(c) 2023 am|dev

(A) :: Jerry Seinfeld e os puros de coração



Jerry Seinfeld e os puros de coração



A nova pureza moral também se mede por proximidade. Primeiro contamina-se o colega de cartaz, depois o promotor, a seguir a marca e, no fim, o espectador. quem não se afastar de Seinfeld é suspeito.

Eduardo Alferes Conceição
text

Que um grupo de artistas decida abandonar um festival de humor por recusa em partilhar o cartaz com Jerry Seinfeld é um ato rigorosamente individual. Cada qual é livre de gerir a sua carreira, a sua fobia ao contraditório e os limites da sua tolerância. A tragédia cultural não reside na desistência voluntária dos melindrados; começa no passo seguinte, quando a mera proximidade num folheto de programação passa a ser julgada como cumplicidade moral.

Ergueu-se na nossa esfera pública um tribunal de purificação por contágio. Sob esta lógica inquisitorial, partilhar um palco equivale a subscrever uma doutrina, tolerar uma voz divergente equivale a legitimá-la, e legitimá-la equivale a cometer o pecado da cumplicidade. O festival de humor, que devia ser o ecossistema por excelência da transgressão, do excesso e da convivência com o absurdo, é assim convertido num estrito mapa de conformidade ideológica. De um lado alinham-se os puros, aprovados pelo teste do momento; do outro, os excomungados. No meio, asfixia-se o espaço para quem recusa prestar vassalagem a este patrulhamento.

O princípio do pluralismo não aceita cláusulas de exceção. A defesa do direito de Seinfeld integrar um cartaz não pode depender de concordarmos ou discordarmos das suas posições geopolíticas sobre o Médio Oriente, o princípio teria de ser rigorosamente o mesmo perante um artista de linha oposta. Ou aceitamos que a cultura e o espaço público existem para abrigar perspetivas irreconciliáveis, ou transformamos a vida civilizacional numa coleção de guetos ideológicos, onde cada tribo só consome o espelho da sua própria convicção.

O perigo desta espiral é a sua capacidade de contaminação em cadeia. Primeiro julga-se o comediante que recusa sair do cartaz; depois o promotor que o contratou; a seguir o espectador que comprou o bilhete; e, inevitavelmente, a marca que financia o recinto. Ninguém passa a ser avaliado pelo trabalho que faz, mas pela distância de segurança que conseguiu manter em relação ao dissidente de serviço.

É aqui que o caso da MEO e do seu omnipresente “Humaniza-te” ganha contornos pedagógicos. As marcas comerciais passaram anos a alimentar a ilusão de que tinham alma, causa e propósito político, crentes de que a encenação da virtude aumentava as vendas. Foi, muitas vezes, uma escolha oportunista. Ao trocarem a utilidade comercial pela pregação moral, as empresas armaram a armadilha em que hoje caem. Uma marca não é um cidadão, não vota, não tem consciência e não passa noites em branco por causa de Gaza; é uma pessoa coletiva com acionistas, trabalhadores e contas para pagar. Ao fingirem que eram faróis éticos da sociedade, as empresas deram à turba o direito de lhes exigir coerência a cada patrocínio, silêncio ou escolha de programação.

Uma sociedade adulta e verdadeiramente plural não se afere pela facilidade com que convivem os alinhados do costume. Mede-se pela capacidade de preservar lugares comuns quando as opiniões em confronto são desconfortáveis ou ofensivas. Se para subir a um palco, patrocinar um evento ou simplesmente comprar um bilhete for exigido um certificado prévio de conformidade ideológica, a cultura morre. Sobra apenas a reunião de fação, e essa é a única coisa verdadeiramente desprovida de graça num festival de humor.