“Santo António: O Casamenteiro de Lisboa”
Na nova comédia de Ruben Alves, o autor de A Gaiola Dourada (2013), os Casamentos de Santo António estão em perigo por falta de patrocinadores e de interesse geral. A Câmara Municipal de Lisboa pondera entregar a sua realização a uma grande empresa francesa especializada, e Carmo (Rita Blanco) e Valentim (Joaquim Monchique), os dois devotados funcionários municipais que há mais de 25 anos dirigem o evento, veem-se encostados à parede: ou fazem uma edição dos Casamentos moderna, mediática e de sucesso com um orçamento reduzido, ou são demitidos. Nem a intervenção de um batalhão de santinhos protetores salvava Santo António: O Casamenteiro de Lisboa: história sem jeito, personagens entre o primário e o abaixo de caricatural (a beata solteirona de Maria Rueff bate todos os recordes), humor esfarrapado, ambiente “popular” postiço e uma pose crítica da massificação turística, da gentrificação e da descaracterização de Lisboa que colide com a imagem de “postalinho para turista” da cidade tal como o realizador a filma. O casal Blanco/Monchique faz o que pode para distrair da inanidade geral, mas não chega, nem por sombras.
https://www.youtube.com/watch?v=PR6l5lfjric
“Filho de Ninguém”
Quando a mulher morre num desastre de automóvel, Thomas (Romain Duris) fica sozinho com Mapring, o menino tailandês de quatro anos que o casal havia adotado há pouco tempo, e com o qual a falecida se relacionava melhor e mais naturalmente do que o marido. Profundamente afetado pela perda da mulher, e sem jeito nem paciência para lidar com a criança, Thomas decide regressar com ela à Tailândia, procurar a sua família biológica e devolvê-la a esta. A tarefa não é fácil, dada a pouca informação que tem, e começa a percorrer o país com o menino na companhia de um guia local, até conseguir encontrar aquela que parece ser a mãe de Mapring. Assinado por Safy Nebbou, Filho de Ninguém, um remake do filme norueguês Hjertestart, de Aril Andresan (2017), mas passado em diferentes paragens geográficas, nunca consegue atingir a intensidade emocional e a solidez dramática necessárias para que uma história com estas características encontre a devida ressonância nos espectadores, mesmo tendo em conta o cuidado e a delicadeza do realizador, correspondidos pela interpretação de Romain Duris.
https://www.youtube.com/watch?v=EieDM2pKUDE
“Hope”
Em Hope, o sul-coreano Na Hong-jin, realizador de O Lamento (2016), pegou num tema querido à ficção científica hollywoodesca, e sobretudo à sua série B, a pequena cidade que tem que enfrentar uma invasão alienígena, e afeiçoou-o a uma localização e uma atmosfera tipicamente sul-coreanas: a remota e plácida vila costeira de Hope, próxima da Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, onde abundam os cartazes avisando contra os espiões e sobre os campos minados. É numa das estradas que lá vão dar que aparece um boi morto e horrivelmente mutilado por um animal não identificado. Um tigre, provavelmente, como adiantam ao chefe de polícia local os membros do grupo de caçadores que achou o animal. Mas a realidade é muito mais assustadora, e a vila começa a ser destruída e os seus habitantes mortos por um monstro alienígena. E este não é o único que anda pela região a espalhar a devastação e o pânico. Hope foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.