Jerry Seinfeld ainda não chegou a Lisboa, mas já conseguiu esvaziar um festival sem sequer subir ao palco. Não deixa de ser impressionante para um artista deste gabarito. Esperar-se-ia uma enchente para ver aquele que é, para muitos, um dos obreiros de uma das mais prestigiadas sitcoms de sempre. Em Lisboa, porém, Seinfeld parece estar a afastar artistas antes de conseguir atrair público.
A sua presença no Commedia a La Carte Fest tem motivado a desistência de vários artistas portugueses, incomodados com as posições políticas do comediante sobre o conflito na Faixa de Gaza. Inês Aires Pereira foi particularmente clara: não quer contribuir para “relativizar ou normalizar um genocídio”. Outros foram menos explícitos, mas suficientemente criativos. Os Cebola Mol despediram-se acompanhados por uma melancia. Não é preciso ser especialista em semiótica para perceber a mensagem.
A debandada já permite imaginar Seinfeld em Nova Iorque, devastado ao descobrir que Inês Aires Pereira não vai estar em Lisboa. Se Carolina Deslandes também não aparecer, talvez seja ele próprio a cancelar.
Comecemos pelo óbvio: qualquer artista tem todo o direito de não atuar. Há, aliás, alguma dignidade em aceitar um prejuízo profissional em nome de uma convicção moral. O problema começa quando se tenta perceber o que significa, neste caso, “normalizar”.
Inês Aires Pereira não iria abrir o espetáculo de Seinfeld. Os Cebola Mol não foram convidados para cantar um hino a Israel. Foram contratados para apresentar os seus próprios espetáculos num festival onde, entre muitos outros artistas, atua Jerry Seinfeld.
Desde quando partilhar um cartaz significa partilhar uma opinião?
A pergunta pode parecer provocatória, mas a resposta interessa. Se a simples presença num mesmo festival estabelece uma espécie de solidariedade política entre os seus participantes, organizar eventos culturais tornar-se-á bastante mais exigente. Talvez seja prudente acrescentar à lista de exigências técnicas uma pequena declaração ideológica: dois microfones, três garrafas de água, uma toalha no camarim e posição detalhada sobre a independência da Catalunha.
E o princípio, levado a sério, não pode terminar em Seinfeld. Se um artista responde moralmente pelas posições políticas dos restantes nomes de um cartaz, por que não também pelas práticas do promotor que o contrata, da marca que patrocina o evento ou do Estado que o financia? Onde acaba esta cadeia de responsabilidade?
É aqui que a indignação começa a exigir alguma contabilidade.
Um dos nomes que, entretanto, se retirou participou, em 2023, no Noor Riyadh, um festival artístico realizado na capital da Arábia Saudita. Mais recentemente, produziu ainda uma obra monumental de Cristiano Ronaldo para a House of Nassr. Ora, a Arábia Saudita não é propriamente conhecida pela sua tradição escandinava de direitos humanos.
Pode responder-se que são situações diferentes. São. Aliás, há uma diferença particularmente relevante: Jerry Seinfeld é um comediante; a Arábia Saudita é um Estado.
Convém, por isso, alguma prudência antes de distribuirmos certificados de pureza moral.
Nada disto diminui a gravidade do sofrimento em Gaza, nem significa que todas as causas sejam equivalentes. Uma pessoa pode mudar de opinião, estabelecer novas linhas vermelhas ou considerar determinado acontecimento especialmente grave. Mas um princípio moral vale também pela consistência com que estamos dispostos a aplicá-lo. Caso contrário, corre o risco de se tornar bastante mais conveniente: princípio quando toda a gente está a olhar, exceção quando ninguém está.
Talvez seja essa a parte mais desconfortável desta história. Já não parece suficiente discordar de alguém. É preciso demonstrar que não se partilha sequer o espaço onde essa pessoa existe.
É uma conceção curiosa de pluralismo.
Um festival pode reunir pessoas que pensam coisas radicalmente diferentes sem se tornar numa declaração conjunta de princípios. Ou, pelo menos, podia.
Há ainda uma pequena ironia em tudo isto. Seinfeld continua anunciado para atuar em Lisboa. Quem está a desaparecer são aqueles que não querem partilhar o palco com ele. Na tentativa de não legitimarem o palco, acabaram, literalmente, por lhe deixar mais palco.
Os artistas que saíram fizeram uso de uma liberdade que ninguém lhes deve negar. Convém apenas não confundir essa liberdade com uma obrigação moral para os restantes. Um cartaz pode ter muitos nomes, mas não tem, por isso, de ter uma só opinião.