente a comunicação social. “As notícias falsas estão a piorar cada vez mais nos EUA. É muito importante comentar isto para que as pessoas compreendam que mentirosos e canalhas são estes chamados ‘jornalistas’. Estão furiosos e revoltados com o facto de eu ter ganhado as eleições presidenciais três vezes!”, disse Trump, incluindo na sua contabilidade vitoriosa a derrota que teve nas eleições contra Joe Biden, em linha com a tese de fraude eleitoral proclamada desde novembro de 2020 e que contribuiu para a invasão ao Capitólio.