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Portugal ou o barco de Teseu: as tábuas que mudam para que tudo permaneça

Em português, respira-se ar puro quando se trata de ar livre. A pureza não é continuidade imaculada, mas abertura rumo à liberdade, ao espanto, aos encontros, aos recomeços, à imaginação.

Rui Maia Rego
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“Tudo é disperso, nada é inteiro.” – Fernando Pessoa

Para começar a celebrar os 900 anos de Portugal, impõe-se uma pergunta: fomos sempre os mesmos? Se sim, celebramos apenas a continuação? Trata-se apenas de duração? E se não fomos sempre os mesmos, corre-se o risco de o país acabar ou desaparecer?

1. Portugal não se desfaz porque nunca foi inteiro

Portugal parece ser uma persistente pergunta viva. Portugal dificilmente se desfaz, porque nunca foi feito de uma só peça. Fez-se mais de parcelas em movimento do que de âncoras intactas. Portugal não é uma realidade pura, imóvel e fechada, mas uma recomposição constante. Lembra o barco de Teseu.

Teseu, na mitologia grega, é o herói que mata o Minotauro; o barco em que regressa terá sido preservado pelos atenienses. Como notará Plutarco, ao longo dos anos as peças do barco vão-se degradando e sendo substituídas. A dúvida que permanece é saber se, trocadas todas as peças, seria ainda o mesmo barco. Se sim, o que faz com que continue a ser o barco de Teseu? Uma memória evocativa do que foi?

No caso português, a pergunta ganha uma forma particular: poucas nações europeias conservaram durante tanto tempo uma imagem territorial tão reconhecível e, ao mesmo tempo, mudaram tantas vezes de escala histórica. Portugal foi reino peninsular, potência marítima, império pluricontinental, país pós-imperial, membro da União Europeia e parte de uma comunidade linguística que já não cabe dentro do Estado português. Tendo administrado territórios distintos, habitado posições tão diferentes no mundo e feito da língua uma casa mais vasta do que o próprio país, o que permanece? Terá sido constante o modo como nos vemos a nós mesmos?

Mapa impresso de 20 de maio de 1561. Reprodução a partir do trabalho do cartógrafo Fernando Álvares Seco.

2. Portugal visto de lado: mapas e novos ângulos

O primeiro mapa de Portugal isolado data do século XVI. O mapa fora preparado no contexto de uma embaixada enviada pelo rei D. Sebastião a Roma, cerca de duas décadas antes da crise dinástica que levaria Portugal à perda da independência. Preparado por Fernando Álvares Seco, não se conhece o paradeiro desse primeiro desenho; foi oferecido a um cardeal e terá sido visto por poucos.

O mapa que vemos na imagem é uma reprodução impressa em Veneza, datada de 20 de maio de 1561. A mais antiga reprodução conhecida de Portugal isolado tem uma orientação curiosa. No mapa, o oceano surge em cima, o Reino do Algarve à esquerda e o Minho à direita.

Um mapa é um objeto misterioso: concentra num pequeno papel uma visão que nenhum horizonte, por mais amplo, nos permite alcançar de uma só vez. Permite-nos ver de cima aquilo que nos habituámos a ver no horizonte. Não existia então, entre os portugueses, a familiaridade com a visão aérea a que os modernos satélites nos habituaram. Por outro lado, não é o mapa aquilo que se habita: vive-se entre rios, caminhos, árvores, vizinhos, lugares concretos que muitas vezes pesam mais na experiência do território do que as fronteiras desenhadas no papel. O vizinho vê-se de frente, não de cima.

Embora o mapa seja a materialização de uma visão de Portugal, não é garantia da ideia do país. Mesmo se pensarmos nas fronteiras, embora Alcanizes (1297) tenha consolidado uma fronteira que, com o tempo, foi sendo uma das mais estáveis da Europa, não deixou de ser uma fronteira diluída. A circulação entre países estava longe da inspeção a que somos hoje sujeitos e que é, não raras vezes, humilhante. O direito a circular era das gentes e não uma prerrogativa dos Estados.

Portugal não careceria de um desenho para ser Portugal, nem de fronteiras, pois não parece ter deixado de existir nem ao perder a sua independência, nem na variação geográfica dos territórios que administrou.

3. Povos, língua e temperos

Recuperando a imagem do barco de Teseu, a pretensa inteireza de Portugal é feita de elementos cruzados, substituições constantes. Apenas por ignorância ou má vontade pode fazer-se tábua rasa das muitas tábuas que vão compondo este país-barco. O modo de nos vermos e de termos memória sobre nós próprios vai mudando.

Dos povos eles mesmos que por aqui foram e vão andando, e dos seus legados, contam-se lusitanos, romanos, celtas, suevos, visigodos, moçárabes, judeus, muçulmanos, francos, africanos, brasileiros, asiáticos, retornados, imigrantes recentes, etc.

A língua portuguesa transforma-se e enriquece, morre e nasce através de novos falantes. Absorve elementos de várias línguas e está presente noutras tantas. Assim, não pertencendo apenas a Portugal, a língua é um grande tesouro e também um mapa que une geografias diversas.

Por fim, no campo gastronómico, imagem e símbolo do país, alguns dos temperos que consideramos tão nossos vieram de geografias longínquas.

Como lembra o filósofo Viriato Soromenho-Marques, quando a Alemanha estava a nascer como Estado-nação moderno (em 1871), já em Portugal se escrevia, pela mão de Antero de Quental, As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871). Enquanto uns nasciam, por cá vivia-se o cansaço de existir. Refletia-se sobre os vetustos vícios da pátria. Instalava-se o charme da decadência, cultuado pelos “vencidos da vida”. Este ambiente marca o nosso século XIX e o que o seguiu. Ainda hoje oscilamos entre dois retratos: de um lado, Portugal como glorioso maquinista da história; do outro, como passageiro que chega sempre atrasado ao comboio.

Atual bandeira de Ceuta.

4. Tábuas soltas ou a fuga do espelho

Talvez importe olharmos de forma diversa os mapas, as gentes, as fronteiras. Por caricatura, acusa-se a Idade Média europeia de obscurantismo, mas talvez dê que pensar que, de certo modo e apesar do perigo da jornada, era então possível viver e circular sem fronteiras.

Como bem diagnosticou a filósofa espanhola Adela Cortina, estamos a desenvolver uma “aporofobia”, isto é, medo das pessoas pobres ou numa situação socioeconómica fragilizada. Por isso, aceitamos imigrantes que tragam capital (até criamos vistos Gold) e tornamos vergonhosamente ineficaz uma AIMA que deveria ser plenamente a Agência para a Integração, Migrações e Asilo. Num país marcado pela emigração e com longos períodos históricos de pobreza, há quem não queira aceitar as tábuas de que somos feitos ou queira evitar o espelho do que também nos constitui.

Também não deixa de ser irónico que por Ceuta — que mantém o brasão de Portugal na sua bandeira — tantos tenham tentado entrar na Europa, muitos sendo devolvidos, alguns morrendo pelo caminho. Não se trata de negar que uma entrada súbita e numerosa num território pequeno levante problemas reais de gestão, segurança e acolhimento. Mas o contraste permanece: a mobilidade é recebida de modo muito diferente quando vem acompanhada de capital, consumo ou promessa de rendimento. O que inquieta é esta tendência para medir a dignidade humana pela utilidade económica de quem chega.

Podemos, como um país de emigrantes, olhar para os imigrantes com desconfiança automática? Um país que conheceu pobreza pode ver os pobres como preguiçosos, indignos de crédito? Podemos insistir na pergunta interesseira: têm os que chegam valor de mercado, são mão de obra? Mas onde fica a herança humanista, ela mesma, que olha o humano antes mesmo da sua circunstância, etiquetagem, etc.? Pode fechar-se um país cuja construção se apoia grandemente em partidas e gestos de abertura ao mundo?

5. Novos mapas, ou a recusa do motor imóvel

Voltamos ao início. Tem ainda Portugal as mesmas tábuas? É capaz de estabelecer um rumo? É capaz de integrar o novo que chega? Seremos capazes de hospitalidade? Fazer do acolhimento uma identidade, sem estarmos sempre com cálculos de reciprocidade?

Não só os tempos e as vontades se mudam, mas também as gentes, a escala dos territórios, a língua. Não mantemos as mesmas tábuas e devemos recusar, conscientemente, a farsa de que fomos sempre os mesmos. As descontinuidades, que podem assustar, têm-se incorporado, mantendo-nos à tona. Importa, quiçá, preservarmos uma brisa que mereça ser respirada. Talvez aqui se encontre uma afinidade entre o uso das palavras puro e livre. Em português, respira-se ar puro quando se trata de ar livre. A pureza não é uma continuidade imaculada, mas uma abertura corajosa e a plenos pulmões rumo à liberdade, ao espanto, aos encontros, aos recomeços, à imaginação.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam assuas próprias posições.]